segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Asssíduo.

Eu queria ter menos segredos pra contar, menos receios guardados, menos interesses contidos. Eu queria não ter medo de voar, disse a cobra.

Eu lembro que quando era pequeno tinha um sonho rotineiro de voar. E cair. Sempre o mesmo sonho: voar e no meio do voo, perder minhas forças, meus super-poderes e despencar em queda livre. Isso me apavorava! Fazia-me perder a paz, tremelicando sobre o meu travesseiro suado a chorar até que o cansaço opioide das lágrimas me vencesse. Ficava a pensar na decepção, na vergonha e na impotência que é ser incapaz de voar no meu próprio sonho. Doce é a infância onde nossos principais medos são os sonhos.

Às vezes quando eu me admiro por algo, sinto empatia por essa admiração. E eu não me orgulho disso, nem tenho ojeriza. Confesso que a única coisa que sinto é medo. Um medo social, um medo velado, que é o medo de explodir, de evitar o inevitável e meus segredos, meus dramas, minhas palavras, meus nãos, meus sins viessem todos à tona de uma vez. Meu eu no centro da arena, exposto aos leões da ética, moral, “respeito” e bom senso.

Talvez por isso sinto-me atraído pela fantasia de viver em minha própria mente. Não consigo ver uma coisa, gostar dela e não a querer para mim. Chamo-me de invejoso por isso, alcunho em mim as mais deletérias palavras a fim de reprimir esse ser tão abjeto com quem convivo! A ponto de humilhá-lo cada vez mais, ao prosseguir destas palavras. Ao ponto de fazer-lhe crer que seu único lugar de direito é o túmulo. Ou nem tudo isso, afinal, é poética demais a morte. Ele merecia rastejar eternamente pela inexistência.

Mas, mesmo assim, sem poder voar e expor meus segredos, me visto de medo. De medo de ser morto, preso ou coisas assim... Lembrei do pecado original que eu não posso cometer, muito embora minha essência seja de querer o contrário. Sim, se é assim secionado e sancionado a sequela do senso social, somos só isso e a sós seremos sempre o enguiço. 

Algumas palavras é preciso nem serem ditas, por isso, as guardo pra mim, por isso tantos segredos, tantos receios, tantos interesses contidos, tanta ânsia de voar, sussurrou a cobra. 
Ninfomaníaca

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Eidético.

Há coisas que não adianta contar, sentir é fundamental. É como uma agonia que uns sentem ao pegar em Bombril, ou que outros têm ao arranhar de um quadro, ou lixas de unha... Não descreve-se uma agonia, senti-la é fundamental.

Paixões também são assim. Não dá para simplesmente descrever o porquê de se estar apaixonado. Ora! Você acha que seria fácil não se apaixonar por alguém pra quem seu coração faz tuntum? Podem dizer, “Ah! Mas é lógico que dá para descrever: você acabou de descrever, afinal”. E daí eu pergunto: com que onipotência você pode garantir que estou descrevendo aquilo que senti? Com que prerrogativas, você pode me dizer que sou movido pelas circunstâncias? Quem, dentre tantos semi-deuses, pode medir aquilo que tanto fere ou apazígua no meu peito? Quem define se apazígua ou fere, se nem eu sei discernir!? Sinto muito, mas não importa como a gente tente explicar o inexplicável, é humanamente impossível compreender algo sobre-humano.

Por outro lado, parece de uma obviedade tão banal que por sermos fisicamente composto de ondas que passeiam pelo espaço, simplesmente ao acaso, assim, trombamos umas com as outras e reagimos. Queremos reagir. Somos movidos às reações, ao inexplicável, ao m i s t e r i o s o.

O tempo é a razão de todo mistério. O tempo é o acaso que põe duas partículas para colidirem naquele espaço. Mas o tempo não se pode conter. Tenta-se, mas não se pode captá-lo, reproduzi-lo, revivê-lo e, consequentemente, explicá-lo. O tempo que lhe dá ou tira ou devolve essa ou aquela paixão do seu peito. E dominar o tempo certo das coisas é uma tarefa que requer muito muito tempo.

Agora, se hipoteticamente existir alguém que não consegue sentir isso, essa vontade de explorar e ser explorado, esse desejo de conter e estar contido, peço apenas que lhe passe a questão: quais são as alegrias ou os dramas em não sentir nada? Como você me explicaria algo que você nunca sentiu ou deixou de sentir? Com que palavras definiria o vazio que você anti-fisicamente emana?

Azul é a cor mais quente

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Chá verde.



