segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Fuio.

Foi-se como quem dorme bem. Não que lhe atribui à morte plácida, mas sim à morte simples. O ponto final da reticência que sua vida lentamente escrevia. Talvez estivesse contente afinal, contudo seu rosto era inexpressivo. Era intrigante porque o corpo estava todo contorcido. Parecia-se um feto com um rosto cor de geleia. Os olhos estufados alegavam nada além de que seu rosto coisa alguma avistava.

Conclui-se que a dor era só dor emancipada. Separada e impregnada no corpo, mas não na alma. Olhos de felicidade? Já não se havia brilho para afirmar. Quem sabe olhos de completude, porém não de dever cumprido: como foi dito: o ponto final da reticência: um fim da vida já terminada.

Mudou-se para aquela cova retangular um mês depois que sua mulher o dispensara. Passou o mês entre a vida familiar e a cova familiar numa pousada um andar acima de um boteco freqüentado por putas e velhacos viciados em craque. Experimentou craque e gays um dia, todavia se enfadou. Cansou-se porque não se viu fazendo algo realmente novo, motivacional, como em toda sua existência de relações.

Alimentava-se somente quando a víscera lhe estremecia. Tinha a dor para motivá-lo. A insuportável agonia da dor lhe tirava a vida e o pior é que lhe dava também, num compasso cujo ditador coração regia.

Acumulou-se três meses de aluguel atrasado e três meses de decomposição. Só descobriram-no quando o encanador do apartamento vizinho, que suspeitava de vazamento de gás de cozinha, observou por

— Um fuio?

— É: um buiaco na parede. Ói aí! Tá morto!

Foi-se um morto de inércia. Aliás, um troço de inércia: só é morto quem já viveu.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Paixões.

Primeiras paixões. Ah, as primeiras paixões! Tudo se torna tão belo! Os dias são eficazmente mais brilhantes. Aquela prova de química? Foi 3, mas valeu como um 10! Nas primeiras paixões tudo é assim: mais bonito. Inédito, pra dizer a verdade. Inédito porque é algo completamente novo contemplar a beleza da vida comum por esses olhos ardentes. Ah, as primeiras paixões! É também nas primeiras paixões que queremos compartilhar as primaveras. “Mandar flores ao delegado, bater na porta do vizinho e desejar bom dia, beijar o português da padaria” e tudo o mais pra que todos reflitam do mesmo modo os fótons amorosos do nosso farol ocular. Queremos tanto esse mundo perfeito que até nos iludimos pensando que nos subjugaríamos para que o mundo fosse cada vez mais cintilante quanto nossos olhares. É a tentativa de perdurar o gozo infinitamente efêmero dos suspiros do ‘eu te amo’. É lindo!
Não disserto para não-apaixonados, porque se já é difícil expor uma ideia, imagina transpassa-lá para pessoas que nem sabem o que ou como ela é. Portanto esse texto é para os apaixonados! Para os perdidamente apaixonados! Para aqueles que dariam tudo para ver seu amor mais feliz.
Quando estamos nas primeiras paixões, desejamos consertar o mundo e concertá-lo também. O mundo? Quis dizer nosso amor. É incontrolável o desejo de acompanhar, ajeitar, guiar e auxiliar o bem amado. Tão insuportável que de tanto nos apertar o coração, só nos resta explodir. Estourar de paixão: mostrar quão belo e quão fascinante é o ato de amar. Só esquecemos de uma coisa: não dá para ensinar um ser humano. Não dá para moldá-lo. Ser humano é bicho ruim de se mexer! Que triste, né? Mas estamos apaixonados: dá pra relevar e continuar amando, porque só o amor importa.
Olá, apaixonado! Que dia intragável bom, não é? Será que vai ser assim amanhã também? Para os apaixonados a vida está sempre boa. É uma droga intermitente. E aí chega uma parte chata: é mentira. Essa vibe tem um fim. E, como toda droga forte, a ressaca é tenebrosa, porque talvez dure mais que o próprio efeito psicoativo. Os mais comuns efeitos colaterais são o rancor, o medo, a não permissividade de amar novamente. Amar? Ou seria apaixonar? Talvez você me entendta, talvez não: mas amar é mutual, apaixonar é geralmente unilateral. Quando nos apaixonamos reciprocamente, aí sim, tudo tende ao amor. Cuidado: se há reveses, provavelmente não tem como encontrar amor aí. Não o amor que os calouros apaixonados procuram. Pode ser até outro amor. E a boa nova é: pode ser até outra paixão.
Apaixonar-se é uma dádiva hormonal: lembre-se disso! É seu corpo presenteando prazer a si mesmo. E esse prazer vem em dar prazer ao próximo. Em aproveitar as coisas boas e não saber das ruins. Ou sabê-las, mas não enfatizá-las. Ou enfatizá-las, mas só sob o expresso e específico documento de urgência de ajuda. Para descobrir isso? Acho que só com uma nova paixão: as segundas paixões! Ah, as segundas paixões...

domingo, 14 de novembro de 2010

Dar uma volta.

Bebê, vamos nos ver hoje?

Acho que vou mandar isso, afinal, não perco nada se ela não quiser sair comigo hoje. Aliás, eu perco: não terei com quem gastar camisinha. Tenho que escrever algo arrebatador, algo que não lhe dê escapatória a não ser entrar no meu carro e ter um leito de prazeres dispendiosos.

Gostosa, vamos trepar agora?

Nunca! Que mulher gostaria de ser tratada assim? Todas, mas hipocritamente negam. Princesa, ou melhor, Princesinha — elas sempre cedem aos diminutivos.

Princesinha, vamos trepar agora?

Ainda está agressivo. Já sei: vou mudar a intenção.

Princesinha, quer tomar Milk shake?

Milk shake? Não! Ela, por certo, vai pensar em como eu queria que ela sugasse o canudinho até o fim do leite cremoso do copázio. Deixe-me pensar. Por que ela gosta tanto de ser chamada de princesa? Ela é nobre, linda e inacessível e para poder ter-lhe em meus braços tenho que ralar muito, assim como Aladin e Jasmine. Isso: Aladin! E o meu carro é o tapete mágico...

Princesinha, vamos dar uma volta no meu tapete mágico?

Ótimo! Vou enviar! Se bem que está tão infantil!

Jasmine, vamos dar uma volta agora no meu tapete mágico?

Que burro eu sou! Jasmine? É lógico que ela vai pensar que é outra! É melhor voltar à princesinha. Preciso ser mais maduro para levá-la para a cama. Que tal levá-la para um passeio maravilhoso sobre as dunas de um deserto à noite?

Princesinha, que tal subir no meu tapete e conhecer os prazeres — ou melhor —... as maravilhas do deserto do Saara comigo agora?

Saara é nome de motel! Óbvio que ela não acataria! Quem sabe...

