domingo, 1 de dezembro de 2013

Querido diário,

Quando estamos só nós não preciso do fingido. É tanta intimidade, que não preciso te chamar de diário: basta escrever e pronto: tá ali nossa prosa. Entre nós não há frufrus, nem desejo imoral ou condenatórios, eu e você somos totalmente liberais. Quedamos na mesma cadência e dançamos a mesma música: num espetáculo sem espectadores. Viajamos na caravana do delírio e não nos cansamos de seguir musicando o caminho inteiro. O terno novo nos Cae tão bem quanto os velhos baianos:  vestimo-nos um no outro e encaixamo-nos perfeitamente como nariz e dedos, bailando, girando e limpando o salão feito Cinderela...

Falando nela, a Cinderela... como tenho trabalhado ultimamente! Mal tive tempo de te escrever. Acho que por isso, hoje, vou fazer uma surpresa pra você: vou te eternizar e vou te mostrar para os gatos pingados que me lêem... Engraçado... eu ia falar mais, mas passou a vontade.

sábado, 23 de novembro de 2013

Maquiavélico.

A hipocrisia de transferir os problemas para tudo que é externo, porque pega mal dizer “desculpa, mas o problema sou eu” – tenho que abandonar. O futuro vem do que eu farei hoje – e nós no futuro só apertarão. Não que o abandono seja cruel ou covarde, mas uma superfície áspera é muito mais eficiente do que uma espelhada quando se quer firmeza. Além do mais, não importa o quanto formos contra, sempre haverá algo inalcançável pelo qual lutaremos em favor: seja aquela solidão incurável, seja esta sociofobia intermitente. Resta, entretanto, escutar. Resta, portanto, aprender que nem tudo é ensinar e falar.

Ninguém é tão especial assim, nem tão diferente, nem tão igual. Porque ninguém fala por si, nem escuta, nem age. Isto é, ninguém não existe. Todo mundo sabe que ninguém não existe. Aliás, ninguém me disse que todo mundo sabia, não aprendi só. E só sempre seremos, não importa o quanto maquiemos ou maquinemos para o contrário: todo mundo está só, mas ninguém está sozinho.

Os que são diferentes precisam se explicar por existirem, pois os iguais não concebem facilmente o óbvio e se irritam – com suas razões – por não entenderem o incompreensível. O caminho todo é incerto. Viemos do acaso e para o acaso vamos, evoluindo. Evolução dói. Abandonar o lar dói. Cair de bicicleta dói. Levantar vôo dói também. A dor vai acompanhar todo o percurso e aí? Ficar com ela ou abandonar e fingir que ela não vai te acompanhar?

Mudar a condição humana é tão eficaz quanto perguntar o porquê de uma pessoa ter desistido de um relacionamento e ter voltado atrás dias depois. A lógica moral não se aplica à vida real. A moralidade não tem sangue, nem anda, nem come, nem nada. Ela, a lógica moral, nada mais é que o ridículo medo do ridículo. E “viver sob certos preceitos” é infinitamente diferente do que “viver de acordo com certos preceitos”. A regra da vida é viver – sem medo de errar. Os erros estão para os acertos assim como ninguém, para todo mundo – abstratos, relativos e semi-inúteis. Só o futuro dirá e esperar, aprender e escutar – para mim – são estratégias para viver.

sábado, 21 de setembro de 2013

InfArte

É comum pensar em desistir. Porque tem horas que simplesmente parece que não dá mais. E não vai adiantar conceitos bem estabelecidos, moral intransponível ou razão hermética que vão te fazer manter a máscara de um vencedor. Um dia tudo isso que tu tanto prendes vai sair. Dá pra senti-lo estrangulando tua garganta, fazendo-te engolir o teu desejo de gritar “Basta! Não aguento mais!”.

Nada vai manter sempre fixo aquilo que a natureza quer como livre. Uma mentira é uma verdade que quer ser solta. O que move a vontade é o desejo de concretizá-la. Afinal anormal seria o contrário.

