terça-feira, 28 de setembro de 2010

Dá um tempo! (parte 3)

Parte 2 | Parte 1

José foi correndo até a carteira para ver se o sagrado bilhete da Mega-sena estava lá. Ele já podia se sentir andando dentro de uma Ferrari amarela quando alcançou o objeto com seus anéis de ouro. Abriu-a.

— Cadê? Cadê? Cadê? Cadê? — palrou incessantemente enquanto perscrutava sua carteira. — Nããããoo!!!

Sim, ele lembrou que havia esquecido sobre a bandeja, junto às notas fiscais, o ingresso que lhe garantiria o diploma eterno de vagabundo. E agora o telefone tocava mais uma vez: o que dizer para Marcelo? José caiu em lágrimas.

— Marcelo... — gemeu José e travou em soluços.

— O que foi, José!? — disse instigando-se. — Ganhamos!? — falou Marcelo contagiando-se com o choro do amigo.

José não conseguia falar. Estava atônito! Por um instante sua vida era fácil, agora voltava a ser difícil, talvez mais difícil que antes: mais uma culpa monumental na sua história. As palavras dos dois lados da linha embargaram: José por tristeza, Marcelo de alegria. A calmaria cessou e um som nasal irrompeu pelo fone: era Marcelo com coriza em estado eufórico:

— ESTAMOS RICOS!!! ÊÊÊ!!! NÃO ACREDITO!!!

Pelo telefone dava para escutar a gritaria futebolística instaurada na casa de Marcelo. Contudo, as palavras conseguiram voltar aos poucos para José que gritou também, aos prantos:

— EU PERDI O BILHETE! — gritava como quem suplicava ao capataz para poupar-lhe a vida. — EU PERDI!

— Como é!? Calem a boca! — disse mudando o tom para a sua família que já se enrugava nas águas mornas de Cancun.

— Eu perdi o bilhete! — continuava berrando.

— Como assim, caralho!? — começava também a berrar.

— Eu perdi o bilhete!

— Eu já entendi! Procure direito! — tentou acalmar o amigo. — Já olhou na sua bolsa?

— Já, sim. — e finalmente cacarejou — Eu esqueci sobre a bandeja junto às notas fiscais do lanche que fizemos no shopping.

— Nããããoo!!!

Nesse instante José pôde ouvir o tamanho burburinho que se instalou na casa de Marcelo: era sua família enfim tecendo as teorias conspiratórias. O manjado “eu te avisei” finalmente veio à tona. Primeiro, o tio de Marcelo, que por acaso estava passando pela vizinhança e foi filar a bóia pela sétima vez na semana:

— Eu te avisei que ele iria dar um pé na sua bunda. É um paspalho mesmo!

— Processe-o! Você tem como provar que este prêmio também é seu: há as filmagens das câmeras de segurança do shopping — imiscuiu-se a irmã de Marcelo ao sentir a primeira onda do tsunami nas suas férias indonésias.

Sentimentos irascíveis agora afloravam no amigo que, de volta ao telefone, com um sotaque meio gangster vingativo, meio teletubbie fanhoso, falou:

— Eu não acredito nisso, José! — irou-se. — Você não está dizendo isso para me sacanear, não é?

Silêncio.

— FALA ALGUMA COISA, JOSÉ!!!

— Eu perdi o bilhete! — balbuciou o recém nariz entupido.

— Puta que pariu, caralho! — apregoou após os incitadores sermões avunculares e jogou o telefone nas mãos da mãe, que até então se mostrou a pessoa mais sensata e, por que não, desacreditada nessa estória toda de loteria. — Fale com ele, mamãe. Estou passando mal.

— Oi, meu filho. — disse aquela tenra voz em meio à profusão de palavras prostibulares daquele lar.

— Oi, tia Neide.

— Afinal, querido, o que houve? — acarinhou, o anjo que pariu o ser que mais falava palavrão por segundo no mundo.

— Eu perdi o bilhete — cantarolou mais uma vez o refrão.