Princesinha, vamos dar um passeio na Babilônia?

Droga! Ela detesta drogas!

Princesinha, posso ter a honra de te ver hoje?

Ela vai responder: pode, no Orkut.

Princesinha, posso ter a honra de te ver pessoalmente hoje?

Pode, na janela.

Princesinha, posso ter a honra de te ver pessoalmente no meu carro hoje?

E o que mais? Um cafezinho? Quer bolacha? Tenho que ser mais conciso, despretensioso, objetivo, delicado e maduro.

Bebê, vamos nos ver hoje?

sábado, 13 de novembro de 2010

A amada professora.

— Com licença, professora, eu poderia assinar a lista de chamada?

— A aula já acabou.

— Eu sei, professora, mas o que é que custa?

— Lógico que não. Eu tenho uma reputação a zelar!

— E eu um relacionamento a manter!

— ...

— Hoje é o aniversário de 3 anos de namoro, então tive de...

— Desculpe interromper, mas não vai dar. Isso não é motivo!

— Não é motivo? Você parece minha namorada. Nada para ela é motivo.

— Viu como anda a sua reputação?

— Não, professora. Você não entendeu: ela nunca compreende o meu lado, tal qual você agora.

— Agora e há duas semanas consecutivas.

— Acho que vocês duas sentem prazer ao me ver assim, humilhado.

— Como é?

— Aliás, digo que a senhora parece com ela, mas cada qual é única, eu sei, e não tem como responderem da mesma forma a um mesmo estímulo et cetera e tal. Porém, a senhora é bem mais coerente e, absolutamente, mais inteligente. Porque a senhora me detesta por justa causa. Ela, não. Você acredita que ela estava cogitando me dispensar e pedir ao pai dela que desfizesse o contrato de exclusividade da minha marca de tomates orgânicos que ele revende no mercadinho da família dela? Tudo isso porque eu cheguei no dia seguinte ao que marcamos de ir para o cinema ver um festival de filmes abstratos coreanos. Ora, eu pensei que fosse no domingo, mas não sei por que burros d’água o festival terminara no próprio sábado!

— Cargas d’água.

— Viu? O que eu falei que ela é injusta!?

— Não, estou corrigindo apenas o que você disse: não é burros d’água, é cargas d’água!

— Para falar a verdade, a senhora é bem além dela: a senhora me ensina coisas que nem minha mãe saberia! Ela sempre fala burros d’água.

— A aula de hoje foi sobre isso.

— Sobre mal entendidos?

— Não: sobre expressões e partículas enfáticas.

— Professora, você é mesmo incrível! Não sei onde estava a minha cabeça quando lhe disse que se parecia com minha namorada. Minha namorada é rancorosa: ela se ressente de coisas que fiz (ou geralmente deixei de fazer) de há dois domingos atrás! E aí está você — completamente superior a orgulho e mágoas — me dando aula de forma completamente gratuita e eficiente, aplicando e corrigindo-me da maneira mais didática possível. Adorei a aula, onde está a lista de presença?

— Ai, ai! Não sei o que é que faço com você, viu?

— Deixe-me assinar o papel!

— Tá! Mas que não se repita!

— Claro que não, professora!

— ...

— Muito obrigado, professora.

Hunf! ... Ah, e o negócio dos tomates: como você fez para que ela não lhe destituísse o dote?

— É fácil: elogiei-a.

domingo, 7 de novembro de 2010

Mereço

Eu sou a raiva em tempo de paz.
Eu sou o amor do satanás.
Sou a canção de rima errada.
Sou sempre sim e nunca nada.

Sou o décimo terceiro ponteiro.
Sou um jabuti ligeiro.
Sou o email do carteiro
Sou o 30 de fevereiro.

Sou de gala e roupa rota.
Sou do deserto uma gota.
Sou uma palha no incêndio,
folha vazia do compêndio.

Sou o rico de bucho seco.
Da flor sou o esterco.
Sou um pássaro de pelo,
a alegria de um pesadelo.

Eu sou assim,
o bom que é ruim,
o contrário do avesso.
Eu sou o que eu mereço.

sábado, 6 de novembro de 2010

Negócio da China.

— O que é castrado?

— Por que a pergunta, Júnior? — replicou o pai.

— Vi hoje na TV que os gatos de rua tinham que ser castrados. Aí eu não sabia o que significava.

— Ah... É o seguinte, Júnior: os gatos de rua transmitem doenças a nós. Para que eles não se procriem, se faz, então, sua castração. Deixando-os castrados.

— E isso é ruim?

— O quê?

— Eles se procriarem.

— Procriar é se reproduzir. É passar adiante a herança genética da família. Como eu posso dizer? É ter filhos, entende?

— Para que mais pessoas não peguem doenças dos gatos!

— Isso mesmo!

— Ah, bom...

Cacazinho era filho de Castro e Teresa Canavarro. Sua alcunha veio da aglutinação de Castro Canavarro de Oliveira Júnior, dada com muito carinho pela sua mãe, que, por sua vez, atribuiu à forma caprichosa que seu sogro chamava o marido, Cacá.

Por muita paixão e dedicação ao lar, ambos — Castro e Teresa — logo entraram em acordo que aquilo que se expandia no ventre de Teresa haveria de se eternizar com o nome do par perfeito, da contratual relação atemporal: Castro Canavarro de Oliveira... Júnior.

— Júnior ou Filho?

— Filho é melhor.

— Ok.

— Pensando bem, é melhor Júnior.

E assim escolheram o nome daquela simbólica criança.

Melhor falando, geniosa criança. Cacazinho era aquele típico pirralho leonino que conseguia de maneira magnífica unir manha, sagacidade e inteligência. E, por que não, mimos, superproteção e déficit de atenção. Em síntese, Cacazinho era o prodigioso, o impossível, o encapetado filho único. Aquele que orgulha o pai ao dizer-lhe que quando crescesse queria ser um biólogo igual a ele, para desanuviar a surra tão ameaçadora.

— Júnior, Júnior... — Essa era a mais dolorosa punição que seu pai lhe submetia.

O pai era o único a chamar o filho de Júnior. Não só pelo narcisismo de se lembrar o tempo todo do seu próprio nome, afinal, “Filho” lhe soava no mesmo tom. Chamava-lhe Júnior por associar que o sobrenome Júnior o remetia a uma cópia de si mesmo. Ou seja, de maneira análoga, pode-se dizer que o Sr. Castro via no pequeno o destino perpetuado de uma traça. Não porque Júnior tenha feito cena, comendo páginas de livros. A comparação situa-se mais no sentido do crescimento e desenvolvimento corpóreo (ser seu clone em miniatura) e comportamental (como comer livros velhos de biologia) do inseto.

