segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Fuio.

Foi-se como quem dorme bem. Não que lhe atribui à morte plácida, mas sim à morte simples. O ponto final da reticência que sua vida lentamente escrevia. Talvez estivesse contente afinal, contudo seu rosto era inexpressivo. Era intrigante porque o corpo estava todo contorcido. Parecia-se um feto com um rosto cor de geleia. Os olhos estufados alegavam nada além de que seu rosto coisa alguma avistava.

Conclui-se que a dor era só dor emancipada. Separada e impregnada no corpo, mas não na alma. Olhos de felicidade? Já não se havia brilho para afirmar. Quem sabe olhos de completude, porém não de dever cumprido: como foi dito: o ponto final da reticência: um fim da vida já terminada.

Mudou-se para aquela cova retangular um mês depois que sua mulher o dispensara. Passou o mês entre a vida familiar e a cova familiar numa pousada um andar acima de um boteco freqüentado por putas e velhacos viciados em craque. Experimentou craque e gays um dia, todavia se enfadou. Cansou-se porque não se viu fazendo algo realmente novo, motivacional, como em toda sua existência de relações.

Alimentava-se somente quando a víscera lhe estremecia. Tinha a dor para motivá-lo. A insuportável agonia da dor lhe tirava a vida e o pior é que lhe dava também, num compasso cujo ditador coração regia.

Acumulou-se três meses de aluguel atrasado e três meses de decomposição. Só descobriram-no quando o encanador do apartamento vizinho, que suspeitava de vazamento de gás de cozinha, observou por

— Um fuio?

— É: um buiaco na parede. Ói aí! Tá morto!

Foi-se um morto de inércia. Aliás, um troço de inércia: só é morto quem já viveu.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Paixões.

Primeiras paixões. Ah, as primeiras paixões! Tudo se torna tão belo! Os dias são eficazmente mais brilhantes. Aquela prova de química? Foi 3, mas valeu como um 10! Nas primeiras paixões tudo é assim: mais bonito. Inédito, pra dizer a verdade. Inédito porque é algo completamente novo contemplar a beleza da vida comum por esses olhos ardentes. Ah, as primeiras paixões! É também nas primeiras paixões que queremos compartilhar as primaveras. “Mandar flores ao delegado, bater na porta do vizinho e desejar bom dia, beijar o português da padaria” e tudo o mais pra que todos reflitam do mesmo modo os fótons amorosos do nosso farol ocular. Queremos tanto esse mundo perfeito que até nos iludimos pensando que nos subjugaríamos para que o mundo fosse cada vez mais cintilante quanto nossos olhares. É a tentativa de perdurar o gozo infinitamente efêmero dos suspiros do ‘eu te amo’. É lindo!
Não disserto para não-apaixonados, porque se já é difícil expor uma ideia, imagina transpassa-lá para pessoas que nem sabem o que ou como ela é. Portanto esse texto é para os apaixonados! Para os perdidamente apaixonados! Para aqueles que dariam tudo para ver seu amor mais feliz.
Quando estamos nas primeiras paixões, desejamos consertar o mundo e concertá-lo também. O mundo? Quis dizer nosso amor. É incontrolável o desejo de acompanhar, ajeitar, guiar e auxiliar o bem amado. Tão insuportável que de tanto nos apertar o coração, só nos resta explodir. Estourar de paixão: mostrar quão belo e quão fascinante é o ato de amar. Só esquecemos de uma coisa: não dá para ensinar um ser humano. Não dá para moldá-lo. Ser humano é bicho ruim de se mexer! Que triste, né? Mas estamos apaixonados: dá pra relevar e continuar amando, porque só o amor importa.
Olá, apaixonado! Que dia intragável bom, não é? Será que vai ser assim amanhã também? Para os apaixonados a vida está sempre boa. É uma droga intermitente. E aí chega uma parte chata: é mentira. Essa vibe tem um fim. E, como toda droga forte, a ressaca é tenebrosa, porque talvez dure mais que o próprio efeito psicoativo. Os mais comuns efeitos colaterais são o rancor, o medo, a não permissividade de amar novamente. Amar? Ou seria apaixonar? Talvez você me entendta, talvez não: mas amar é mutual, apaixonar é geralmente unilateral. Quando nos apaixonamos reciprocamente, aí sim, tudo tende ao amor. Cuidado: se há reveses, provavelmente não tem como encontrar amor aí. Não o amor que os calouros apaixonados procuram. Pode ser até outro amor. E a boa nova é: pode ser até outra paixão.
Apaixonar-se é uma dádiva hormonal: lembre-se disso! É seu corpo presenteando prazer a si mesmo. E esse prazer vem em dar prazer ao próximo. Em aproveitar as coisas boas e não saber das ruins. Ou sabê-las, mas não enfatizá-las. Ou enfatizá-las, mas só sob o expresso e específico documento de urgência de ajuda. Para descobrir isso? Acho que só com uma nova paixão: as segundas paixões! Ah, as segundas paixões...

domingo, 14 de novembro de 2010

Dar uma volta.

