quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Caminhos tortos.

Venho aqui, leitor, para narrar um acontecimento estranho que me sucedeu. Fato esse que me patrocina as mais diversas tristezas e obsessões. Não quero, entretanto, com isso lhe causar similar efeito que em mim se alastra, mas é que soube por um terceiro que o dilema do outro é sempre inócuo, fácil de lidar – e por que não – de resolver. Além do mais, como escrever é sempre uma saída, me arrisco à pena.

Aconteceu há um mês ou mais, contudo a repetência lancinante na minha mente dá ares de tanto frescor, que com pouco esforço até os maus odores se volatilizam por este vão escuro em que traço esse registro. Eu caminhava com a pressa dos descompensados que fogem do ócio, aquela pressa motivadora que bem o leitor conhece. Estava eu tão compenetrado em meus passos largamente vazios, que não dei conta do caminho e terminei por esbarrar em alguém. E tão automáticas quanto as minhas passadas, foram as desculpas que lhe proferi.

Até aí, normal, todavia eis que aquele alguém se tornou um maltrapilho e fedido senhor o qual desconexamente me pergountou:

– Aonde você vai?

– Para casa – respondi-lhe num ar afetado que só os ocupados têm direito de usar com os desconhecidos.

– E depois? – instou-me novamente.

Por um momento, confesso, tive vontade de lhe dizer poucas e boas só para agradar os olhares de esguelha que nos julgavam e suplicavam por uma extraordinariedade, mas não. E com a força da correnteza humana circundante, ou quem sabe pelo senso de justiça que confere até mesmo a um indigente o direito de desferir outra bordoada em que o atingiu, segurei firme a língua e a pasta e retomei meu caminho, pressurizado, mas não menos íntegro.

Deixei lá a pergunta, porém ela me perseguiu pelos metros crescentes de onde a emancipei: e depois, aonde vou? Ao banheiro, à cozinha, à minha cama, ao trabalho de novo, pelo caminho de novo, à minha casa de novo...

Quando dei por mim, vi que andava em círculos, tão sem graça quanto um disco que se repete por anos a fio. Afinal, podemos até gostar de um disco inteiro, ter todas as faixas de cor, a sequência e melodias afinadamente mnemônicas, mas daí a escutá-lo incessantemente é excruciante.

Então pensei: e quando eu quebro a rotina? quando viajo e saio daqui? quando viajo e saio de mim? E percebi que até aí repito o disco. Faz parte da minha vida metódica dar espaço a essa falsa ideia de quebra de rotina, ou seja, ela faz parte do plano, segue a mesmíssima órbita ao redor do eu-sol. Posso até arriscar dizer que as excepcionalidades são meus solstícios: incomuns, raros, contudo previsíveis, predefinidos com data, hora e duração bem estabelecidas no calendário.

Talvez o andrajoso não tivesse a intenção de levantar minha orelha, talvez ele só esstivesse querendo alguém para puxar assunto. Porém, o andarilho em mim reconheceu o caminho já percorrido tantas e tantas vezes, caminho esse que o destino tende a reformar, revitalizar, dar novas roupagens, mas de nada adianta, é sempre a mesma estrada. E o andarilho, habituado com o trilho e não satisfeito, resolveu descarrilhar, pular do trem, acabar com a mediocridade do estipulado.

Fui por uma rua que nunca tinha visto antes; disse oi a muita gente mal-educada; abandonei essas obrigações sociais estúpidas – faculdade, contas, roupas, emprego –; não fui mais ao dentista, ao ortopedista, ao cardiologista, ao urologista, ao ginecologista, ao avalista, aos relativistas, aos generalistas; não me vieram mais a diarista, a telefonista, o motorista, o socorrista, a entrevista, as revistas, as visitas. O caminho que trilhei ao entrar por essa rua escusa tornara-se finalmente inédito. Não dava mais tempo de me subjugar ao cíclico, não dava mais tempo de concilar a busca com o rebusque socialmente aceito. Aliás, nada dava tempo, por isso dei até meu relógio. Descobri, aprendi, vivi. Não escravo de um sistema de terceiros, mas um serviçal e rei de mim. Virei errante, não, errado. Os velhos Novos Baianos sabiam desse mistério do planeta. Os novos – e eu me incluía nestes – é que não sabem. Todavia, caro leitor, voltei a me perguntar e, pasmem, a dúvida continuou como um eco insolúvel. Portanto, repasso a você, assim como num esbarro: aonde você vai?

E depois?