Somos compostos de partículas. Que apesar de constituírem a unidade matriz de tudo que há, coabitam também com aquilo que não existe – o vazio. Ou seja, aquilo que o átomo ocupa é também ocupado pelo “nada”. E querer que tu sejas uma constante linear, honestamente só vai dificultar tua aceitação como indivíduo que comete erros e acertos, tal qual caminhar com pés no chão e vagar pelo vazio.

Mas aí, eis que surge a inconsistência de escrever sobre algo do extra-eu. Ora: que moral eu tenho para escrever sobre como tu fores te portar se eu não sei nem como o faço? Sempre me vi refletido e nunca por completo. Nunca saí de mim para poder afirmar com veemência aquilo que sou. Tudo que sei é no máximo uma análise que o outro faz de mim. Sou o retrato falado de quem sou. Eu nunca interagi comigo mesmo, não há inédito vindo de mim sobre mim. E não cabe a mim incutir um novo conceito de mim, serei sempre aquilo que se absorve – vazio e conteúdo.
Portanto, é inútil te fazer crer que o olhar do outro para uma mesma coisa pode ser diferente. Tu crês até onde a tua fé quiser que tu creias. A tua fé é teu defeito. Logo, em algum ponto teus defeitos aparecerão te mostrando que todos os defeitos derivam de uma coisa só que compõe todas as coisas – o vazio. E aí é comum pensar em desistir. Porque tem horas que simplesmente parece que não dá mais. E não vai adiantar conceitos bem estabelecidos, moral intransponível ou razão hermética que vão te fazer manter a máscara de um vencedor. Um dia tudo isso que tu tanto prendes vai sair. Dá pra senti-lo estrangulando tua garganta, fazendo-te engolir o teu desejo de gritar “Basta! Não aguento mais!”.

E daí me bate uma grande angústia e eu queria que tudo num passe de mágica – Plof! – Sumisse! E assim me ausentasse desse embate e comprimisse mais uma vez essa mola diastólica.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

O Amor é a Força.

Eu sei que existem pessoas más no mundo. Pessoas que sentem prazer em fazer o mal, seja por um fim sombrio, mesquinho ou gratuitamente cruel. Gente que não mede esforço para ser ruim, para espalhar tristeza, raiva, desgraça e sofreguidão. Gente que faz tudo isso em troca de uma sensação estranha que certamente nem eu nem você nunca vamos experimentar, porque simplesmente eu e você somos melhores que isso. (E eu digo melhor não porque há um ranking com o primeiro, segundo e terceiro colocado e dessa maneira seja preciso mostrar um troféu de campeão em função do rendimento inferior do outro; mas sim, porque sabemos que o amor é o melhor de tudo que já se existiu).

Então, por não ousar escrever sobre algo que nunca soube nem nunca me caberá saber, que eu resolvi enaltecer aquilo que conheço bem: aquilo que você tem de melhor. Sendo assim é justamente sobre isso que eu quero falar: as coisas que eu e você sabemos. Quero falar hoje sobre a capacidade de amar.

Com este texto eu quero lhe dizer, ou melhor lhe lembrar, o quão você é importante. E não digo só para mim. Digo para o mundo ao seu e ao meu redor. Eu quero agradecer a você por ser quem você é. Uma pessoa que obviamente tem vários defeitos, contudo possui a mais linda das virtudes: a capacidade de amar, ou seja, a capacidade de desejar e fazer o bem.

Esse humilde rabisco foi feito com o intuito explícito de motivar você, para que você se lembre de que apesar de coisas ruins que acontecem ao seu redor, há também coisas boas: como por exemplo aquilo que você representa para mim. Portanto, essas letras estão aqui para isso, para agradecer o valor incomparável e insubstituível daquilo que você é.