Bebê, vamos nos ver hoje?

Acho que vou mandar isso, afinal, não perco nada se ela não quiser sair comigo hoje. Aliás, eu perco: não terei com quem gastar camisinha. Tenho que escrever algo arrebatador, algo que não lhe dê escapatória a não ser entrar no meu carro e ter um leito de prazeres dispendiosos.

Gostosa, vamos trepar agora?

Nunca! Que mulher gostaria de ser tratada assim? Todas, mas hipocritamente negam. Princesa, ou melhor, Princesinha — elas sempre cedem aos diminutivos.

Princesinha, vamos trepar agora?

Ainda está agressivo. Já sei: vou mudar a intenção.

Princesinha, quer tomar Milk shake?

Milk shake? Não! Ela, por certo, vai pensar em como eu queria que ela sugasse o canudinho até o fim do leite cremoso do copázio. Deixe-me pensar. Por que ela gosta tanto de ser chamada de princesa? Ela é nobre, linda e inacessível e para poder ter-lhe em meus braços tenho que ralar muito, assim como Aladin e Jasmine. Isso: Aladin! E o meu carro é o tapete mágico...

Princesinha, vamos dar uma volta no meu tapete mágico?

Ótimo! Vou enviar! Se bem que está tão infantil!

Jasmine, vamos dar uma volta agora no meu tapete mágico?

Que burro eu sou! Jasmine? É lógico que ela vai pensar que é outra! É melhor voltar à princesinha. Preciso ser mais maduro para levá-la para a cama. Que tal levá-la para um passeio maravilhoso sobre as dunas de um deserto à noite?

Princesinha, que tal subir no meu tapete e conhecer os prazeres — ou melhor —... as maravilhas do deserto do Saara comigo agora?

Saara é nome de motel! Óbvio que ela não acataria! Quem sabe...

Princesinha, vamos dar um passeio na Babilônia?

Droga! Ela detesta drogas!

Princesinha, posso ter a honra de te ver hoje?

Ela vai responder: pode, no Orkut.

Princesinha, posso ter a honra de te ver pessoalmente hoje?

Pode, na janela.

Princesinha, posso ter a honra de te ver pessoalmente no meu carro hoje?

E o que mais? Um cafezinho? Quer bolacha? Tenho que ser mais conciso, despretensioso, objetivo, delicado e maduro.

Bebê, vamos nos ver hoje?

sábado, 13 de novembro de 2010

A amada professora.

— Com licença, professora, eu poderia assinar a lista de chamada?

— A aula já acabou.

— Eu sei, professora, mas o que é que custa?

— Lógico que não. Eu tenho uma reputação a zelar!

— E eu um relacionamento a manter!

— ...

— Hoje é o aniversário de 3 anos de namoro, então tive de...

— Desculpe interromper, mas não vai dar. Isso não é motivo!

— Não é motivo? Você parece minha namorada. Nada para ela é motivo.

— Viu como anda a sua reputação?

— Não, professora. Você não entendeu: ela nunca compreende o meu lado, tal qual você agora.

— Agora e há duas semanas consecutivas.

— Acho que vocês duas sentem prazer ao me ver assim, humilhado.

— Como é?

— Aliás, digo que a senhora parece com ela, mas cada qual é única, eu sei, e não tem como responderem da mesma forma a um mesmo estímulo et cetera e tal. Porém, a senhora é bem mais coerente e, absolutamente, mais inteligente. Porque a senhora me detesta por justa causa. Ela, não. Você acredita que ela estava cogitando me dispensar e pedir ao pai dela que desfizesse o contrato de exclusividade da minha marca de tomates orgânicos que ele revende no mercadinho da família dela? Tudo isso porque eu cheguei no dia seguinte ao que marcamos de ir para o cinema ver um festival de filmes abstratos coreanos. Ora, eu pensei que fosse no domingo, mas não sei por que burros d’água o festival terminara no próprio sábado!