Entretanto, a dedetização ocorreu assim que o gigante segundo filho sombreou seu até então inabalável reinado. De nada adiantaria berrar, espernear, chorar, saracotear que nem sua forjada infecção intestinal tiraria os holofotes do seu irmão mais novo. Isso se tornou convicção num dia fatídico em que Cacazinho queria sentar-se numa dessas cadeiras altas, tal qual seu irmão de dois anos, num restaurante chinês, fazia.

— Essa cadeira é para bebês! Você não é mais neném, Júnior!

Com essa explícita evidência de que seu pai não o via mais do mesmo nível que o irmão, arremessou sobre a mesa o pires contendo molho shoyu, lambuzando além da mesa, o babador do irmão e o ego do pai.

— Júnior, Júnior...

Ao chegar à casa levou sua primeira surra.

Como toda criança esperta, Cacá Júnior viu que não seria mais da mesma forma que reconquistaria seu trono e por isso dedicou-se aos estudos no intuito de regozijar o atual intransigente olhar patriarcal. Empenhou-se tanto, que, na escola, aquele incurável diabo era tido como o aluno exemplar, sendo agora agraciado por todos os elogios possíveis nas reuniões (antes assiduamente frequentadas) de pais-e-escola.

Talvez por comodismo, talvez por cansaço ou mesmo por opção, Castro Júnior foi adotado pelo conhecimento. Tamanho era o seu esmero que sua postura era motivo de chacota na sala de aula. Um típico nerd. Tão nerd que seu esporte favorito agora era xadrez.

Começou sendo apelidado por amarelão, graças aos seus cabelos e pele solares. Depois vieram vários outros efêmeros agrados, até que chegou, em virtude da sua vitória no campeonato de xadrez, ao frango xadrez, que por tabela virou molho shoyu e simplesmente Shoyu. Grande lógica!

Shoyu cresceu e tornou-se intrinsecamente Shoyu. Tão Shoyu que as pessoas acreditavam muitas vezes que aquilo era o que estava impresso na sua identidade. Castro Júnior, por outro lado, via no apelido o supetão necessário para tomar um rumo diferente. “Nome novo, vida nova”. Morria-se ali, em definitivo, Castro Canavarro de Oliveira Júnior e nascia Shoyu, que era apenas filho de Castro Canavarro de Oliveira.

Com o gastar do tempo, as distâncias só iam se agravando. Tanto que ao mudar de cidade e morar sozinho, chegou a passar seis meses sem ver sua família genética. Inclusive, passaria mais, mas noutro fatídico dia seu pai precisaria ficar hospedado em sua casa para resolver os trâmites de um imóvel que compraria naquela cidade. Quando adentrou na sala logo viu um pomposo mural com fotos, recados e um vistoso “Shoyu” no topo do quadro.

— Shoyu?

— É. É assim que me chamam.

— Eu gosto de shoyu — mentiu dizendo a verdade.

— Haha! O senhor quer que eu lhe prepare algo?

Cacazinho gostava de cozinhar. Por ter se tornado professor de química, costumava falar que a copa era o laboratório do dia-a-dia e a comida, os produtos de uma reação. Já que discorreu sua vida se alimentando em redutos chineses, adquiriu extremo conhecimento naquela modalidade e resolveu prepara um yakisoba de camarão para o velho.

Perfeccionista e muito competente, Júnior encarava como uma afronta se alguma coisa que saísse de seu fogão não fosse agradável. Sua receita sempre tinha as proporções estequiométricas ideais para se chegar ao sublime paladar. Uma vez até lhe convidaram a ser chef! Mas preferiu seguir lecionando de forma culinária.

Camarão, acelga, macarrão, cenoura... e molho de soja. Em 20 minutos estava pronto o prato que qualquer restaurante chinês gostaria de patentear. Mas, para o desânimo de Júnior, seu pai lhe perguntou:

— Meu filho, você tem shoyu?

— Tem: eu.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Oun.

— Alô, amor?

— Oi.

— Tá fazendo o quê?

— Estudando.

— Tá chatinha, heim?

— ...

— ...

— Ei, a gente está namorando?

— Por que a pergunta?

— Porque eu não me vejo namorando ninguém. Porque eu sinto que você me usa como um analgésico, que só quando a dor da solidão bate, você me procura.

— Hã!? Por que isso de novo agora?

— Agora? É bom enquanto é cedo! Não sei se quero isso, sabe? Está uma inconstância que só tende a piorar. Você não me dá a mínima e estou sofrendo com isso. Se lhe alimenta o ego: estou sofrendo por você! E acho que namorar não é sofrimento. Não passa nem perto disso.

— Não entendo o porquê disso. Eu não estou fazendo nada!

— Exatamente, Júnior: você não faz nada!

— Mas o que eu estou fazendo agora? Eu te ligo, não ligo?

— ...

— ...

— Tem uns fantasmas seus que me azucrinam, sabe?

— Tipo o quê?

— Sua ex, seus segredinhos com seus amiguinhos, sua falta de tempo. Tem muitas coisas que não eram pra ser assim. Porra, eu gosto muito de você, mas...

— Eu também!

— ... eu tenho que gostar também de mim, entende?

— Sabe qual é o meu problema!? Eu não faço nada! Se eu fizesse, você nem notaria.

— Não estou dizendo que o problema é seu. O problema é meu por ter feito uma escolha incoerente. Antes de assumirmos esse namoro, deveríamos ter nos conhecido melhor. Eu quero coisas que não é do seu feitio me oferecer, como carinho, palavras, gestos... não só sexo!

— Não quero ficar sem você!

— O que você propõe? Eu quero sua opinião! Não quero namorar um pênis mudo. Não gosto de ficar cobrando atitudes. Acho desnecessário. Acho um erro insistir numa coisa assim... Mas se eu for olhar pelo lado otimista da coisa: você pode estar querendo em mim uma tutora. Alguém que lhe encaminhe pro lado certo. Mas isso, meu caro, quem deveria dizer era você.

— Sei...

— Sabe o quê!?

— Não quero ficar sem você, minha tutora!

— Oun. (L)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Mosca


Faço e desfaço fácil.
Minto e me meto muito.
Leio e leciono louco.
Peço e pareço porco.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Dá um tempo! (parte 6)

Parte 5 | Parte 4 | Parte 3 | Parte 2 | Parte 1

— Moça, o cardápio, por favor.

José e Marcelo entraram em acordo que — agora milionários — só iriam usufruir do bom e do melhor, tanto que dessa vez chegaram até a pedir o menu. Inicialmente, eles pensavam em absinto, contudo, como no PUB a que eles foram não servia ao tom dos seus requintes, resolveram experimentar uísque. O critério de escolha etílica se baseava no preço e assim pediram doses (sem gelo) de um uísque cujo nome e cifra eram os mais destoantes do lugar.