Como eu disse, eu sei que existem pessoas más no mundo e que elas têm por objetivo destruir as coisas boas que as pessoas de bem ralaram para construir. E por isso eu também sei que é preciso combatê-las! E esse é o motivo pelo qual eu estou munindo o meu exército, treinando-o e fazendo a minha contribuição para seu fortalecimento. A fim de que, num dia, vençamos esta batalha e o mundo de amor seja finalmente instaurado. Difícil? Sim. Impossível? Não. Tudo começa com uma ideologia – e qual pensamento não partiu de uma ideia? Começa exatamente assim: encorajando e agradecendo ao amor e a todos aqueles amam.

Com muito amor,

A Você.
De Você.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Entre a sombra e o reflexo.

Tenho a impressão de que todas as coisas que poderiam ser simples e descomplicadas são justamente as mais intrincadas e complexas. E não é que eu me ache a estrela Dalva dos sentimentos adversos, porque sei muito bem que nesse infinito que não ouso explorar devam existir vários outros corpos celestes capazes também de emitir coisa parecida a isso que sinto. O ponto é que, com certeza, “igual” jamais alguém poderá sentir – assim como, obviamente, eu nunca terei sentimento idêntico ao de outrem. Aliás...

Aconteceu hoje. Acordei e, como de costume, tratei logo de minha higiene matinal. Fiz xixi, lavei minhas mãos e enquanto escovava os dentes já pensando no banho, notei uma coisa que me apavorou. Ela estava ali, com a boca espumando frente a mim numa janela vítrea que se costuma chamar espelho. Não era seu cabelo riçado ou seu rosto inchado que me causara surpresa. Era o conjunto. Ela me olhava despretensiosa com um olhar pétreo, desfocado, perdido, enquanto eu, pelo outro lado – do vidro – me encontrava atônita!
Não reconheci aquela imagem invertida de mim. Contudo não era só o físico que me incomodava: era sobretudo a enxurrada de dúvidas que brotava em proporções geométricas a cada pergunta não solucionada: Que olhar era aquele? Quais eram seus sonhos? Ou seriam meus sonhos? Por que eu insistia em me achar distinta daquilo que via?

Algo me incomodava, isso era fato. Mas o quê? Foi aí que captei uma onda eletromagnética provinda de meus fótons refletidos (ou seriam emitidos) decodificada pelas minhas antenas cerebrais a qual dizia que minha cara refletida trazia consigo quatro décadas. Quatro décadas de escolhas. De escolhas que muitas vezes não foram minhas, não foram inatas de mim. Escolhas que não foram certas. E foi então que nessa específica manhã, que eu percebi – ou quis perceber – quem eu era. Daí meu estranhamento comigo mesma.

Minha sombra, entretanto, continuava a mesma: blasé, direta e difusa. E, por isso, por achar finalmente algo meu com o qual eu ainda era habituada, de certa forma me identifiquei. Eu não era aquela da imagem, eu era aquele borrão escuro sem feições.

Todavia, após ver os dois ali – sombra e reflexo – por tanto tempo, sem querer esbocei um sorriso. Um sorriso impensado, sincero, gentil. Um sorriso do ridículo que de tão digno se fez refletir sobre o espelho (e obviamente não pela sombra). E graças àquilo – aquele simples rascunho de alegria – pude sentir que eu ainda fazia parte de mim. Logo, terminei, por fim, me entregando e rindo, tendo ainda que dar explicações bestas a uma terceira “eu” que me perguntava: o que foi isso, hein?

sábado, 2 de março de 2013

Dá um tempo! (Parte 7 – Final)


É comprovado cientificamente que bêbados pobres têm mais sorte que bêbados ricos. Ora, nunca se ouviu falar na face da Terra a história de um pobre bêbado transeunte envolvido em um acidente de trânsito – não pelo fato de eles não dirigirem alcoolizados, mas sim por eles possuírem um sensor mais aguçado que o de tubarões brancos no quesito se esquivar de carros ao atravessar um avenida. Fato é que nossos recém-mega-afortunados embriagados conseguiram por milésimos de segundo chegar a tempo à parada de ônibus para pegar aquele que eles julgavam ser o último transporte público do dia e de suas vidas.