— Cargas d’água.

— Viu? O que eu falei que ela é injusta!?

— Não, estou corrigindo apenas o que você disse: não é burros d’água, é cargas d’água!

— Para falar a verdade, a senhora é bem além dela: a senhora me ensina coisas que nem minha mãe saberia! Ela sempre fala burros d’água.

— A aula de hoje foi sobre isso.

— Sobre mal entendidos?

— Não: sobre expressões e partículas enfáticas.

— Professora, você é mesmo incrível! Não sei onde estava a minha cabeça quando lhe disse que se parecia com minha namorada. Minha namorada é rancorosa: ela se ressente de coisas que fiz (ou geralmente deixei de fazer) de há dois domingos atrás! E aí está você — completamente superior a orgulho e mágoas — me dando aula de forma completamente gratuita e eficiente, aplicando e corrigindo-me da maneira mais didática possível. Adorei a aula, onde está a lista de presença?

— Ai, ai! Não sei o que é que faço com você, viu?

— Deixe-me assinar o papel!

— Tá! Mas que não se repita!

— Claro que não, professora!

— ...

— Muito obrigado, professora.

Hunf! ... Ah, e o negócio dos tomates: como você fez para que ela não lhe destituísse o dote?

— É fácil: elogiei-a.

domingo, 7 de novembro de 2010

Mereço

Eu sou a raiva em tempo de paz.
Eu sou o amor do satanás.
Sou a canção de rima errada.
Sou sempre sim e nunca nada.

Sou o décimo terceiro ponteiro.
Sou um jabuti ligeiro.
Sou o email do carteiro
Sou o 30 de fevereiro.

Sou de gala e roupa rota.
Sou do deserto uma gota.
Sou uma palha no incêndio,
folha vazia do compêndio.

Sou o rico de bucho seco.
Da flor sou o esterco.
Sou um pássaro de pelo,
a alegria de um pesadelo.

Eu sou assim,
o bom que é ruim,
o contrário do avesso.
Eu sou o que eu mereço.

sábado, 6 de novembro de 2010

Negócio da China.

— O que é castrado?

— Por que a pergunta, Júnior? — replicou o pai.

— Vi hoje na TV que os gatos de rua tinham que ser castrados. Aí eu não sabia o que significava.

— Ah... É o seguinte, Júnior: os gatos de rua transmitem doenças a nós. Para que eles não se procriem, se faz, então, sua castração. Deixando-os castrados.

— E isso é ruim?

— O quê?

— Eles se procriarem.

— Procriar é se reproduzir. É passar adiante a herança genética da família. Como eu posso dizer? É ter filhos, entende?

— Para que mais pessoas não peguem doenças dos gatos!

— Isso mesmo!

— Ah, bom...

Cacazinho era filho de Castro e Teresa Canavarro. Sua alcunha veio da aglutinação de Castro Canavarro de Oliveira Júnior, dada com muito carinho pela sua mãe, que, por sua vez, atribuiu à forma caprichosa que seu sogro chamava o marido, Cacá.

Por muita paixão e dedicação ao lar, ambos — Castro e Teresa — logo entraram em acordo que aquilo que se expandia no ventre de Teresa haveria de se eternizar com o nome do par perfeito, da contratual relação atemporal: Castro Canavarro de Oliveira... Júnior.

— Júnior ou Filho?

— Filho é melhor.

— Ok.

— Pensando bem, é melhor Júnior.

E assim escolheram o nome daquela simbólica criança.

Melhor falando, geniosa criança. Cacazinho era aquele típico pirralho leonino que conseguia de maneira magnífica unir manha, sagacidade e inteligência. E, por que não, mimos, superproteção e déficit de atenção. Em síntese, Cacazinho era o prodigioso, o impossível, o encapetado filho único. Aquele que orgulha o pai ao dizer-lhe que quando crescesse queria ser um biólogo igual a ele, para desanuviar a surra tão ameaçadora.

— Júnior, Júnior... — Essa era a mais dolorosa punição que seu pai lhe submetia.