— Tenha calma, coração. Beba um copo d’água — recomendou a voz celestial que saía pelos buracos do telefone.

Se aquela entonação lhe pedisse para voar do 14º andar de um prédio, ele obedeceria sem pestanejar. Batendo as asas e gorjeando! Porém, felizmente, não era o caso.

Então José foi até a geladeira em busca do elixir da paz. Mas, como um presente de Deus, ao lado da garrafa gelada estava o até então desaparecido bilhete.

(continua...)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Dá um tempo! (parte 2)

Parte 1

Quando José chegou à casa, sua moral se encontrava num estado de apoplexia. Então por um átimo segundo, ele resolveu sentar-se e estudar para sanar seu cérebro carente do conteúdo programático de Hidráulica II. Em outras palavras: a culpa volátil por ter sido boêmio a semana de prova inteira enfim se fez presente.

Viscosidade, pressão osmótica, telefone, brrriiimm!

— Você viu? O vencedor é daqui!

— Que vencedor?

— Da Mega! E saíram 3 números, que eu me lembre, em que a gente apostou. Olhe o bilhete, pelo amor de Deus!

— Tá certo. Espera — disse José enquanto vasculhava seus bolsos. — Não estou encontrando. Deixe eu procurar na bolsa. Eu te ligo daqui a pouco.

Começou aí a peleja. Primeiro o Zé fuçou a bolsa, depois folheou o caderno, voltou aos bolsos, olhou embaixo da mesa, do sofá, da cama, dentro do guarda-roupa, na bolsa de novo, nos bolsos de novo, na cueca, dentro dos tênis, no escritório e quando estava a caminho da sala, mais uma vez o telefone toca.

— Diga, mãe.

— Meu filho, eu não quero você saindo com Wesley!

— Por que isso, mamãe? — indagou, esquecendo-se por um instante do que estava fazendo.

— Ele foi preso por estar vendendo drogas na igreja.

— Mãe, há mais de 6 anos que não troco um oi com Wesley!

— Boy piroca.

— O quê!?

— Boy piroca, é assim que o chamam.

— Como você sabe disso!?

— Passou na TV! Acabou de passar.

TV, Megasena, bilhete: atribuiu imediatamente o provável novo milionário.

— Mãe, tenho que procurar um bilhete aqui em casa. O ganhador é daqui da cidade e me lembro de ter acertado 3 números — falou dispensando sua mãe.

— Meu filho!!! — gritou a genitora.

— O que foi, mamãe!? — preocupou-se José.

— Você vai me dar quanto!?

— Isso SE eu ganhei e para descobrir isso, tenho que desligar este telefone e procurar.

— Você já olhou nos seus bolsos?

— Já.

— Na sua bolsa?

— Já também, mamãe. Deixe-me ir!

— Olhou dentro da carteira?

Bingo! É lógico que iria estar dentro da sua carteira! Quase largou o telefone para ir buscá-la, mas ainda disse:

— Na carteira! Vou olhar agora. Tchau, mãe. Sua bênção.

— Deus te abençoe, tcha...

(continua...)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Dá um tempo! (parte 1)

— 3,7! Este é o resultado com que você espera ser aprovado? — imprecou para si mesmo com o velho e inútil tom de automoralismo. — Não vou mais sair durante a semana — continuou blasfemando.

José teve uma semana praticamente inteira para estudar para o exame de Cálculo III na faculdade, mas como era de costume resolveu protelar o estudo mais um pouquinho e despretensiosamente sair com os amigos para desestressar, ou dar uma cochiladinha para descansar, ou uns amassos em Jacqueline porque ninguém é de ferro. Sem contar com Jéssica para variar o cardápio e com Jennifer para não mudar de letra. “Triple Jay” se gabava dizendo aos amigos em outra saída durante a semana. O maioral. E o exame? “De próstata?”

Como todo maioral que se preze, suas notas eram um lixo. O reflexo da satisfação da sua consciência estava ali cuspido em dois dígitos. Três vírgula sete. É melhor por extenso, pelo menos não soa tão miúdo.