"Estudante", dizia a voz feminina gravada quando eles validaram suas passagens na roleta do ônibus. Se fosse realmente coerente com a condição daqueles usuários que de tanto correr transpiravam todo o uísque que beberam, tal voz diria "Estudante só no final do semestre", ou então simplesmente "Vagabundo". Porém ao ouvir aquele som referindo-se a eles, José acrescentou ao amigo:

– Você pretende continuar estudando? Meu pai me disse que uma mente sem estudos, mais cedo ou mais tarde faria qualquer rico ser pobre. Ele disse que era preciso eu terminar a faculdade.

– Pois diga ao seu pai – respondeu o alterado Marcelo – que com o dinheiro que iremos ter poderemos começar a construir e terminar a faculdades que quisermos em menos de 3 anos. Mais rápido, garanto, que isso que chamamos de curso de engenharia.

E assim gargalharam! Tão espalhafatosamente que chamaram a atenção das outras pessoas que esperavam outros ônibus ainda na parada. O motivo de tanto riso, obviamente, não era a péssima piada, tampouco a embriaguez. A razão de tanta graça, lógico, era a riqueza que tornava-lhes a vida cada vez mais risível.

Após cada qual descer em suas paradas e tomarem seus destinos, ainda trôpegos (a essa altura, mais de dinheiro do que de álcool) chegaram sãos e salvos a suas respectivas casas. Como era de se esperar, ambos entraram na internet, porém, decidiram que não queriam chamar atenção, afinal, não queriam amigos sangue-sugas nas suas colas, muito menos gente com más intenções em seus encalços. Então por isso, cada qual atualizou seu perfil com frases vagas, meramente aleatórias, sem qualquer referência aos prêmios que eles ganharam, como por exemplo:

"NãO qUeRo DiNhEiRo, Eu Só QuErO AmAr - SQN"
ou
"ViDa BoA! V1d4 L0k4!"
ou ainda
"Que porra é essa de que o sorteio da mega-sena foi fraudado e existam outros 108 mil ganhadores!? Alguém sabe de alguma notícia sobre isso? QUE LOUCO!"
ou melhor
Dá um tempo! 

FIM. 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Partida.

No princípio, mesmo antes de tudo tomar corpo, já se dizia que aquilo não iria dar certo, que era impossível, inviável... contudo, como era de se esperar, a obstinação disse que iria fazer mesmo assim e iria provar por a + b que ela estava certa. Os incrédulos por sua vez tiveram de aceitar resignados a tentativa, afinal nada podiam com a sua vontade. E foi assim, enquanto a concordância ainda pensava no que responder, em meio à discordância e obstinação que nasceu o projeto d'A Terra da Concordância. Um projeto ousado que, admitamos, era bonito, tinha bons princípios e tudo mais que era preciso para alcançar o sucesso.

Conforme o esperado, tudo começou muito bem. Ao norte já se ouvia o burburinho de que algo novo estava por vir. "Veja! Veja! Eu moro n'A Terra da Concordância! É ótimo morar aqui! Você deveria experimentar também!" Não demorou muito então até que a fumaça das terras boreais tomasse tamanha proporção a ponto de que o sul todo notasse que algo quente vinha daquelas bandas. Foi nesse cenário que um antigo comerciante, que vivia sempre de lá pra cá fazendo sua vida, aportou o novo conceito consigo. 

E boom!

Rapidamente a novidade se alastrou. A Terra da Concordância granjeava mais e mais territórios pelo norte,  sul, leste e oeste! Não havia um lugar onde não se ouvisse falar dela. Ela abarcava consigo a alegria, os sorrisos e joias  mais brilhantes. A Terra da Concordância começava portanto a enraizar seus conceitos de que compartilhar era bom, era o importante. Todos estavam contentes, dançando, cantando, concretizando assim as bases da nova terra.