– Eu queria me matar.
– Ora, diga-me uma novidade.
– Não paro de pensar nisso.
– E qual o problema em pensar nisso?
– O problema é que eu amo muitas coisas que deixaria aqui. Muitos sofreriam desolados, muitos desejariam as suas próprias mortes também...
– Não se incomode com isso. A gente só sofre pelo que existe e o tempo que lhe fez ser algo, também há de lhe fazer ser nada – uma boa memória... no máximo. Tudo há de passar, inclusive a dor deles...
– ...
– Inclusive a sua dor passará! Portanto, se o motivo é essa possível dor que você deixaria, sinto informar, mas isso que cê sente é besteira: um dia você está triste, noutro você está feliz, no outro você estará triste, no seguinte, feliz... é assim para todo mundo.
– Sim, eu sei. É exatamente isso que não me dá vontade de continuar vivo. É como se eu precisasse me sentir mal pelo mesmo motivo de precisar me sentir bem, ou seja, viver.
– Viver é uma contagem regressiva para a morte. Talvez essa competitividade que assola o nosso universo humano seja o embuste ideal da curiosidade para justificar o injustificável: “não devemos morrer porque não viveremos para saber”.
– ... saber o quê?
– Aquilo que não se precisa saber: o fim.
– O fim é igual para todos. Mas, por que não se precisa saber dele?
– Porque no fundo somos assim: ora, pense em como é horrível um afogamento! Já entrou água no seu nariz? Você sabe como é a sensação? O que você faz imediatamente depois de se queimar? Quando você tropeça e machuca o dedo, o que você faz? Temos o instinto de sobreviver... ou seria subviver.
– E quando você precisa pôr fim?
– Há certas decisões nessa vida que não cabe a nós resolver. Mesmo que tentemos, mesmo que argumentemos, há entraves na vida que temos que apenas de engolir e, de uma forma ou de outra, passar e nos reerguer, mesmo pensando ser o fim.
– Não acho que eu seja tão forte assim...
– Se você não fosse, você não teria me falado nada. Não teria incomodado o peito. Relaxa, o tempo já te ensinou a se acalmar e você sabe: a vida só acaba quando ela termina sua missão. Veja o meu caso: sofro, me destruo, mas noutras me reergo e penso nas coisas boas! Reerga-se que você precisa se cuidar mais! Há muito ainda para fazermos juntos, viu, coração!?
– Não sei nem o que lhe dizer... Muito obrigado. De verdade, fígado!


domingo, 27 de abril de 2014

Rolezinho.

Um medo bateu. A natureza me alerta do que vem por aí. Um vento ateu secou meu suor frio e afins, arruinando assim o que havia das promessas em mim.  Não sinto o chão, porque não caminho nele – apenas piso. O chão e eu estamos em sintonia – queremos marcar. Pisando, impulsionando, transitando, trafegando, granjeando, fluindo e gozando.

Era só um vento que me azucrinava. Me recupero. Observo a consciência. Verifico se está tudo bem. Não há muito o que olhar, a rua está deserta, o caminho é conhecido e o medo também. Às vezes eu penso se é só ele, o medo, que me faz sentir assim. Morrer, fugir, largar, deixar, correr e gozar.

Caminho em duas vias. Faço promessas para jamais vê-las cumpridas. Crio tarefas para nunca serem atingidas. Mas aí, coloco tudo no asfalto outra vez.

E me sinto fajuto, forçado, falso, ferido, feroz. Felino. Passo por dois que me olham, me analisam, me alisam com o olhar. Invadido. Um foge. Medo ou sabedoria? Como ele saberia o que eu iria fazer? Seria ele o evoluído?

Passo. Vou até a savana. Os veados vinham de todas as direções. A hiena passeia com a guarda baixa e pensa: carne fresca. E eu só observo, desinibido. Vendo a floresta gozar. Hakuna Matata!

Escuto vozes. Meus amigos de longe chegavam. Lindo vê-los! Nosso lar, nosso culto, nossa vibe, nossa igreja! Nossa Senhora! Que vontade! Que maravilha é ser feliz com os amigos! Quis ficar, mas meus trajes não condiziam com o local. Estava nu, como eu gostaria que todos estivessem. Mas a roupa é linda também. A fina estampa, a Gaga e a Romagaga – todas são lindas também. Era preciso se vestir.