Devolveu a folha de papel higiênico usado ao professor e foi conversar com seu amigo sobre a prova. E sobre Mariana, que tirara a maior nota da sala. E sobre as coxas dela. E sobre como deve ser caro namorá-la.

— Vamos apostar na Mega-sena! Acumulou. — disse o amigo do maioral, mote de uma risadinha.

— Ainda dá tempo? — indagou inacreditavelmente dois minutos depois da sua própria auto-lição de moral de que não sairia durante a semana.

— Tem tempo sim! A agência do shopping fecha às 18h... — e como um gato lambendo sua penugem, ronronou — Mas aí teríamos que matar aula de Hidráulica II.

— Pode crer! — pausa dramática. — Ah... — tramou um contra-argumento para sua consciência e prosseguiu dizendo em voz firme para causar mais efeito (e instigar ou dar cola do pretexto ao amigo mímico) — mas eu não consigo prestar atenção na aula estando com fome. Vamos passar lá! A gente faz a aposta, come alguma coisa e volta para o resto da aula.

Sim, lá foram os dois intrujões de si mesmos cometer o mesmo crime da semana passada. Ainda não sabem eles que a pior falta de respeito é aquela feita a si próprio. Mas eles são os imorais! Quer dizer, os maiorais!

Aposta feita, foram lanchar. Sanduíches, batatas fritas, copos de refrigerante, canudos, guardanapos, saches de ketchup e notas fiscais sobre a bandeja. Os maiorais adoram comida pelo número: “É mais cômodo e mais barato.” Ou seria uma escusa por não saber sequer escolher um prato ou/num restaurante do shopping?

Foi o 3,7 quem iniciou a conversa balofês:

— Você Junta? — falou com a boca cheia do reprocessado hambúrguer.

— O quê? Nota fiscal?

— Sim.

— Não. Mas minha empregada junta. Ela troca por ingresso para ver jogos no estádio de graça.

— Tô ligado. Eu perdi minha virgindade com uma empregada da minha avó.

— Cê tinha quantos anos?

— Uns 14, 15. E você?

— Foi com minha primeira namorada — parou para encher a boca de pão e tornar a falar em balofês. — Eu tinha 17.

— Dá pra acreditar que Mariana tem 18 anos?

E ficaram nesse profundo diálogo por mais 28 minutos até que resolveram voltar, como haviam acordado antes, para casa.

(continua...)

domingo, 19 de setembro de 2010

Mãozada.

Odeio acordar ou perder o foco de um sonho bom. Recordo até a vez que ouvi ao ver um filme, na casa de Clênio com o pessoal da agência, que se você puder olhar para as mãos durante o sonho, marca-se ali um ponto na sua memória que permite acessá-lo toda vez que você voltar a fitar o pulso. No filme também dizia sobre olhá-las viradas para cima e que dessa forma, e somente dessa forma — não emborcada — é que dava para erguer a base onírica. Acho que era isso, porque no meio do filme eu e Cilede estávamos conversando sobre uma coisa completamente adversa, supérflua. Só o Clênio mesmo para achar esses filmes abstrato-inside-cults legais. Clênio e o namorado. Aliás, o namorado dele também deu umas boas bocejadas que eu vi. Fato é: baboseira televisiva.

Olhei as mãos de toda forma. Palmas para cima, unhas à mostra, de lado, inclinada... Atrelei-me tanto àqueles meus dez dedos que ao dar tino, havia esquecido do que se tratava o sonho.

Contudo, lembrei-me de que minhas unhas estavam péssimas. O esmalte desbotara quase todo e elas urgiam por uma manicure. Lá se vai R$20,00. Acho melhor eu mesma passar acetona e pintá-las com esse esmalte mixuruca que tenho aqui. Preciso economizar! Mas preciso relaxar também! As crianças viajaram na semana passada, entretanto já parece meses. Saudades! Saudades aliviadas, por assim dizer.