Entretanto, eis que sem motivo aparente uma onda de calor vinda de não se sabe onde invade o multicontinente d'A Terra da Concordância. Muitos continuaram a amar o calor, a ir à praia, à piscina, ao rio, à lagoa ou mesmo ao parque para se refrescar e diziam que isso era bom. Porém enquanto alguns se divertiam com o a alta temperatura, outros passaram a destestá-la. De um lado essas ondas de calor geravam vários momentos bons, do outro, problemas e situações desagradáveis começaram a incomodar. Logo, aqueles que não tinham praia, piscina, rio, lagoa ou parque por perto e que, ao invés de tirar algum proveito do calor, não podiam nada além do que lhe suportar, resolveram ir para lugares onde as circunstâncias soavam melhores. E foi aí que tudo começou a ruir.

As pessoas que usufruíam daquele calor não queriam que os outros tomassem seus espaços, enquanto aqueles sedentos por uma gota d'água não tiveram outra opção a não ser reclamar, iniciando portanto oficialmente à ruptura da muralha que maquiava toda aquela falsa comunhão. As pessoas esqueceram que A Terra da Concordância não era algo físico, próprio e restrito. Aliás: isso nem passava mais em suas cabeças!

O que se deu foi que com o tempo, A Terra da Concordância tinha formado indivíduos que esperavam que todos curtissem o que eles dissessem. E assim, ela deu voz à arrogância figurada em opinião própria. Ela fez seus habitantes crerem que se há algo ou alguém com que eles concordassem, esse deveria ser ouvido, ovacionado e divulgado, enquanto que se há algo ou alguém com o qual eles discordassem fosse motivo para se munir empáfia, rudeza e desrepeito. Ela criou milhões de indivíduos que se sentiam plenos quando opinavam, que queriam ensinar tudo a todos, mas se esqueciam de que compartilhar é também escutar, aprender e principalmente absorver sem segundas intenções de refutação para mostrar superioridade.

A obstinação mostrou ao que veio. Provou por a + b que iria tornar A Terra da Concordância um sucesso incomparável. Quanto à pobre da concordância coitada, sem culpa de nada, vendo seu nome se propagar a torto e a direito se entristeceu com o que viu e resolveu partir para algum lugar onde ter opinião contrária não fosse motivo de iniquidade, onde não houvesse todo esse egocentrismo multiplural impelido, travestido e apregoado como obrigatório. Ela, a humilde concordância, sem ter a quem perguntar findou por questionar a si mesma se ela via propósito em se inserir nisso e simplesmente descobriu que essa luta feroz de imposições comportamentais em acordo com as normas de uma terra que nada dizia respeito a si, era algo que ela nunca quis.

E dessa maneira, sem falsa modéstia e sem hipocrisia, a concordância fez o que fazia de melhor e usou as palavras de outrem como suas sem medo do que vão pensar e descobriu que ela poderia até não saber o que lhe fazia bem, mas com certeza sabia o que não lhe fazia. E assim, arrumou suas malas, saiu à francesa e partiu rumo a um outro lugar que não sabia onde era, mas que certamente era bem longe dA Terra da Concordância, que diziam ser sua.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Fotos

Assim que eu cheguei aqui, uma onda terrível de solidão pincelada à sofreguidão se apossou de mim. Eu não tinha na cabeça outra ideia a não ser desistir de tudo que acabava de começar e voltar ao meu amparo, ao meu ninho, à minha terra tão amada e, acima de tudo, àqueles que tanto amo e que tanto me amam. Desde quando pisei nesse solo duro só o que passava pela minha cabeça era uma mistura amarga entre o sentimento de não-pertencimento e o de impotência, tão adstringente, que até hoje essa lembrança do gosto é ainda tão forte, que acho por vezes que ela vive concomitante a isso que chamam de adaptação.

