sexta-feira, 24 de junho de 2011

Vai chover?

— O mal da humanidade está em criar expectativas.

— Que mesquinho pensar assim! Há tanta coisa pior do que as expectativas! Veja uma guerra, um tsunami, uma bolsa roubada, uma chacina...

— Se não tivéssemos esperanças de que tudo perdurasse, não sofreríamos tanto. É como um bônus aos descontentamentos: veio a guerra e estraçalhou sua sensação de paz eterna ou, não veio a guerra e arruinou suas hipóteses de como tudo iria terminar.

— Sinto muito, mas não vejo coerência no que você fala: eu nunca iria querer uma guerra!

— Isso é o que você me diz e o que me faz acreditar que você pensa assim. Logo, querer que eu confie no que me diz é ter expectativas sobre o meu reflexo diante do que me lança.

— Ainda não compreendo o ponto.

— É normal. A expectativa é a coisa mais incoerente do mundo. Ela nunca está no centro, sempre nas laterais, isto é, ou você quebra ou você frustra suas expectativas.

— E quem atinge suas expectativas?

— É como quem alcançou a utopia. É o que me foi dito para me fazer acreditar que aconteceu desse jeito. Só os videntes atingem suas expectativas.

— Mas por que a expectativa é o mal do mundo?

— Porque é uma falsa ideia.

— Continue...

— As falsas ideias são venenosas, porque na verdade são ideias que boicotam o pensamento. A esperança de que vai dar tudo certo é uma artimanha cruel, porque não existe o errado. Por isso o boicote do pensamento.

— Se eu te dissesse que tenho câncer?

— É fatídico, acontece, é isso, está se tratando?

— Como você é frio!

— Esse é o mal da expectativa: somos totais dependentes dela.

— Pois então criemos expectativas ruins!

— Ao criar expectativas ruins, não acha que as vai estar incubindo de germinar outras boas em você?

— E as surpresas? O que me diz em ser surpreendido?

— Isso é um segredo que não pretendo descobrir.

— Haha! Uma nuvem de expectativas sombreou agora sua cabeça!

— Garçom, mais uma!