Será que César já acordou? Ele tinha que ir para não sei onde agora pela manhã. Eu não escutei porque estava na pia lavando louça para não dar motivos de mais uma piadinha e conversês sobre minha postura, meu papel na casa e todo o et cetera possível. Daí já viu: unhas podres e pontas dos dedos estouradas. Ai, como eu queria poder dizer good bye a tudo isso, mas não dá. E o jeito é ir vivendo. E trabalhando.

Será que está chovendo ou nublado? Ai, que preguiça de levantar. Preguiça não, creio que seja dor: 30 anos, cara! Como era a palavra? Balzaquiana!

Ah! Preciso mesmo ver o tempo. Será que dá para ver daqui? Ok, dinheiro, por enquanto você ainda vence a velhice. Velhice? Xiii... vai chover. Vou ligar para Clênio para confirmar se vai ou não ter o ensaio de hoje à tarde. Cadê o celular? Lá vai eu ter que me levantar novamente. Força, garota! Garota? O dinheiro venceu novamente a velhice: celular em mãos, agora é só lig... Lembrei do sonho!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bom partido.

A diferença entre nós, palhaços, é que eu ganho dinheiro.
É engraçado ver como brasileiro é empenhado no esportividade televisiva. Basta passar na TV e lá estão todos exibindo seus brasões amabilíssimos no único intuito do júbilo próprio, como se todos tivessem de engolir o incrível esforço de gritar na frente de um tubo de imagens. Na política não é diferente. A maioria dos tupiniquins faz alarde ao expressar em quem vai votar. Ou em quem não vai votar. E com o mesmo esmero dos torcedores para que todos engulam a opinião absoluta. Eu disse opinião? Quis dizer verdade.

Talvez a única discrepância entre o buzinar pelas ruas da cidade quando seu time ganha o campeonato e o buzinar por essas mesmas ruas numa carreata é o sentido poético, humanitário e libertador. Sim: o futebol é, acima de tudo, arte. É o próprio espírito carnavalesco que baixa nos seus torcedores deixando-os endemoniadamente — e gratuitamente — felizes, completos... bêbados e vândalos.

Brasil, carnaval, futebol. É tudo igual. Sinônimo mesmo. Já a política, não.

A política é feia, é farsante. É a tenda armada onde você está no picadeiro, sem ganhar um tostão, fingindo ter atenção. Antes fosse uma folga da vida, como o carnaval-futebol! A começar pela obrigação. Não há como ser obrigado a ser alegre. Alegria se opta — inteligência, não (mas isso não vem ao caso).

Antes que você se exalte, retifico: certamente houve um tempo em que ir às ruas significava algo além da pompa trioelétrica. O período em que sabíamos que se quiséssemos, poderíamos isso, isso e aquilo. Contudo, as ruas de hoje entupidas de “49 123, vote Teresa, a deputada de vocês” estão vazias de sentido, tal qual esse jingle.

Por falar em vazio, o que se passa na cabeça de alguém que explicita seu voto pelo seu carro? Alguns recebem dinheiro, outros recebem cargos, entretanto a maioria não recebe nada: só paga. Paga por ser um minioutdoor ambulante com uma mensagem oca de um político oco num carro oco cujo dono é... Sorte a minha que você, leitor, não tem um adesivo desses no seu carro... Ok, mas aposto que se tivesse um carro, não colocaria, não é mesmo?

Desculpe minha ironia. Minha intolerância ainda vai me matar. Porém não sou de todo um mal. Sou, na verdade, um intolerado, porque sei lidar com as diferenças, mas não lidam bem com as minhas. Por exemplo, ocorreu-me agora um episódio vivido por uma personagem minha. Ela e seu melhor amigo, gay, conversavam sobre suas iras.

— Você também tem ódio de mim.

— Eu não tenho ódio de você!

— Tem sim, porque eu sou gay.

— Não tenho ódio por causa disso.

— Admitiu: tem ódio.

— Você entendeu...

— Você tem ódio, porque se eu não fosse gay, estaríamos juntos.