Por isso, num instante crítico, pensando em adocicar um pouco as águas desse mar de amarguras, resolvi evocar minhas origens e, para tanto, mandei revelar fotos de meus bens mais preciosos: meus amores. Lembro de cada lágrima escorrida na seleção das fotos, como se escolher as fotos fizesse parte de um ritual de ressuscitação e reviver aquilo, caramba, era o que mais me daria vontade de fazer na vida!

Elegidas as fotos, impressas e coladas na parede ao lado da minha cama, conforme o esperado, me senti, pela primeira vez, mais confortável aqui. Mesmo que elas não pudessem me abraçar, ou me refrescar, ou me dizer palavras que aprazassem, vê-las ali era como se em parte eles estivessem ali. Não sei o quanto de física quântica garantem a presença deles ali, mas com certeza sentia boas energias dessa nova “decoração”. 

Porém, o tempo – esse monstro – me fez conhecer gente nova, me fez visitar lugares novos, me fez experimentar coisas e sensações que eu nunca havia experimentado antes e isso me foi realmente agradando “petit à petit”. Eu começava finalmente a me integrar a essa nova vida. Saía para os lugares, me divertia e, ocasionalmente, tirava novas fotos...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Acho que eu não sei não.

Não vou mais fumar. É difícil. Não vou mais porque eu quero viver mais. Paro de fumar porque quero ter qualidade de vida, uma vida mais saudável. Uma vida sem preocupações com o futuro. Porque nem tão cedo vou morrer, nem vou sofrer, nem vou me arrepender se eu paro de fumar. Vou parar de fumar porque é o melhor pra mim, vou ser mais feliz. Afinal, eu estou sendo feliz agora, depois que eu parei de fumar. Tenho que parar de fumar, para que eu seja alguém melhor. 
Fábio tirou esse pensamento das críticas que ele recebia. Ou foi dele mesmo em suas próprias críticas a si. O fato é que as críticas existiam e elas faziam sentido. Em algum instante Fábio quis então saber o porquê dessa preocupação toda. Ele quis saber qual o motivo das pessoas, inclusive ele mesmo, se unirem numa causa. Fábio queria saber o que une as pessoas. Ele se perguntava se era a necessidade fisiológica ou financeira. Ou se era um desejo ególatra de querer alguém por perto com o descarado pretexto de compartilhar momentos. Fábio se perguntava sobre o porquê de trocar experiências. Para Fábio trocar experiências significava justamente oferecer e receber experiência. Mas Fábio não podia fumar. Nem podia trocar experiências.
Precisamos pagar um preço caro para ter as coisas que possuímos. É. Precisamos.
Fábio teve uma ideia. Era melhor que ele trocasse todos os pontos finais por interrogações e lesse o texto novamente.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Como vai?


– Boa tarde.

– Boa tarde, como vai, Fábio?

– Nem tudo tão bem.

– Conte-me dos seus problemas.

– Então doutor, estou pensando demais.

– Sei...

– ...

– Acabou?

– Sim, acabou.

– Ok. Conte-me como são esses pensamentos? Você pensa em quê? No trabalho? Nos estudos? Na família? Nos relacionamentos? Problemas insolúveis?

– Em todos acima. E some a isso causas políticas e ideológicas também.

– Entendo. E você às vezes sente algum incômodo com isso?

– Sim. Durmo muito pouco, me isolo do mundo, me puno por tudo que acontece ao meu redor...

– E com que frequência isso acontece?

– A todo instante.

– Agora mesmo?

– Sim.

– Você pode descrever?

– Ah, doutor! Pensamentos perniciosos.

– Pensamentos perniciosos agora? De que tipo? Você sente vontade de matar? De transar? Pode falar, eu preciso saber a natureza desses pensamentos pra que a gente trabalhe junto sobre a orig...

– Não. Sinto vontade de citar algumas características desconfortantes das pessoas ao meu redor.