O pai era o único a chamar o filho de Júnior. Não só pelo narcisismo de se lembrar o tempo todo do seu próprio nome, afinal, “Filho” lhe soava no mesmo tom. Chamava-lhe Júnior por associar que o sobrenome Júnior o remetia a uma cópia de si mesmo. Ou seja, de maneira análoga, pode-se dizer que o Sr. Castro via no pequeno o destino perpetuado de uma traça. Não porque Júnior tenha feito cena, comendo páginas de livros. A comparação situa-se mais no sentido do crescimento e desenvolvimento corpóreo (ser seu clone em miniatura) e comportamental (como comer livros velhos de biologia) do inseto.

Entretanto, a dedetização ocorreu assim que o gigante segundo filho sombreou seu até então inabalável reinado. De nada adiantaria berrar, espernear, chorar, saracotear que nem sua forjada infecção intestinal tiraria os holofotes do seu irmão mais novo. Isso se tornou convicção num dia fatídico em que Cacazinho queria sentar-se numa dessas cadeiras altas, tal qual seu irmão de dois anos, num restaurante chinês, fazia.

— Essa cadeira é para bebês! Você não é mais neném, Júnior!

Com essa explícita evidência de que seu pai não o via mais do mesmo nível que o irmão, arremessou sobre a mesa o pires contendo molho shoyu, lambuzando além da mesa, o babador do irmão e o ego do pai.

— Júnior, Júnior...

Ao chegar à casa levou sua primeira surra.

Como toda criança esperta, Cacá Júnior viu que não seria mais da mesma forma que reconquistaria seu trono e por isso dedicou-se aos estudos no intuito de regozijar o atual intransigente olhar patriarcal. Empenhou-se tanto, que, na escola, aquele incurável diabo era tido como o aluno exemplar, sendo agora agraciado por todos os elogios possíveis nas reuniões (antes assiduamente frequentadas) de pais-e-escola.

Talvez por comodismo, talvez por cansaço ou mesmo por opção, Castro Júnior foi adotado pelo conhecimento. Tamanho era o seu esmero que sua postura era motivo de chacota na sala de aula. Um típico nerd. Tão nerd que seu esporte favorito agora era xadrez.

Começou sendo apelidado por amarelão, graças aos seus cabelos e pele solares. Depois vieram vários outros efêmeros agrados, até que chegou, em virtude da sua vitória no campeonato de xadrez, ao frango xadrez, que por tabela virou molho shoyu e simplesmente Shoyu. Grande lógica!

Shoyu cresceu e tornou-se intrinsecamente Shoyu. Tão Shoyu que as pessoas acreditavam muitas vezes que aquilo era o que estava impresso na sua identidade. Castro Júnior, por outro lado, via no apelido o supetão necessário para tomar um rumo diferente. “Nome novo, vida nova”. Morria-se ali, em definitivo, Castro Canavarro de Oliveira Júnior e nascia Shoyu, que era apenas filho de Castro Canavarro de Oliveira.

Com o gastar do tempo, as distâncias só iam se agravando. Tanto que ao mudar de cidade e morar sozinho, chegou a passar seis meses sem ver sua família genética. Inclusive, passaria mais, mas noutro fatídico dia seu pai precisaria ficar hospedado em sua casa para resolver os trâmites de um imóvel que compraria naquela cidade. Quando adentrou na sala logo viu um pomposo mural com fotos, recados e um vistoso “Shoyu” no topo do quadro.

— Shoyu?

— É. É assim que me chamam.

— Eu gosto de shoyu — mentiu dizendo a verdade.

— Haha! O senhor quer que eu lhe prepare algo?

Cacazinho gostava de cozinhar. Por ter se tornado professor de química, costumava falar que a copa era o laboratório do dia-a-dia e a comida, os produtos de uma reação. Já que discorreu sua vida se alimentando em redutos chineses, adquiriu extremo conhecimento naquela modalidade e resolveu prepara um yakisoba de camarão para o velho.

Perfeccionista e muito competente, Júnior encarava como uma afronta se alguma coisa que saísse de seu fogão não fosse agradável. Sua receita sempre tinha as proporções estequiométricas ideais para se chegar ao sublime paladar. Uma vez até lhe convidaram a ser chef! Mas preferiu seguir lecionando de forma culinária.

Camarão, acelga, macarrão, cenoura... e molho de soja. Em 20 minutos estava pronto o prato que qualquer restaurante chinês gostaria de patentear. Mas, para o desânimo de Júnior, seu pai lhe perguntou:

— Meu filho, você tem shoyu?

— Tem: eu.

terça-feira, 2 de novembro de 2010