— Ah, é mesmo...

— Mas tem aquele bom partido ali, olhe: tem carro, é bonito... escuta forró... vota em Teresa.

Sim. É verdade: ficou mais nítido agora que eu sou mais intolerante do que intolerado. Eu mesmo não me tolero. Pra começar detesto meu nome. Vote Tércio, 42 444. Tércio, 42 444. Onde já se viu!? Tércio!? Que nome ridículo.

domingo, 12 de setembro de 2010

O novo convertido.

Encostou-se num carro estacionado sobre a calçada. Não havia nada para fazer naquela noite de domingo. Aliás, havia. Dúzias de pessoas o faziam ali diante dele, no outro lado da rua. Ministério Grão da Vida. De um banner verde-limão saltavam aquelas três palavras pretas que nomeavam o lugar. "Brasileiro burocratiza até o céu".

Por instantes lembrou-se da sua mãe. Ela era daquelas obreiras que empurram a cabeça alheia, palra mensagens celestiais — ou seria só "qual é a palavra mesmo?" de uma conversa ordinária — e pula dizendo ser Deus passeando pela igreja. "Quanta pretensão", pensou.

Enquanto isso, a missionária começou a discorrer sobre seu floreio preferido: o dia em que o assaltante dispensou-lhe o despojo. E que Deus a teria coberto pela armadura divina. E que a partir de segunda a igreja se uniria numa campanha de oração — "e dízimo" — para que o Rei dos Ministérios da Morosidade Administrativa lhes reparassem a petição.

Um olhar o notou. Vinha da moça com o bebê no colo que chorava e, portanto, tinha de ficar na calçada para não desconcentrar Deus. E ele continuou a fisgá-lo. Era um olhar indescritível. "Não duvido nada que ela venha me convidar para entrar e escutar o culto de dentro do galpão". Como eu disse, era um olhar indizível: talvez só curiosidade ou pompa, ou ainda um olhar de reprimenda por ser tão jovem e estar fumando. "Ela deve estar querendo presenciar o meu arrebatamento e, enfim, ter sua história para contar no púpito". Mas não passaram de olhares.

Outra mulher virou-se para trás. Disse algo para a mulher dos olhares e esta devolveu o bebê malcriado que iria pro céu sem pecados se morresse. "É muito fácil se basear no improvável".

— Se vista-se da armadura de Deus!!! Só com essa armadura seus problemas... Cherê Berê Coisoloíla! Deus é poderoso! Ô Aleluia!, gritava a motivação do choro dos bebês.

Frente àquela teatralidade toda um lapso realmente celestial atinou na mente de alguém. "Deus é um baita psicólogo. Ele se regozija na sua submissão? Os ensinamentos bíblicos devem ser transmitidos sem a menor interferência. É uma sessão apenas entre Deus e você. Só entre o escrito e você. O livro sem sua inata poesia não é o mesmo."

— Acarinhar é diferente de passar a mão, sussurrou o garoto fumante.

Talvez o ladrão não a quis roubar porque ela era pobre. Pobre de espírito. Então percebeu que só o cigarro que não deixara de ser cigarro. Outro trago e outros olhares fizeram sua noite peremptoriamente cética. "Quem sabe a igreja da outra esquina...". Virou cristão.

sábado, 11 de setembro de 2010

Copo d'água em tempestade.

O clima estava tenso no consultório, mas nem a terapeuta, nem seus fregueses o notariam. Talvez por hábito, talvez por ensejo, afinal, não se vai a psicólogos para compartilhar a primavera. Roberta e Roberto Praça procuravam mais uma vez a brandura na tempestade matrimonial. Pelo menos diziam procurar. E a outra moça da sala lá estava fazendo sua cara de terapeuta. Aquela cara de quem entende tudo e nada ao mesmo tempo.

— Acredita, Vanusa, que ele sequer me dá bom dia quando acordo?

— Minha mãe dizia que não se precisa dar bom dia àquele com quem se dorme.

