domingo, 2 de dezembro de 2012

Sentença final.

Não dá pra ser todo dia aquilo que você sempre foi. Simplesmente não dá. Porque simplesmente há dias de mudança. Se analisássemos por uma ótica macro, constataríamos que o nosso planeta (sistema solar, universo etc) está sofrendo mudanças o tempo inteiro. As estações mudam e ainda não conseguimos manipular o tempo para que elas se eternizassem - ou nunca viessem. Ou nos adaptamos, ou deixemos pra lá e morremos congelados no inverno  - ou desidratados no verão. Acho que com a cabeça, assim como o andar de contração e expansão do universo, não podia ser diferente. E, já que fazemos parte da mesma matéria, átomos, por que então, devamos ir de encontro a isso? Não acho que tem como jogar contra a fluxo de nascer e morrer, de crescer e diminuir, de pressionar e relaxar. Toda energia, toda a matéria que circula no seu sangue e ao seu redor é constituída por isso: por entidades que vibram e que fazem movimentos tão loucos e tão rápidos que é impossível vê-los, apenas prevê-los. Tornando-se fácil, pois, de explicar o porquê que não dá pra ser exatamente o mesmo de ontem: é inevitável ser o hoje! É inevitável a prisão para existir a liberdade. Aprende-se com erros. Infelizmente é assim. A vida tem um lado bom e também tem um lado ruim. Simplesmente é assim. Há dias de alegria e paz, mas também há dias de tristeza e guerra. Parece que é assim que acontece.

Muito se fala em fim do mundo em 2012. Eu não sou adepto a superstições, nem acredito que num único dia o fim de uma coisa, que levou tanto tempo para se formar, vai subitamente acontecer. Pode ser que 21 de dezembro de 2012 seja apenas um dia para marcar o início do fim de um mundo velho, ou pode ser simplesmente que 21 de dezembro fosse mais um alarme falso para se vender mais um filme do fim do mundo. Lembra-se: não dá pra ver, apenas prever. Mas para que algo que imaginamos nos surpreenda é  imprescindível que não o tenhamos nunca imaginado. E o que nos resta se quisermos seguir evoluindo é simplesmente ir. Nascer, crescer, morrer, virar adubo, virar planta...  em outras palavras: transformar-se. Na nossa mente é do mesmo jeito: lembramos e esquecemos, arquivamos e deletamos,  nos conformamos e nos rebelamos.

Portanto, aceitar suas cicatrizes faz parte.  Elas, as cicatrizes,  são os desvios que assim como nós, os átomos cometem (daí a imprecisão de prevê-los). E, acima de tudo, elas fazem parte do que você é. Porque simplesmente errar faz parte do acerto. Aliás: errar e acertar não passam de formas arcaicas de pôr a culpa ou o mérito em algo ou em alguém. Contudo, alto-lá, não digo que eles não existam. Eles existem, tanto que estão aí esculpidos sob a forma de cicatrizes e feridas vivas nos nossos âmagos.

Nosso planeta e nós estamos mudando. Acertando e errando, mas mudando. Eu faço parte do mundo. Você também. 100% é tudo. 0% é de nada. O "tudo" está além do universo. O "nada", também. A metade de tudo, é tudo. A metade de nada, é nada. Logo, a minha sentença final é esta: tudo e nada é a mesma coisa, ou não.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Bússula.

Meu amor, sempre me culpei porque nunca escrevi nada especificamente para você. Nunca lhe dediquei um texto ou uma crônica. Nem sequer um versinho! Passei esta madrugada pensando o porquê disso. Por que eu nunca expressei este meu imenso amor por você em palavras? Por que nunca descrevi o quanto você me é cabível, compatível, imprescindível, imbatível!? Por que eu nunca falei que quando eu penso em você, me encho de paz, de bons sentimentos, de boas histórias que vieram e virão? Por que eu jamais me dispus a eternizar em letras que você é o elixir da minha vida, que você me faz uma pessoa mais feliz dia após dia?