Seus olhos arderam, tais quais suas bocas e esôfagos. Eles não sabiam sequer que uísques não eram adocicados, mas, mesmo assim, sorveram aquele volumoso gole hídrico de quem acordou após uma noite inteira de uísque à bebericadas.

Sob aquela cara de semi-cãibra acompanhado de um sussurro diabólico como voz, Marcelo comentou com o outro:

— Uma delícia!

— É. Uma delícia...

— Mas?

— Estive pensando: há um dia atrás não teríamos modos de pagar a conta.

— Sem contar que teríamos que voltar antes da meia-noite, senão os ônibus acabariam — acrescentou o amigo.

— Mas a gente não ganhou nada ainda! Ai, meu Deus! — pigarreou — Vou pedir a conta.

Quando a garçonete trouxe-lhes a conta, o inimaginável tornou-se exorbitante: R$185,00 de quatro doses de uísque, dois tempurás de salmão defumado e duas Coca-Colas, além dos couverts.

Uma vergonha mútua se instalou entre o par de amigos. De um lado, José se sentia desesperadamente deprimido pela situação humilhante a qual pensava que se submeteria. Do outro, Marcelo, que não trouxe ao PUB nada além do que seu cartão do ônibus.

— Você não está com sua carteira, Marcelo!? — irritou-se José.

— Lógico que não, pensei que... — tergiversou.

— Ricos, por acaso, pagam com o quê? Com cuspe?

Aquele estresse e agonia resultante da volta às migalhas monetárias, agora se juntou à pressa para não perderem o horário do ônibus e à embriaguez tardia e intermitente que só o uísque tem e só a cama cura.

José brilhantemente teve a ideia:

— Já sei: vou passar no meu cartão de crédito. Amanhã estarei rico de qualquer forma! — proferiu voltando ao riso.

— E você tem cartão de crédito? — perguntou o incrédulo amigo.

— Tenho. Mas nunca usei, pois meu pai disse que os juros e vícios são imensos.

— Qual é o limite? — arrebatou.

— Não sei! Será que é menor que R$185?

— Provavelmente...

Enquanto isso, como quem já pressentisse a péssima conseqüência do calote, a garçonete se aproximou da mesa dos novos milionários miseráveis e ficou esperando uma resposta da dupla estranhamente pálida.

— Crédito, por favor — remitiu José.

A moça ao receber o cartão logo lhes abriu um sincero sorriso, que foi entendido por eles como bom presságio: o cartão será aceito! Sorriso esse motivado, por sua vez, graças ao não estranhamento de pagar couvert sem, no entanto, houverem pelo menos visto uma banda, cantor ou macaquinho malabarista.

Em instantes, porém, a atendente retornou com uma cara desanimadora a qual imediatamente fora traduzida por opróbrio iminente. Desesperadamente controlados sentiram que passariam por situação de tom semelhante àquele flagra vexatório de quando suas mães descobriram suas habituais conversas ao telefone de madrugada com as amigas delas.

Não tendo escapatória, um tremor frenético partindo das pernas e pés de José começou a vibrar e tilintar os talheres sobre a mesa. Marcelo ora também estava tenso, mas conseguia fingir-se mais sereno durante a longa espera da mulher que os servia.

A moça com rosto nublado finalmente regressara. Vê-la caminhar com a comanda era mais aterrorizante do que apenas falar com ela — a perversa imaginação se nutre quanto maior for o silêncio. Entretanto, ao se confundir e se referir ao dissimulado e taciturno Marcelo, este pelo susto, passou a tremer e gaguejar tanto que José se prontificou:

— Pronto? — disse já prevendo o mau auspício.

— É preciso que você vá até o caixa digitar a senha do cartão.

José nunca fora bom em senhas. Só decorou a senha do banco até o dia em que adotaram o sistema de sílabas (ou seja, no mesmo dia) e, para a sua comodidade (e sorte), as suas eram “Com” “I” “Da”; muitas vezes confundida com “Va” “Ta” “Pa”. Todavia, era necessário que ele pusesse não as sílabas, mas sim os números do seu cartão. Como um mistério sem muitas explicações, José digitou ao acaso naquela maquineta os seis dígitos correspondentes a data do seu aniversário e, aquele caça-níqueis da Visa deu-lhe a sorte grande: “Transação aceita, retire o cartão.” Ricos novamente.

(continua...)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Dá um tempo! (parte 5)

Parte 4 | Parte 3 | Parte 2 | Parte 1

Um castelo em Miami? Uma viagem pelo mundo? Um Dodge? Investir na bolsa? Calvin Klein? Ou Dolce Gabbana? Sempre se passa pela cabeça comprarmos coisas se, de uma hora para outra, ficássemos milionários. Nas espaçosas mentes de José e Marcelo também ecoavam esses pensamentos. O que talvez não passe na mente de muita gente é o que fazer no exato momento em que sua conta sai do cheque especial e ultrapassa em 30.000.000 % o valor que você ganha por mês.

Os nossos sortudos protagonistas já ciscaram, cacarejaram e até puseram ovos ao telefone, mas e agora? O que fazer? Às 21h16 as lotéricas não lhes avultariam os bolsos. Contudo era preciso comemorar! Trancafiar com cofres de diamantes o tremendo fardo que suas vidas pobres eram.

Seu time ganhou? Acabou o namoro? Ou está desejando aquela deusa? Raiva ou desespero? Não importam os motivos da guerra, beber ainda é mais importante, dizia um velho e embriagado cabeludo. Para aquela dupla, no entanto, a coisa funcionava diferente: primeiro bebe-se e só depois que se bebe de novo. Se lhe conforta o ensejo: bebiam para motivar o mijo.

Foi José quem sugeriu a ideia:

— Vamos ao bar da Kátia? — e pensou maior — Ou melhor: vamos ao Geco PUB?

Astrólogos, psicólogos e até donas de casa ainda não sabem de onde surgiu essa trivial ideia inédita, assim como desconhecem o porquê de José ter perguntado e não exclamado aquelas poéticas frases. Fato é que aos olhares desdenhosos de quem daria adeus aos ônibus, ambos foram para o recanto das notas vermelhas em tempo recorde.

Quando se encontraram, estranharam a si mesmos. Não porque suas fisionomias de quatro horas atrás houvessem se transfigurado, mas porque um nunca sentira aquele perfume tão forte do outro. Comentaram sobre o intenso odor recendido e riram por terem gastado mililitros e mais mililitros daquele que se tornaria o mais chinfrim Leite De Rosas que usariam dali em diante.

Gargalharam. Gargalharam de riqueza. A recém riqueza é a mais eficaz das comédias. E, para não perder o hábito, tornaram às suas importantes divagações:

— Zé, vê se corta esse cabelo. Chitãozinho e Xororó é tão last decade! — e anedotizou — Conheço uma cabeleireira que cobra R$5,00 pelo corte masculino. Se você não tiver a grana, lhe empresto.