— Viu? Por que não se casou com sua mãe então?

— Tá vendo?

— Vendo o quê? Que sua mãe não soube lhe educar?

— E vai ser você que vai?

— Viu? Você precisa ler mais!

— Não comece. Essa água já está na fossa, virou chorume.

— Quanta amargura! Aposto que a sua fotografia da água teria chifres. — Virou para a psicóloga e continuou — Vanusa, ele está falando do livro que comecei a ler. De um cientista que afirma que a água é sensitiva e por meio dela se pode criar um padrão e captar todas as energias ao seu redor, inclusive do cosmo... — tornou ao marido e proferiu com convicção — É a materialização do cosmo!

— Não acredito nisso.

— Não estou pedindo para você acreditar, só estou tentando estabelecer um diálogo diferente do “você pode pegar as crianças no colégio hoje”.

— Não. Eu não acredito que você esteja falando isso até para nossa terapeuta. Pensei que você fosse sentir vergonha.

— É uma coisa séria, Roberto! Se você não dá vazão, o problema é seu: já somos bem grandinhos para sabermos lidar com nossas diferenças.

— Um a...

— Um a quanto? Não estamos competindo! Jogamos do mesmo lado! Pelo menos acho que deveríamos.

— Um a é a nossa diferença: Roberto, Roberta.

— Por que você faz isso? Por que fica mudando de assunto ou me ironizando o tempo todo? A você apraz me subjugar?

— Você é louca! Vê coisa onde não tem! Por que você não faz como o japa do seu livro e escreve sobre como é fácil delirar?

— Eu não sou louca!

— Então o que é?

— Para o seu governo, ele estudou, fotografou, catalogou, trabalhou por 15 anos para lançar o livro! Você acha que ele não merece crédito?

— E então!? Você passou 46 anos vendo coisa onde não tem! Será bestseller também, tenho certeza.

— Pelo visto não dá para manter uma relação com você...

— Bom dia.

— Bom dia o quê?

— Estou lhe desejando bom dia. Satisfeita?

— Bom dia nada! Agora é tarde.

— Boa tarde.

— Não, Roberto! Você não entende nada.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Todo garçom é psicólogo.

6 da manhã e o café automaticamente amargo estava na mesa. O cuscuz, os ovos, salsicha, pães e manteiga. 6h30m e ninguém, salvo seus filhos, foi comer. Seu marido correu da cama pro chuveiro, do chuveiro pra roupa e nem sequer abocanhou-lhe um pão ou bochecha. Estava atrasado. Seus filhos e emprego dependiam da sua corrida. Se não tivessem inventado de passar a noite em claro, talvez estivessem todos à mesa, como ela esperava, tendo prazeres estomacais.

Passiva, a esposa assistia ao seu portão parindo toda sua família. Alguém lhe cumprimentara. Lambera-lhe, na verdade. Garçom. Odiou-se por isso. O único contato bucal foi a língua de um cachorro que, por ironia, tinha o nome de um subalterno.

— Garçom! Muxoxava uma vizinha. Oi, Teresinha.

— Oi, como está?

— Tudo bem, graças a Deus! E você?

— Tudo bem, graças a Deus!

— Pois tá. Como estão todos?

— Tudo bem, graças a Deus.

Responder-lhe-ia a mesma frase se a mulher continuasse com o interrogatório mote do falatório matinal. Mesmo que Deus não tivesse nada a ver com isso.

— Mulher, que horas são?

— Tudo bem, graças a Deus.

— O quê?

— O que o quê?

— Que horas?

— Ah, tinha escutado outra coisa. São 7h10m. Mentiu, eram 10 para as 7h. Vixe, tenho até que ir, deixei os panos de molho na água Marilena. Mais um embuste.

— É! Pois então tá. Tchau.

— Tchau.

Tchau, graças a Deus, pronunciou internamente.

— Garçom! chamava a fofoqueira no portão. Como ele tá grande! Já tá com quantos meses?

— 3, 4. Vou indo lá. Tchau, Margareth.