Findo por voltar e retornar para o ponto de chegada da saída da entrada do começo do término da ida partida que ainda virá.

sábado, 15 de março de 2014

Meretíssima,

Vim hoje aqui tentar interceder pelo meu cliente em prova de sua inocência. Eu sei que este já é o último apelo que eu posso fazer e quase tudo alega para que meu cliente seja realmente condenado. Sei que todas as evidências apontam para a sua culpabilidade. Sei que ele cometeu o delito e que provavelmente, ele poderá apodrecer na cadeia.

Eu vim de casa determinado a desistir de tudo – de repetir o discurso de ontem, com outras palavras só para passar o tempo da defesa. Contudo, nesses últimos instantes, um argumento desesperado, mas nem por isso insignificante me veio à mente. E ele se refere à muito distante, porém concreta, relação que a Senhora tem com meu cliente e comigo. Peço, de antemão, que escute a toda a minha sequência de pensamentos sem interrupções, para que então depois eu possa responder a quaisquer eventuais questionamentos da acusação. Ei-la:

Conforme foi provado, pela gravação, meu cliente cometeu sim esse crime: está tudo lá. Entretanto, dentre todas as provas, eu gostaria de citar uma que se refere à Senhora, ou pelo menos ao papel que a Senhora representa. Ele começa falando de sua importância na vida da sociedade e – por que não – na vida do meu cliente e na minha. Sabemos, por exemplo, que é preciso coragem e pulso firme para estar onde você está. Sabemos que a coerência e o bom senso devam ser seus alicerces nesse senso de justiça que nos rege. Logo, Meritíssima, julgar é o seu ato mais corajoso. Você detém autoridade quando julga.

Sendo assim, você é tão competente na arte de julgar que se julga até mesmo superior em relação aos meus julgamentos e aos dos demais. E eu e meu cliente nos perguntamos: quem deu esse valor ao seu julgamento? Você mesma, seu mérito? Ou a sociedade, eu e os outros?

Essa relativização se faz mesmo necessária na sua ou na nossa vida? Precisamos ser comparados ao que é certo ou errado? Você precisa julgar para nós, como indivíduos organizados, nos sentirmos alguém? Ou você é superior a isso tudo e por isso se senta nesta tribuna elevada? Sua verdade é a única verdade aceitável? Onde fica a parte que eu não quero ser obrigado a viver sob suas leis? Onde fica a parte da liberdade do meu querer? Do querer do meu cliente? O seu querer tem que ser superior ao meu? O seu desejo de justiça tem que anular o meu? O que te faz ser mais importante ou especial que eu?

Alguém, durante sua vida, já impôs uma vontade sobre o que você sentiu ou tudo na sua vida é só nuvens que nunca chovem? Ou você vai me dizer que a Senhora nunca passou por momentos de tristeza, ou de remorso, ou de arrependimento, ou de orgulho, ou de raiva em sua vida? Se nunca,  que embasamento, Senhora Juíza, te faz ser tão capaz de julgar meu cliente, a mim, a si e aos outros? Se sim, que capacidade é essa sua de culpar um semelhante por cometer um crime que você também poderia cometer? O que é o senso de justiça senão uma sensação?

Sei que não vem ao caso falar hipoteticamente sobre a Senhora nesta tribuna, mas ainda assim, considero importante, para concluir o meu raciocínio, que reavalie sua decisão de culpá-lo perpetuamente sem levar nada em conta o que eu disse sobre a fragilidade de seu julgamento e fingir que o que eu falei não feriu seu ego, nem te deixou incomodada. Duvido que a manchete do próximo jornal não vá te envaidecer por ter conseguido condenar o mais astuto dos bandidos, a sua própria consciência.

Obrigado.

domingo, 2 de março de 2014

Ingrato.

Não importa o que houver, estarei sempre errado. Se eu sinto, estou errado. Se abafo o sentimento, também estou. Se me calo, errado. Se falo, erro novamente. Como pode alguém sentir, implodir, falar ou calar um absurdo desses?

Entendo que todos erram, mas não é o caso: eu sou COMPOSTO de absurdos – diferente dos outros que no máximo, depois do que Fernando Pessoa disse em seu poema em linha reta, escorregam quando o maldito piso está molhado com a maldita água.

Mas... não importa! Tudo está resolvido: o que acontecer é culpa só minha e de mais ninguém! Um avião que caiu, a culpa é minha! Ora! Quem mais, além de mim, pode adivinhar que aquele voo iria cair? Quem mais, além de mim, poderia prever que aquela viagem não fosse finalizada? É óbvio, é evidente que é tudo culpa minha!