O outro revidou:

— E você, vê se compra outro tênis! Esse em que você tanto pisa, daqui a pouco debuta!

Gargalharam. Gargalharam dessa vez um sorriso narcisista, afinal last decade e debutar definitivamente não eram termos que pobres empregariam.

(continua...)

domingo, 10 de outubro de 2010

Dá um tempo! (parte 4)

Parte 3 | Parte 2 | Parte 1

Como um ioiô, seu desânimo se projetou nesse instante nas mansões e alegrias que aquele gelado pedaço de papel lhe proporcionaria. José contou para a mãe de Marcelo ao telefone que havia encontrado o agora então bendito bilhete da mega-sena.

Magicamente tudo tomara novos ares: José, extasiado; Marcelo — que até o momento só repetia xingamentos — entorpecido; e sua família reacendera o frustrado pavio dos foguetões.

Só havia, entretanto, uma pessoa que permanecia inabalável com os possíveis zeros somados aos três da sua caderneta de poupanças. Alto lá, você que pensou que fosse aquele tio canastrão e aproveitador que logo logo levaria um pé na bunda! A pessoa era a mãe de Marcelo que, ao ver aquele velório metamorfosear-se em epifania, não ligou se um talibã morrera e disparou:

— Vocês já conferiram os números?

Outra vez o cenário mudava. A casa de Marcelo parecia o Globo Repórter em dia de retrospectiva. Não só pela miscelânea de notícias marcantes, mas pelo ritmo que tomam aqueles programas: fala-se de uma tragédia e noutro instante, uma conquista; morte de Michael Jackson e vitória do vôlei; gripe suína e cura do câncer; ficar pobre e ficar rico.

O baque de saber que iriam voltar a viver como há dez minutos atrás se tornara pior a cada gota de entusiasmo evaporada. Em tal caso o silêncio se refez. A apreensão tomou conta do lugar. Até uma mosca, que zumbia na janela de vidro tentando inutilmente transpassá-lo e sair, cessou o farfalhar das asas para ouvir o veredito. Todos ficaram tão inertes que nem mover os lábios e contrair o diafragma conseguiram. O máximo esforço que fizeram foi arregalar os olhos e virar o pescoço na direção do possível novo milionário. E ali começou o ditado coincidente dos números. Era enfim a sequência correta! Eram exatamente aqueles seis números!

A profecia da retrospectiva se cumpriu no lar. É chegada a hora da felicidade! Voltaram aos gritos, aos foguetões, aos planos, à riqueza! José, Marcelo e sua família começaram a voar rumo ao sol, tal qual aquela mosca estancada no vidro da janela.

(continua...)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Dá um tempo! (parte 3)

Parte 2 | Parte 1

José foi correndo até a carteira para ver se o sagrado bilhete da Mega-sena estava lá. Ele já podia se sentir andando dentro de uma Ferrari amarela quando alcançou o objeto com seus anéis de ouro. Abriu-a.

— Cadê? Cadê? Cadê? Cadê? — palrou incessantemente enquanto perscrutava sua carteira. — Nããããoo!!!

Sim, ele lembrou que havia esquecido sobre a bandeja, junto às notas fiscais, o ingresso que lhe garantiria o diploma eterno de vagabundo. E agora o telefone tocava mais uma vez: o que dizer para Marcelo? José caiu em lágrimas.

— Marcelo... — gemeu José e travou em soluços.

— O que foi, José!? — disse instigando-se. — Ganhamos!? — falou Marcelo contagiando-se com o choro do amigo.

José não conseguia falar. Estava atônito! Por um instante sua vida era fácil, agora voltava a ser difícil, talvez mais difícil que antes: mais uma culpa monumental na sua história. As palavras dos dois lados da linha embargaram: José por tristeza, Marcelo de alegria. A calmaria cessou e um som nasal irrompeu pelo fone: era Marcelo com coriza em estado eufórico:

— ESTAMOS RICOS!!! ÊÊÊ!!! NÃO ACREDITO!!!

Pelo telefone dava para escutar a gritaria futebolística instaurada na casa de Marcelo. Contudo, as palavras conseguiram voltar aos poucos para José que gritou também, aos prantos:

— EU PERDI O BILHETE! — gritava como quem suplicava ao capataz para poupar-lhe a vida. — EU PERDI!

— Como é!? Calem a boca! — disse mudando o tom para a sua família que já se enrugava nas águas mornas de Cancun.

— Eu perdi o bilhete! — continuava berrando.

— Como assim, caralho!? — começava também a berrar.

— Eu perdi o bilhete!

— Eu já entendi! Procure direito! — tentou acalmar o amigo. — Já olhou na sua bolsa?

— Já, sim. — e finalmente cacarejou — Eu esqueci sobre a bandeja junto às notas fiscais do lanche que fizemos no shopping.

— Nããããoo!!!

Nesse instante José pôde ouvir o tamanho burburinho que se instalou na casa de Marcelo: era sua família enfim tecendo as teorias conspiratórias. O manjado “eu te avisei” finalmente veio à tona. Primeiro, o tio de Marcelo, que por acaso estava passando pela vizinhança e foi filar a bóia pela sétima vez na semana:

— Eu te avisei que ele iria dar um pé na sua bunda. É um paspalho mesmo!

— Processe-o! Você tem como provar que este prêmio também é seu: há as filmagens das câmeras de segurança do shopping — imiscuiu-se a irmã de Marcelo ao sentir a primeira onda do tsunami nas suas férias indonésias.

Sentimentos irascíveis agora afloravam no amigo que, de volta ao telefone, com um sotaque meio gangster vingativo, meio teletubbie fanhoso, falou:

— Eu não acredito nisso, José! — irou-se. — Você não está dizendo isso para me sacanear, não é?

Silêncio.

— FALA ALGUMA COISA, JOSÉ!!!

— Eu perdi o bilhete! — balbuciou o recém nariz entupido.

— Puta que pariu, caralho! — apregoou após os incitadores sermões avunculares e jogou o telefone nas mãos da mãe, que até então se mostrou a pessoa mais sensata e, por que não, desacreditada nessa estória toda de loteria. — Fale com ele, mamãe. Estou passando mal.

— Oi, meu filho. — disse aquela tenra voz em meio à profusão de palavras prostibulares daquele lar.

— Oi, tia Neide.

— Afinal, querido, o que houve? — acarinhou, o anjo que pariu o ser que mais falava palavrão por segundo no mundo.

— Eu perdi o bilhete — cantarolou mais uma vez o refrão.

— Tenha calma, coração. Beba um copo d’água — recomendou a voz celestial que saía pelos buracos do telefone.