— Tchau. Bom dia!

Não conseguiu lhe proferir um bom dia. Parou atrás da porta esperando a hora em que a vizinha fosse embora. Ela iria dizer o que hoje? Que estou antipática por não lhe retribuir um bom dia? Agora era tarde. Ela ainda está lá fora sendo muito lambida por Garçom. Já sei! pensou. Foi até a despensa e chacoalhou o pote plástico contendo ração. Audição de cachorro é fogo! Em instantes lá estava Garçom na porta da cozinha esperando ser, ironicamente, servido.

— Tá com fome, é? Tá com fome, é? falou com aquela vozinha imbecil.

Colocou mais que o habitual de ração para o cão. Assim como fizera para o marido no café da manhã.

— Ele tem outra!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Nós de gravata.

— Moço, o senhor pode me levar na maternidade? Meus pontos estouraram, olhe.
É muito fácil amar o próximo. Distante, é. Ali na TV, aqui no blog é sempre gratuito apontar e julgar a marginalidade. Romanceá-la, resolvê-la, cheirá-la, abraçá-la é mais fácil ainda... aqui. Com nosso olhar norueguês pensamos que não estamos encardidos com isso. Antes fosse apenas sociologicamente! A moeda com que você compra seu pão já passou na mão de quantos indigentes?

Meu papel, longe de ser hipócrita ou imparcial, é dizer que a sua unha encravada é o maior problema do mundo. Porque se pararmos para tentar resolver o mundo, ele nos dá a pior das rasteiras: "Eu não estou assim, eu sou assim".

É como uma forca de infinitos nós: mesmo salvando um da asfixia, outros nós se apertarão. E não nos cabe nada a não ser nosso egocentrismo. Conformar-se, meus caros, é pior que morrer.

Todo santo jaz.

Hoje papai faria 96 anos. Ou seria 97? Quer dizer, é hoje? 26 de fevereiro... é, é hoje sim. Honestamente não quero ser como ele, mas a genética é fogo. Cidélia tem razão quando vem dizer que estou dando trabalho. Eu não o queria dar! Hoje, mais do que nunca vou tentar não ser meu pai. Contudo, ele não era só estorvo. O que sei de carro: das velas aos faróis, por exemplo, devo a ele. Por outro lado, não posso dizer o mesmo que todos os filhos dizem dos seus genitores quanto a austeridade. Era boemio. Punha arroz e feijão, mas esperava carne. Batia, eu acho, em mamãe.

Mamãe: Santa Erliete. O Senhor viu que ela era valiosa. Cuide bem dEle, mamãe. Sei que fazes muito por mim aí. Acho que o Senhor tirou-lhe cérebro e deu Alzheimer para só assim suportar o que a vida lhe propusera: filhos casados, filha falecida, viuvez... Santa Erliete!

Gozado... sempre depois de morto todo mundo vira Santo. Não que Santo deva ser gente viva. É muita hipocrisia. Aliás, é medo! Medo de que se desvende e lembrem-se das podridões em vida. Papai não era, nem nunca sequer tendeu a canonização. Se brincar aquele dá ordens pro encarnado.

Às vezes é bom não desmentir as pessoas. A gente termina acreditando na própria mentira. Cidélia pensa até hoje que chorei pela morte de papai. Por instantes eu mesmo acreditei. Como me seria estranho chorar no velório dele! Chorava por mamãe que chorava — como ela chegou a dizer — por tio Gilmar. Foi tocante.

Quanto a mim? Vão chorar ao me ver gelado? É capaz até de sorrirem e os foguetões alvorecerem o céu no processo da minha rejeição celestial; ao menos Gessália e Lívia pela pensão minha com a qual sempre sonharam, lacrimariam. Fico feliz quanto a isso, porque a duas pessoas o dinheiro me comprou a santidade.

Vou evitar falar disso hoje à mesa, afinal em afronta ao meu pai vou ser uma pessoa boa.

Que horas são? Acho que vou treinar mais como é morrer.