Quem dentre esses que me leem de tamanha coerência poderia ser culpado por se bancar de culpado? Nenhum, claro. Somente eu posso ser culpado por ser culpado. Eu! Quem é que não deve ser achincalhado, apedrejado, humilhado, espetado, pressionado, xingado e sangrado por estar sendo o coitado da situação? Eu, lógico! Situação esta obviamente tão previsível quanto à queda do avião.

Quem poderia ser tão monstruoso a ponto de ser tão sincero quanto eu ao querer ser como eu? Quem mais haveria de ser tão abjeto em querer ser quem se é quanto eu!?

Viram? Sou o culpado merecido, mas por favor, deixem-me continuar tentando ajudar-lhes com algo que talvez vocês não precisem – em troca dessa misericordiosa concessão que vocês me dão para se poder ser.


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Velha e louca.

Mais cedo ou mais tarde você tardará por escolher um bom caminho, depois de ter escolhido no passado um mau – eu sei disso. Todas as questões, todos os embates, todas as bifurcações que passarão pelo seu caminho levam a outras questões, embates e bifurcações. E você só saberá da estrada quando a tiver concluído. Não há outra, porque afinal, da vida só sabe quem viveu. Só há um meio de você descobrir o que tem além da morte. Só há uma escolha feita nisso tudo: viver... ou morrer. E não há certo ou errado para qualquer uma dessas escolhas. Ou se está vivo ou se está morto.

E eu... como não estou morto, vivo. Opto por não ter medo do ridículo. Porque acho que ridículo mesmo é se aprisionar, é acusar, é reprimir aquilo que se é – e apenas é. O verbo ser nada mais é que um Ser – ele não precisa se explicar. Ele pode simplesmente ser (o que ele quiser). Ridículo é isso: é negar a sua condição humana como Ser Humano.

Afinal, só porque vejo isso é motivo para eu ser o único culpado de um crime que todos cometem, mas fingem que não cometem? Eu, meu filho, demorei a atinar pra isso. Veja, você nasce em pecado e disso não dá pra negar. Ora! Você nasce com uma dívida social já de início com seus pais e familiares. E nem por isso você cogitou que tudo que ocorre ao seu redor é também responsabilidade sua. Ou seja, você não se bancou de vítima da situação, porque a situação também existe por sua causa.

Portanto, reveja. Reveja tudo que você fez e não se importe se está cometendo um erro, porque o erro é o acerto do futuro. E por falar em futuro, faça sua parte e esteja sempre em comum acordo com a sua situação, afinal de contas, as bifurcações existem para você poder escolhê-las, onde mais cedo ou mais tarde algo dentro de você te fará escolher uma má. E é sobre isso, sobre esse “algo dentro de você” a causa desse grande estardalhaço na sua vida! Sobre essa sensação de não estar fazendo aquilo que queria.

Uma frustração a mais ou a menos, filho, virão – são inevitáveis. Quanto mais velho, mais frustrações, mais dores – portanto desfrute a sua graça de viver! O estardalhaço só existe mesmo porque você não se aceita. Pra aqueles que estão do outro lado, deixe-os falar.

Escute os mais velhos, mesmo que eles sejam você mesmo. Dizem que depois de velha comecei a ficar gagá. São eles, meu neto... São eles que querem me levar pro asilo! Diga-lhes pra mim, conte pra eles que não sou louca!


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Sim, você, nós dois...

E a tinta se estagnou ali. Borrada, esparramada sobre a tenaz e normativa claridão de uma folha vazia. Aquela tinta de espera e ao mesmo tempo desistência. Há mesmo tanto assim para aprender? Há mesmo tão pouco a se prender?

No pulsar daquela tinta um oceano desembocou, trazendo consigo águas remotas de mares já antes navegados. O papel era transpassado pela tinta, lambuzado e impregnado pela extensão de um inofensivo, mas ainda catastrófico ponto.

Aquela marca não era apenas um simples quadro abstratamente plurissignificante aos autores, ela era o inevitável. Era sangue a tinta. Era um sangue coagulado, explícito, transfundido, doído, difícil. Era sangue que corria da ponta da caneta ultrapassando o papel e manchando as outras folhas do que outrora fora escrito.

E o pobre escritor – coitado – quando se vê ilhado de tinta, ao longe divisa uma luz no reto horizonte daquela obscura branquidão. E a luz lhe dizia: siga-me. Quedando-se assim à entrega. A admissão que já não havia mais motivos de não se desprender do chão, atirando-se impiedosamente à correnteza. Esta o levaria a algum lugar. E este lugar, este nome, este motivo, este desejo era finalmente algo que no fim se alcunhou arte.