Se aquela entonação lhe pedisse para voar do 14º andar de um prédio, ele obedeceria sem pestanejar. Batendo as asas e gorjeando! Porém, felizmente, não era o caso.

Então José foi até a geladeira em busca do elixir da paz. Mas, como um presente de Deus, ao lado da garrafa gelada estava o até então desaparecido bilhete.

(continua...)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Dá um tempo! (parte 2)

Parte 1

Quando José chegou à casa, sua moral se encontrava num estado de apoplexia. Então por um átimo segundo, ele resolveu sentar-se e estudar para sanar seu cérebro carente do conteúdo programático de Hidráulica II. Em outras palavras: a culpa volátil por ter sido boêmio a semana de prova inteira enfim se fez presente.

Viscosidade, pressão osmótica, telefone, brrriiimm!

— Você viu? O vencedor é daqui!

— Que vencedor?

— Da Mega! E saíram 3 números, que eu me lembre, em que a gente apostou. Olhe o bilhete, pelo amor de Deus!

— Tá certo. Espera — disse José enquanto vasculhava seus bolsos. — Não estou encontrando. Deixe eu procurar na bolsa. Eu te ligo daqui a pouco.

Começou aí a peleja. Primeiro o Zé fuçou a bolsa, depois folheou o caderno, voltou aos bolsos, olhou embaixo da mesa, do sofá, da cama, dentro do guarda-roupa, na bolsa de novo, nos bolsos de novo, na cueca, dentro dos tênis, no escritório e quando estava a caminho da sala, mais uma vez o telefone toca.

— Diga, mãe.

— Meu filho, eu não quero você saindo com Wesley!

— Por que isso, mamãe? — indagou, esquecendo-se por um instante do que estava fazendo.

— Ele foi preso por estar vendendo drogas na igreja.

— Mãe, há mais de 6 anos que não troco um oi com Wesley!

— Boy piroca.

— O quê!?

— Boy piroca, é assim que o chamam.

— Como você sabe disso!?

— Passou na TV! Acabou de passar.

TV, Megasena, bilhete: atribuiu imediatamente o provável novo milionário.

— Mãe, tenho que procurar um bilhete aqui em casa. O ganhador é daqui da cidade e me lembro de ter acertado 3 números — falou dispensando sua mãe.

— Meu filho!!! — gritou a genitora.

— O que foi, mamãe!? — preocupou-se José.

— Você vai me dar quanto!?

— Isso SE eu ganhei e para descobrir isso, tenho que desligar este telefone e procurar.

— Você já olhou nos seus bolsos?

— Já.

— Na sua bolsa?

— Já também, mamãe. Deixe-me ir!

— Olhou dentro da carteira?

Bingo! É lógico que iria estar dentro da sua carteira! Quase largou o telefone para ir buscá-la, mas ainda disse:

— Na carteira! Vou olhar agora. Tchau, mãe. Sua bênção.

— Deus te abençoe, tcha...

(continua...)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Dá um tempo! (parte 1)

— 3,7! Este é o resultado com que você espera ser aprovado? — imprecou para si mesmo com o velho e inútil tom de automoralismo. — Não vou mais sair durante a semana — continuou blasfemando.

José teve uma semana praticamente inteira para estudar para o exame de Cálculo III na faculdade, mas como era de costume resolveu protelar o estudo mais um pouquinho e despretensiosamente sair com os amigos para desestressar, ou dar uma cochiladinha para descansar, ou uns amassos em Jacqueline porque ninguém é de ferro. Sem contar com Jéssica para variar o cardápio e com Jennifer para não mudar de letra. “Triple Jay” se gabava dizendo aos amigos em outra saída durante a semana. O maioral. E o exame? “De próstata?”

Como todo maioral que se preze, suas notas eram um lixo. O reflexo da satisfação da sua consciência estava ali cuspido em dois dígitos. Três vírgula sete. É melhor por extenso, pelo menos não soa tão miúdo.

Devolveu a folha de papel higiênico usado ao professor e foi conversar com seu amigo sobre a prova. E sobre Mariana, que tirara a maior nota da sala. E sobre as coxas dela. E sobre como deve ser caro namorá-la.

— Vamos apostar na Mega-sena! Acumulou. — disse o amigo do maioral, mote de uma risadinha.

— Ainda dá tempo? — indagou inacreditavelmente dois minutos depois da sua própria auto-lição de moral de que não sairia durante a semana.

— Tem tempo sim! A agência do shopping fecha às 18h... — e como um gato lambendo sua penugem, ronronou — Mas aí teríamos que matar aula de Hidráulica II.

— Pode crer! — pausa dramática. — Ah... — tramou um contra-argumento para sua consciência e prosseguiu dizendo em voz firme para causar mais efeito (e instigar ou dar cola do pretexto ao amigo mímico) — mas eu não consigo prestar atenção na aula estando com fome. Vamos passar lá! A gente faz a aposta, come alguma coisa e volta para o resto da aula.

Sim, lá foram os dois intrujões de si mesmos cometer o mesmo crime da semana passada. Ainda não sabem eles que a pior falta de respeito é aquela feita a si próprio. Mas eles são os imorais! Quer dizer, os maiorais!

Aposta feita, foram lanchar. Sanduíches, batatas fritas, copos de refrigerante, canudos, guardanapos, saches de ketchup e notas fiscais sobre a bandeja. Os maiorais adoram comida pelo número: “É mais cômodo e mais barato.” Ou seria uma escusa por não saber sequer escolher um prato ou/num restaurante do shopping?

Foi o 3,7 quem iniciou a conversa balofês:

— Você Junta? — falou com a boca cheia do reprocessado hambúrguer.

— O quê? Nota fiscal?

— Sim.

— Não. Mas minha empregada junta. Ela troca por ingresso para ver jogos no estádio de graça.

— Tô ligado. Eu perdi minha virgindade com uma empregada da minha avó.

— Cê tinha quantos anos?

— Uns 14, 15. E você?

— Foi com minha primeira namorada — parou para encher a boca de pão e tornar a falar em balofês. — Eu tinha 17.

— Dá pra acreditar que Mariana tem 18 anos?

E ficaram nesse profundo diálogo por mais 28 minutos até que resolveram voltar, como haviam acordado antes, para casa.

(continua...)

domingo, 19 de setembro de 2010

Mãozada.

Odeio acordar ou perder o foco de um sonho bom. Recordo até a vez que ouvi ao ver um filme, na casa de Clênio com o pessoal da agência, que se você puder olhar para as mãos durante o sonho, marca-se ali um ponto na sua memória que permite acessá-lo toda vez que você voltar a fitar o pulso. No filme também dizia sobre olhá-las viradas para cima e que dessa forma, e somente dessa forma — não emborcada — é que dava para erguer a base onírica. Acho que era isso, porque no meio do filme eu e Cilede estávamos conversando sobre uma coisa completamente adversa, supérflua. Só o Clênio mesmo para achar esses filmes abstrato-inside-cults legais. Clênio e o namorado. Aliás, o namorado dele também deu umas boas bocejadas que eu vi. Fato é: baboseira televisiva.