– Características desconfortantes? Mas todos têm defeitos, não acha?

– Acho não! Tenho certeza. E é por isso que eu não queria mais pensar sobre isso... o tempo inteiro.

– O que você vê de características desconfortantes em mim agora?

– Não vem ao caso, doutor.

– Pode dizer, eu sou profissional.

– Ok. Eu pensei no fato de que além da falsa preocupação que a maioria dos doutores têm, você ainda está sendo vaidoso ao querer saber o que eu penso sobre você.

– Não, de jeito nenhum.

– Viu? Você não se esquivou com um “ok, esse pensamento é blábláblá”. Você apenas quis se defender de uma acusação besta minha, um paciente qualquer. Típico vaidoso.

– A vaidade é um sentimento bom, às vezes.

– Hahahahahahaha!

– ...

– ...

– O que você tem é criticismitite maliciosa aguda, beirando à crônica. Muita gente vem aqui, ao meu consultório, com sintomas muito parecidos com o seu. O tratamento existe, mas é muito complicado e por isso vem com um livrete – que no momento acabou. Eu vou pedir para minha secretária postar para você todas as informações, assim que chegar nas minha mãos. Acredito que em um dia ou dois você vai ver esse livrete.

– Ok.

– Acabamos por hoje?

– Sim, sim!

– Tchau, rapaz! Espero ouvir boas notícias suas em breve!

– Ah, eu também! Tchau, doutor Facebook!


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Confundindo as bolas.

— Sabe, Ricardo, estive pensando... está tudo bem em nosso relacionamento? 

— Hã! Claro que sim, amor! Hun... Por que a dúvida?

— Não sei... Esta madrugada acordei, como de costume, com você falando sozinho enquanto dormia. Você falava umas coisas que gostaria que fossem mais esclarecidas, agora que você está acordado.

— Mas, meu bem, você bem sabe que esses meus sonhos não passam de coisas sem sentido, às vezes são coisas que eu vi na rua ou na novela e que simplesmente afloram o meu inconsciente. Nada que esteja sob o meu controle.

— É, eu sei... talvez seja uma mensagem do seu inconsciente para mim. Talvez, seja mesmo um sonho bobo sem sentido... Mas...

— Mas?

— Como era o nome mesmo daquela nova secretária que foi contratada no seu escritório?

— Jeane, Jéssica, Jesebel. Algo com jota, por quê? Falei no nome dela durante o sono?

— Pois é. No seu sonho ontem você não parou de falar no nome dela.

— Ah, amor! Ela foi recém contratada, é um rosto novo que eu tenho que me habituar, só isso. Ela trabalha com o Dr. Pimenta atendendo telefone na sua sala. Quase não tive contato com ela...

— Mas foi você quem mostrou a empresa pra ela, não foi?

— Juntamente com todo o resto do grupo. Eu, Dr. Pimenta, o Eduardo, Dr. Cláudio, o zelador e o Antônio que serve o café. Estávamos todos juntos, como de costume em qualquer contratação no escritório.

— Não sei, Ricardo... parecia que tinha sido uma mostra mais íntima.

— Amor, que tal ir direto ao ponto?

— Pois é! Era isso que eu gostaria que você me dissesse.

— Poxa, Dani! Já falei que não deveria levar a sério essas coisas que eu falo enquanto durmo, são só coisas que não tem nada a ver com os meus pensamentos reais. São como histórias em que eu sou só o narrador, além do mais...

— No seu sonho, você pedia que ela ficasse na sua sala. Que ela esperasse lá sozinha.

— Sério que você está implicando com isso?

— Sim. Mas não acaba aí.

— Pois continue!

— Você a trancava lá.

— E...?

— E aí você virava para o pessoal com quem você trabalha e dizia: “Tudo pronto, rapazes, agora o Ricardinho aqui é todo de vocês. A Jeane está ocupada agora.”