Pensando sobre isso me deparo logo com uma longa viagem filosófica que me é tão habitual. Eis o itinerário:

A primeira parada é uma constatação que eu já tinha desde muito tempo: a escrita é uma arte triste. Ele, o ato de escrever (portanto, o de ler também), se atém à tristeza assim como uma lágrima se atém à gravidade. Lógico que há outros caminhos: ora, existe a gravidade zero. Contudo, por aqui – entre o Polo Norte e o Sul – num planeta onde a força gravitacional ainda me prende os pés, eu pouco posso fazer para que minhas lágrimas voem ao invés de pingarem. E foi aí que finalmente notei que um dos motivos de não redigir sobre você é este: você não me traz tristeza.

Noutro ponto dessa viagem cheguei a uma singela conjectura de que o que escrevo é um plano de escape, é o vômito que me estava preso, é a aflição que eu não quero para mim... E você, meu amor, nada tem a ver com isso! Você, eu quero para mim! Não quero te expulsar. Não quero que o que você me faz suma, nunca! Você é o que eu quero manter.

A terceira paragem, quando nesse trem já era anunciada a destinação final, um túnel apareceu e a luz que tanto me assegurava à felicidade simplesmente sumiu e, assim, do nada, como um choque elétrico, todo o percurso dessa viagem tão peculiar fez total sentido: eu tenho medo de perder você.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A adoção.

– Mãe, pode dizer, já estou preparada. Eu sou adotada, não é?

– Hã?

– ...

– Que idéia!

– ...

– Você está mesmo perguntando isso?

– Claro que sim.

– Mas, por quê!? Da onde você tirou isso?

– Ora, mamãe! Faça-me o favor! Tá na cara que não sou sua filha!

– Como assim, filha!? Assim você me ofende.

– Desculpe, mamãe. Não é minha intenção lhe magoar, mas é que somos tão diferentes uma da outra...

– Acho que você está se precipitando, minha filha. O que te levou a pensar assim?

– Não sei... Acho que foi o espelho.

– O espelho?

– Sim. No espelho eu pude ver o quanto somos diferentes. Não puxei nada à senhora! Veja. Meus olhos são tão diferentes dos seus!

– Agradeça a Deus por isso! Você não sabe como é incômodo usar estes pesados óculos!

– Mas eles continuam diferentes...

– Deixe-me tirar isso. E agora? Não se parecem mais?

– Não, mamãe. Seus olhos são pretos, discretos, incisivos. Os meus são azuis, reluzentes, de brilho perdulário!

– Você puxou a cor dos olhos de seu pai, simples assim.

– Ah... sei! É fácil dizer isso quando não o conheço direito, não é? Mas, e minha boca? Vai dizer também que foi a ele que puxei?

– Não, não! Definitivamente a boca é minha.

– Sua, mamãe!? Eu tenho lábios carnudos, rosados, bem delineados e a senhora? Lábios amarronzados, finos, engelhados.

– Você nunca fumou! Agradeça a Deus por isso também. O cigarro além dos meus lábios, levou também minha vontade de falar e trouxe consigo minha aspereza, meu pedantismo, que hoje parece tão natural.

– Você também tinha uma boca como a minha?

– Sim! Exatamente igual. Eu era também muito tagarela, que nem você.

– Difícil de acreditar.

– Mas foi assim! Pra falar a verdade também tive um momento exatamente como esse com minha mãe: não acreditava que era sua filha biológica. Ela, assim como eu fiz agora, também me jogou um balde d'água fria na minha ardente conjectura de que eu não fosse de sua prole.

– Poxa. Desculpa, mãe. Pensei alto demais. Agora vejo com clareza o quanto nos assemelhamos. Hahaha, olhe nossa postura!

– Isso, minha filha. São afãs do momento: vêm e vão. E, além do mais, mãe é quem cria.

– Aham... quer dizer... você não é minha mãe biológica!?

– Ai, ai, ai. Vai começar tudo de novo? Tá na hora de você ir dormir. Já está tarde e você vai se atrasar para escola amanhã.

– Hum... tá certo, mamãe. Boa noite.

– Boa noite. Durma bem, meu anjo.