Olhei as mãos de toda forma. Palmas para cima, unhas à mostra, de lado, inclinada... Atrelei-me tanto àqueles meus dez dedos que ao dar tino, havia esquecido do que se tratava o sonho.

Contudo, lembrei-me de que minhas unhas estavam péssimas. O esmalte desbotara quase todo e elas urgiam por uma manicure. Lá se vai R$20,00. Acho melhor eu mesma passar acetona e pintá-las com esse esmalte mixuruca que tenho aqui. Preciso economizar! Mas preciso relaxar também! As crianças viajaram na semana passada, entretanto já parece meses. Saudades! Saudades aliviadas, por assim dizer.

Será que César já acordou? Ele tinha que ir para não sei onde agora pela manhã. Eu não escutei porque estava na pia lavando louça para não dar motivos de mais uma piadinha e conversês sobre minha postura, meu papel na casa e todo o et cetera possível. Daí já viu: unhas podres e pontas dos dedos estouradas. Ai, como eu queria poder dizer good bye a tudo isso, mas não dá. E o jeito é ir vivendo. E trabalhando.

Será que está chovendo ou nublado? Ai, que preguiça de levantar. Preguiça não, creio que seja dor: 30 anos, cara! Como era a palavra? Balzaquiana!

Ah! Preciso mesmo ver o tempo. Será que dá para ver daqui? Ok, dinheiro, por enquanto você ainda vence a velhice. Velhice? Xiii... vai chover. Vou ligar para Clênio para confirmar se vai ou não ter o ensaio de hoje à tarde. Cadê o celular? Lá vai eu ter que me levantar novamente. Força, garota! Garota? O dinheiro venceu novamente a velhice: celular em mãos, agora é só lig... Lembrei do sonho!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bom partido.

A diferença entre nós, palhaços, é que eu ganho dinheiro.
É engraçado ver como brasileiro é empenhado no esportividade televisiva. Basta passar na TV e lá estão todos exibindo seus brasões amabilíssimos no único intuito do júbilo próprio, como se todos tivessem de engolir o incrível esforço de gritar na frente de um tubo de imagens. Na política não é diferente. A maioria dos tupiniquins faz alarde ao expressar em quem vai votar. Ou em quem não vai votar. E com o mesmo esmero dos torcedores para que todos engulam a opinião absoluta. Eu disse opinião? Quis dizer verdade.

Talvez a única discrepância entre o buzinar pelas ruas da cidade quando seu time ganha o campeonato e o buzinar por essas mesmas ruas numa carreata é o sentido poético, humanitário e libertador. Sim: o futebol é, acima de tudo, arte. É o próprio espírito carnavalesco que baixa nos seus torcedores deixando-os endemoniadamente — e gratuitamente — felizes, completos... bêbados e vândalos.

Brasil, carnaval, futebol. É tudo igual. Sinônimo mesmo. Já a política, não.

A política é feia, é farsante. É a tenda armada onde você está no picadeiro, sem ganhar um tostão, fingindo ter atenção. Antes fosse uma folga da vida, como o carnaval-futebol! A começar pela obrigação. Não há como ser obrigado a ser alegre. Alegria se opta — inteligência, não (mas isso não vem ao caso).

Antes que você se exalte, retifico: certamente houve um tempo em que ir às ruas significava algo além da pompa trioelétrica. O período em que sabíamos que se quiséssemos, poderíamos isso, isso e aquilo. Contudo, as ruas de hoje entupidas de “49 123, vote Teresa, a deputada de vocês” estão vazias de sentido, tal qual esse jingle.

Por falar em vazio, o que se passa na cabeça de alguém que explicita seu voto pelo seu carro? Alguns recebem dinheiro, outros recebem cargos, entretanto a maioria não recebe nada: só paga. Paga por ser um minioutdoor ambulante com uma mensagem oca de um político oco num carro oco cujo dono é... Sorte a minha que você, leitor, não tem um adesivo desses no seu carro... Ok, mas aposto que se tivesse um carro, não colocaria, não é mesmo?

Desculpe minha ironia. Minha intolerância ainda vai me matar. Porém não sou de todo um mal. Sou, na verdade, um intolerado, porque sei lidar com as diferenças, mas não lidam bem com as minhas. Por exemplo, ocorreu-me agora um episódio vivido por uma personagem minha. Ela e seu melhor amigo, gay, conversavam sobre suas iras.

— Você também tem ódio de mim.

— Eu não tenho ódio de você!

— Tem sim, porque eu sou gay.

— Não tenho ódio por causa disso.

— Admitiu: tem ódio.

— Você entendeu...

— Você tem ódio, porque se eu não fosse gay, estaríamos juntos.

— Ah, é mesmo...

— Mas tem aquele bom partido ali, olhe: tem carro, é bonito... escuta forró... vota em Teresa.

Sim. É verdade: ficou mais nítido agora que eu sou mais intolerante do que intolerado. Eu mesmo não me tolero. Pra começar detesto meu nome. Vote Tércio, 42 444. Tércio, 42 444. Onde já se viu!? Tércio!? Que nome ridículo.

domingo, 12 de setembro de 2010

O novo convertido.

Encostou-se num carro estacionado sobre a calçada. Não havia nada para fazer naquela noite de domingo. Aliás, havia. Dúzias de pessoas o faziam ali diante dele, no outro lado da rua. Ministério Grão da Vida. De um banner verde-limão saltavam aquelas três palavras pretas que nomeavam o lugar. "Brasileiro burocratiza até o céu".

Por instantes lembrou-se da sua mãe. Ela era daquelas obreiras que empurram a cabeça alheia, palra mensagens celestiais — ou seria só "qual é a palavra mesmo?" de uma conversa ordinária — e pula dizendo ser Deus passeando pela igreja. "Quanta pretensão", pensou.

Enquanto isso, a missionária começou a discorrer sobre seu floreio preferido: o dia em que o assaltante dispensou-lhe o despojo. E que Deus a teria coberto pela armadura divina. E que a partir de segunda a igreja se uniria numa campanha de oração — "e dízimo" — para que o Rei dos Ministérios da Morosidade Administrativa lhes reparassem a petição.

Um olhar o notou. Vinha da moça com o bebê no colo que chorava e, portanto, tinha de ficar na calçada para não desconcentrar Deus. E ele continuou a fisgá-lo. Era um olhar indescritível. "Não duvido nada que ela venha me convidar para entrar e escutar o culto de dentro do galpão". Como eu disse, era um olhar indizível: talvez só curiosidade ou pompa, ou ainda um olhar de reprimenda por ser tão jovem e estar fumando. "Ela deve estar querendo presenciar o meu arrebatamento e, enfim, ter sua história para contar no púpito". Mas não passaram de olhares.

