domingo, 23 de abril de 2017

Não chore, homem!

Que mundo é esse, vó, em que a gente tem que fingir que não sente nada pelo que o outro nos causa? Que mundo é esse onde a afeição é apedrejada e a apatia rejubilada? Onde estão os nossos semelhantes, vovó? Pra que se viver num mundo assim, vovó? Por que falar de amor virou algo tão censurável? A partir de quando esse mundo, vovó, se tornou um lugar tão horrível de se viver?

Quero voltar, quero fugir, quero sair daqui! Lugar qualquer onde sentir não seja um defeito e sim uma qualidade. Eu não mereço isso daqui, vó! Por que as pessoas se orgulham em ser opacas, se há tanto mais a se ver com a translucidez!? Essas pessoas estão magoadas? Quem foi capaz de fazer tanto mal a elas a ponto de as tornar assim, tão desumanas? Vovó, como a gente faz para desconstruir esse ciclo? Como convencer que atenção, respeito e afeto são mais valiosos do que insensibilidade, secura e empáfia? Vamos reverter essas pessoas, vovó!

Ai, vovó, acho que me atingiram também. E é tristeza. É tristeza que esse povo tem, vovó. Eles escondem a tristeza! Eles pensam que ser à prova de tristeza é o ideal e acabam petrificando o coração e consequentemente a vida deles e daqueles que o circundam. A sociedade não aceita deslizes. É inaceitável se sentir triste. É inaceitável se sentir magoado. Mágoas são reprováveis! Não se pode sentir mágoas: é ilegal para eles. Eles constróem a vida a partir disso: da desconstrução dos sentimentos. Quantas distopias, vovó, não falam da supressão do sentimento!? Todas praticamente.

Sentir, para esse sistema opressor, é desvantajoso. Tacam pás e mais pás de conteúdo mainstream para nos esquecermos de nós e aceitarmos esse mundo onde somos cada vez mais distantes, inatingíveis, insensíveis...

Eu não, vovó, fique tranquila! Vou viver com você aqui, pra sempre, nessa bolha de amor que me cura de tanta tristeza absorvida desse mundo sem coração, dessas pessoas sem coração...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Vida diet.


Com a maturidade batendo à porta, novas questões vão se estruturando. Problemas novos com velhas roupagens dramáticas ainda desfilam na passarela. Os holofotes só mudam de cor, mas a sensação – embora pensemos ser distintas – ainda continua sendo a mesma. A dor continua sendo dor. A lágrima continua aliviando. O que muda com a maturidade, talvez, seja a percepção. E é justamente essas novas percepções, essas novas maneiras de vermos a vida que nos levantam essas novas questões.

Eis que me deparo com uma situação completamente nova e, acredito, relevante em tempos de tanta reflexão. Questiono-me sobre até onde é necessário sermos pragmáticos com nossas vidas. Quão previsível nós ficamos? Ou quão instável nos tornaríamos sem o pragmatismo? Habita em mim um questionamento que de tão incômodo não consigo parar de lhe repetir, dedicando-lhe até um extenso período composto.

Cheguei a um ponto que me questiono sobre o valor e o preço da disciplina. Quanto vou gastar de vida perdida e sem graça para obter um prazer na hora predeterminada que nem sempre é oportuna? Dá para ser tão pragmático assim na vida? Seria a vida as entrelinhas? O meio tempo entre isso e aquilo planejado? A vida são as linhas da agenda sobre e sob as quais se pragmatiza a vida?

Seria essa a fórmula da felicidade? Empanturrar-se em atividades não reflexivas e esquecer-se de si, de seus valores, do que te faz feliz? Seria a felicidade um placebo? Eu não compro essa ideia! Felicidade é autêntica. A vida é autêntica! Paixões acontecem naturalmente. Não há razão no amor, porque quando há razão não há mais amor. O amor simplesmente acontece. Entra sem bater, faz morada e se esparrama dia após dia, feito posseiro.

Desculpe-me a inquietude, a inconstância. Perdoem-me as velhas desculpas. São as novas crises chegando, passando, atravessando, persistindo.

domingo, 3 de julho de 2016

Nós, por exemplo.

Ouço o burburinho lá fora. Hoje até os grilos resolveram tagarelar com os motores. Os morcegos acompanham a música estranha de uma festa distante. Escuto-os todos. A agonia de saber que há tanta vida lá fora e nada aqui dentro me azucrina. Falo comigo mesmo. Palavras que nunca deveriam ser ditas. Não ouço o som da minha própria voz. Meu cérebro negligencia minha voz. Aliás, não só a ela. Todo meu corpo, toda meu empenho, tudo que eu sou e fui e tenho capacidade de ser meu cérebro também negligencia. Eu me boicoto.

A vaidade me enobrece até certo ponto. Sinto que estou nesse ponto. Tenho certeza de que posso voltar a ser o que era antes ou o que quero ser depois. Também sei que nenhum autocontrole é pleno. Começo a ter mais consciência de mim, apenas. É verdade: às vezes a vaidade me é demais, às vezes de menos. Porém hoje, excepcionalmente hoje, ela está na medida certa. Não consigo ainda pensar qual é essa quantidade certa de vaidade. Inclusive, não sei nem se é vaidade o nome disso. Alguns chamam de maturidade isso de se reconhecer, se enobrecer, se fortalecer... que seja!

Amadurecer é chegar mais perto da morte e da vida.