terça-feira, 27 de outubro de 2015

Arritmia.

Não sei como é, nem sei como seria, tampouco como será. Só sei como foi. E que foi bom. E que foi ruim. E foi tudo.

Como eu e você: vítima e algoz, algoz e vítima, respectiva, inversa, reciprocamente. Eu faço mal a você, te incinero, te sugo, te exploro, te uso, te mato na unha e no fim te jogo fora. Você também faz o mesmo por mim, me envolve, me mal acostuma, me mima, me usa, me tira o fôlego, me apraz e no final me abandona. Completamos um ao outro com a ausência.

Às vezes acho que procuramos meios para não encararmos tantos finais. Fingimos que esquecemos de lidar com a ideia que o meio passou e que já estamos pra lá da metade do caminho (seja lá quão longa essa estrada for). Eu numa ponta, você na outra. Em direções opostas do mesmo verbo: ora eu aspiro, ora você expira, ora eu expiro, ora você aspira. Mas algo nos une. Há algo, mais forte, muito mais forte que eu e você, que nos liga, nos obriga, cria entre nós uma relação mutualista, dualista, masoquista.

Não sei até onde vai o seu poder sobre mim, muito menos o meu sobre você. Não sei nem discernir se o meu poder é seu, pertence a você, ou se o seu poder é meu, a mim pertence. Suas vontades, meus desejos, suas ânsias, minhas dúvidas. Sincronizados lado a lado com o receio e o prazer. Caminhamos com certezas. As incertezas deixamos para depois. E o depois eu não sei como é, nem como seria, nem como será. Apesar de imaginar. Só sei mesmo é como foi. E que foi bom. E que foi ruim. E foi-se tudo.

Antes fosse amor... mas é só cigarro. E mentiras.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Transição.

Vencer um grande medo é a sensação mais difícil e talvez mais prazerosa que se pode ter na vida. Vide, por exemplo, o medo da morte. Se pensássemos no que ganharíamos caso perdêssemos a vida, talvez não pensássemos tanto no que perderíamos caso ganhássemos o direito de chegar do outro lado. Encarar essa balança de riscos é sim o desafio mais estarrecedor que precisamos enfrentar. Atirar-se ao inesperado traz consigo maus presságios, inevitavelmente. Igualzinho à morte.

Arriscar-se é tão doloroso assim, porque nos tira do conforto do previsível. Você não quer isso pra sua vida, no fundo, mas isso está sempre lá, constituindo cada átomo de sanidade e insanidade da sua existência. O onipresente prazer angustiante que o medo traz é excitante e, ao mesmo tempo, excruciante. É o medo que tentamos evitar, mas que sempre está lá. Em tudo. No que desejamos, no que sentimos, no que invejamos, no que queríamos, no que imaginamos, no que seria se...

A projeção do futuro tem uma obrigação moral de ser diferente daquela constituída no presente, pois somos matéria e mudamos, e queremos mudar. Contudo nem tudo é mudança. Há algo que permanece: o mutante. Toda grande angústia é precedente a um grande prazer, dessa máxima não podemos esquivar. A vida, às vezes precisa te dar um cara na tapa para você descobrir isso.

Por que teimamos em insistir de ter mais medo de morrer do que medo de não viver?

Não pense que eu quero morrer. Eu também não quero morrer! Não há justificativa nisso. Nada justifica! (Por isso que não há culpa.) Só Deus sabe como doeu e dói a ideia de sequer por um segundo ainda de perder tudo que construí. Pensar por esse lado faz esquecer o quanto de bom que o inesperado poderia trazer. Afinal, eu sei que a escuridão traumatiza. Tanto quanto o desejo contido. E que a luz abençoa. Tanto quanto a mudança. Não há justificativa. Nada justifica. É um medo que precisa ser vivido e vivo, bem vivo!