domingo, 27 de março de 2011

Entre nós.

— Amorzinho, minha paixão!

— Oi, minha serotonina.

— Toda vez que te sinto, nuvem glacê de morango, parece que o seu quero-quero balbucia prosopopeias sabor chocolate...

— Onomatopeias, brilhante escarlate, Onomatopeias...

— Centopeias não me varam melhor, andarilho do meu espectro cardíaco.

— Meu linfócito TCD4, meu chá de sete ervas às 17h!

— Te amo.

— Preciso de ti.

— Te quero cabalisticamente, meu faraó!

— Eu sei, minha força galáctica, fabulosa nebulosa!

— Vem cá, meu leite de coco atapiocado.

— Jujuba de doce de leite!

— Minha resma de notas infindas, meu corolário!

— Meu apócrifo!

— Eu amo...

— Nós amamos...

— A nós?

— A nós.

sábado, 12 de março de 2011

Ondas, Cores e notas.

Gotas em pó, notas sem dó.
Cores, suas, todas e só.
Aves não voam em marcha ré.
Um rio não é igarapé.
Un amor solo a mi.
Mon amour, mon ami.

Quando o mar se põe a arfar
não implica que vai secar.
Água, cor e sol
É pênalti e gol!
Mas sem tu lá,
Só luz, gota e ar,
É como estar em si
O vazio do não existir.

Se em ti há menos sentimentos,
sei que é mentira.
O fulgor aqui é só o aumento
da vista que te inspira.
Numa incessante confusão
do não amar amando.
Porque o real é ilusão,
só não se sabe quando.

Sou sua lavoura, lá fora,
a massa física da hora.
Também sou filho de Deus,
mas acredito em ateus.
Comer sem ver,
Beber sem saber,
Respirar sem viver.

Nada é tão fácil e nem tudo é difícil.
Amar não é nenhum sacrifício.
É saltar do precipício,
esperando um bom auspício!
Não pensando em desperdício.

Você já é o meu vício.
Vem pra cá e deixa disso.
Vem me ver nesse comício,
Vem calar este suplício,
Ou me votar pra seu patrício.

Não consegue ver?

Um arco-íris cintila ou reflete?
Seus tons de cinza são mesmo sete?
Meu arco cupido, minha íris culpada!
Veloso também não entende nada!

quarta-feira, 9 de março de 2011

Boa viagem!

E lá se iam todos novamente de volta à habitual hostilidade. Esperando ansiosamente o momento emblemático em que aquela peculiar corrida se iniciaria. O tiro de partida, assim como o trajeto da competição só eram decididos no último segundo. Era dada a largada da corrida ao ônibus.

É estranho pensar por que se corria tão selvagem e desesperadamente de encontro àquela porta pela qual todos haveriam de transpassar: do primeiro ao último da fila. Coletivamente tinham que esperar uns aos outros. Mas corriam, ou melhor, atropelavam-se com o único e vanglorioso intuito de estar na frente e mostrar o traseiro para o passageiro que viria logo em seguida.

Tais usuários, entretanto, numa ação uniam-se. Era o coro quase uníssono da profusão de com licenças deturpados de razão (ora, para que tanta gentileza?). Talvez eles não soubessem o que os apressavam tanto para se espremerem mutualmente. Quem sabe até esse seja mais um dos mistérios de Fátima.

O curioso nesta estória foi o fato de todos terem espantando-se com enorme afetação, diga-se de passagem, ao ouvir as destoantes palavras do alegre cobrador do ônibus:

— Boa noite e boa viagem!

Mal sabia aquele simples homem que sua sincera e benéfica atitude iria ser de tão grande repercussão na mente dos zangados suados que pela roleta passavam. Aliás, mal sabia ele que, em verdade, sua atitude era algo extraordinário! E, como é de se esperar, tudo que não seguia os ditames, era digno a danação.

Poucos eram os que o bom auspício lhe retribuíam automática ou rispidamente e, não raro, timidamente. A estranheza foi tanta que pensamentos dos mais variados surgiam como bolhas de metano em rios de esgotos.

"Ele flertou comigo?"

"Ele ficou com meu troco?"

"O que ele quer dizer com ‘boa viagem’? Ele só pode estar de gozação!"

"Pelo visto transou hoje, hein, rapaz?"

No final os tão proativos passageiros sequer cogitaram que aquele humilde funcionário da rede de transporte fazia parte da cota dos 5% dos portadores de deficiência que toda empresa deve contratar para se isentar impostos.

Mais um ponto de ônibus e mais outras dúzias se acotovelavam para então vencer a diária corrida dos deficientes.