Outra mulher virou-se para trás. Disse algo para a mulher dos olhares e esta devolveu o bebê malcriado que iria pro céu sem pecados se morresse. "É muito fácil se basear no improvável".

— Se vista-se da armadura de Deus!!! Só com essa armadura seus problemas... Cherê Berê Coisoloíla! Deus é poderoso! Ô Aleluia!, gritava a motivação do choro dos bebês.

Frente àquela teatralidade toda um lapso realmente celestial atinou na mente de alguém. "Deus é um baita psicólogo. Ele se regozija na sua submissão? Os ensinamentos bíblicos devem ser transmitidos sem a menor interferência. É uma sessão apenas entre Deus e você. Só entre o escrito e você. O livro sem sua inata poesia não é o mesmo."

— Acarinhar é diferente de passar a mão, sussurrou o garoto fumante.

Talvez o ladrão não a quis roubar porque ela era pobre. Pobre de espírito. Então percebeu que só o cigarro que não deixara de ser cigarro. Outro trago e outros olhares fizeram sua noite peremptoriamente cética. "Quem sabe a igreja da outra esquina...". Virou cristão.

sábado, 11 de setembro de 2010

Copo d'água em tempestade.

O clima estava tenso no consultório, mas nem a terapeuta, nem seus fregueses o notariam. Talvez por hábito, talvez por ensejo, afinal, não se vai a psicólogos para compartilhar a primavera. Roberta e Roberto Praça procuravam mais uma vez a brandura na tempestade matrimonial. Pelo menos diziam procurar. E a outra moça da sala lá estava fazendo sua cara de terapeuta. Aquela cara de quem entende tudo e nada ao mesmo tempo.

— Acredita, Vanusa, que ele sequer me dá bom dia quando acordo?

— Minha mãe dizia que não se precisa dar bom dia àquele com quem se dorme.

— Viu? Por que não se casou com sua mãe então?

— Tá vendo?

— Vendo o quê? Que sua mãe não soube lhe educar?

— E vai ser você que vai?

— Viu? Você precisa ler mais!

— Não comece. Essa água já está na fossa, virou chorume.

— Quanta amargura! Aposto que a sua fotografia da água teria chifres. — Virou para a psicóloga e continuou — Vanusa, ele está falando do livro que comecei a ler. De um cientista que afirma que a água é sensitiva e por meio dela se pode criar um padrão e captar todas as energias ao seu redor, inclusive do cosmo... — tornou ao marido e proferiu com convicção — É a materialização do cosmo!

— Não acredito nisso.

— Não estou pedindo para você acreditar, só estou tentando estabelecer um diálogo diferente do “você pode pegar as crianças no colégio hoje”.

— Não. Eu não acredito que você esteja falando isso até para nossa terapeuta. Pensei que você fosse sentir vergonha.

— É uma coisa séria, Roberto! Se você não dá vazão, o problema é seu: já somos bem grandinhos para sabermos lidar com nossas diferenças.

— Um a...

— Um a quanto? Não estamos competindo! Jogamos do mesmo lado! Pelo menos acho que deveríamos.

— Um a é a nossa diferença: Roberto, Roberta.

— Por que você faz isso? Por que fica mudando de assunto ou me ironizando o tempo todo? A você apraz me subjugar?

— Você é louca! Vê coisa onde não tem! Por que você não faz como o japa do seu livro e escreve sobre como é fácil delirar?

— Eu não sou louca!

— Então o que é?

— Para o seu governo, ele estudou, fotografou, catalogou, trabalhou por 15 anos para lançar o livro! Você acha que ele não merece crédito?

— E então!? Você passou 46 anos vendo coisa onde não tem! Será bestseller também, tenho certeza.

— Pelo visto não dá para manter uma relação com você...

— Bom dia.

— Bom dia o quê?

— Estou lhe desejando bom dia. Satisfeita?

— Bom dia nada! Agora é tarde.

— Boa tarde.

— Não, Roberto! Você não entende nada.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Todo garçom é psicólogo.

6 da manhã e o café automaticamente amargo estava na mesa. O cuscuz, os ovos, salsicha, pães e manteiga. 6h30m e ninguém, salvo seus filhos, foi comer. Seu marido correu da cama pro chuveiro, do chuveiro pra roupa e nem sequer abocanhou-lhe um pão ou bochecha. Estava atrasado. Seus filhos e emprego dependiam da sua corrida. Se não tivessem inventado de passar a noite em claro, talvez estivessem todos à mesa, como ela esperava, tendo prazeres estomacais.

Passiva, a esposa assistia ao seu portão parindo toda sua família. Alguém lhe cumprimentara. Lambera-lhe, na verdade. Garçom. Odiou-se por isso. O único contato bucal foi a língua de um cachorro que, por ironia, tinha o nome de um subalterno.

— Garçom! Muxoxava uma vizinha. Oi, Teresinha.

— Oi, como está?

— Tudo bem, graças a Deus! E você?

— Tudo bem, graças a Deus!

— Pois tá. Como estão todos?

— Tudo bem, graças a Deus.

Responder-lhe-ia a mesma frase se a mulher continuasse com o interrogatório mote do falatório matinal. Mesmo que Deus não tivesse nada a ver com isso.

— Mulher, que horas são?

— Tudo bem, graças a Deus.

— O quê?

— O que o quê?

— Que horas?

— Ah, tinha escutado outra coisa. São 7h10m. Mentiu, eram 10 para as 7h. Vixe, tenho até que ir, deixei os panos de molho na água Marilena. Mais um embuste.

— É! Pois então tá. Tchau.

— Tchau.

Tchau, graças a Deus, pronunciou internamente.

— Garçom! chamava a fofoqueira no portão. Como ele tá grande! Já tá com quantos meses?

— 3, 4. Vou indo lá. Tchau, Margareth.

— Tchau. Bom dia!

Não conseguiu lhe proferir um bom dia. Parou atrás da porta esperando a hora em que a vizinha fosse embora. Ela iria dizer o que hoje? Que estou antipática por não lhe retribuir um bom dia? Agora era tarde. Ela ainda está lá fora sendo muito lambida por Garçom. Já sei! pensou. Foi até a despensa e chacoalhou o pote plástico contendo ração. Audição de cachorro é fogo! Em instantes lá estava Garçom na porta da cozinha esperando ser, ironicamente, servido.

— Tá com fome, é? Tá com fome, é? falou com aquela vozinha imbecil.

Colocou mais que o habitual de ração para o cão. Assim como fizera para o marido no café da manhã.

— Ele tem outra!