E assim, ao se despedir da sua filha, a mãe vai direto ao telefone e digita uma dúzia de números para efetuar uma chamada interurbana. O telefone toca cinco, seis vezes e uma voz grave, de muito sono, atende:

– Alô?

– Alô, Ego? Opinião.

– Opinião? O que houve para você me ligar a essas horas da noite?

– Precisamos falar de nossa filha.

– Qual delas?

– Vaidade.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A caminho.


A onda tornava a limpar seus pés cheios de areia da praia: a onda batia e toda aquela agonia do tato enlameado se dissolvia. Agora, a onda voltava e os pés já lavados, sufocados suspiravam por mais areia. E assim, o percurso continuava com pegadas recentes bem vívidas e pegadas longínquas meio apagadas entre o meio e o fim...

Talvez ele começasse a entender que o mister da caminhada não seja caminhar e sim, chegar. Ou talvez ele enfim descobrisse que na linha de chegada fosse tudo do mesmo jeito como na linha de partida e o importante, então, fosse o percurso percorrido: “os mais velhos dizem que de nada adiantam consequências sem causas, enquanto os mais novos bradam que de nada adiantam causas sem consequências”, pensava enquanto andava.

A cada nova baía, uma nova paisagem era descoberta, enquanto o mar continuava sempre lá, secando e molhando, soltando e puxando, descendo e enchendo, fazendo seu papel ora cruel, ora benévolo de consciência viva.

Enquanto andava, o andarilho não olhava pra trás e terminava por se arrepender de não ter visto a linda paisagem pela qual passou. Por outro lado, quando parava, ele se desesperava por querer sempre mais de outros lugares, por saber que há muito mais a ser descoberto. Não era um destino específico que ele queria alcançar, nem era a caminhada que lhe interessava. Era o desejo de saciar sua sina de procurar por algo que não existe.

“O novo pode horrorizar ou fascinar. O velho, preocupar e acolher.”

Ficando desse jeito num impasse insolúvel até que a onda tornava a limpar seus pés cheios de areia da praia. 

terça-feira, 31 de julho de 2012

Eu, hein!?


Dia desses travei uma luta feroz com uma amiga de longa data, a senhorita Consciência. Como em toda boa briga, não só apanhei, é claro. Bati muito também! Soquei-lhe nas suas maiores controvérsias, chutei-lhe bem em cima de suas falhas, acertei-lhe em cheio os seus arredios desacertos! Contudo, como bem já adiantei, perdi. Ora! Ela é uma monstra! E dos piores tipos! Que lhe esmaga a cada investida bem-sucedida. Sei que saí dorido, arrasado, cadente, porém, tenho certeza que ela também. Nas palavras que se seguem tentei transcrever minha cansativa desventura. E ela começava com um questionamento absorto vindo de não sei de onde, não sei que horas que dizia...

– Você já se perguntou do porquê de quando você é mais novo, facilmente fala ‘eu te amo’ e agora, enquanto ‘adulto’ dificilmente o diz? Pensando sobre isso, foi que atinei sobre essa autoanálise tantas vezes negligenciada por você.

Pausa: o leitor pode até achar disso tudo um esboço bobo (para não chamar ingênuo) de querer falar sobre o que todo mundo já tem conhecimento, ou seja, de que muitas pessoas simplesmente sabem que com o tempo as relações para se tornarem firmes precisam obter credibilidade e confiança e é por isso...

– Graças ao critério “confiança+credibilidade” que acabamos por privar... quer dizer, privilegiar o amor a um grupo de pessoas que preencham corretamente as lacunas abertas nesse questionário pré-amor. Procuramos sempre defender os nossos critérios, sem dar ouvido a outras propostas de outras pessoas de ‘como amar’, simplesmente porque o fato de amar é algo pessoal, isto é, ninguém, além de mim mesmo tem o direito de ‘julgar o que eu devo ou não amar’.

Concordo. Eu, particularmente, me armo com milhões de pedras na mão contra quem quer que seja que venha sequer cogitar a hipótese de que eu, em muitos rodeios ou poucas palavras, devesse mudar a maneira dos meus sentimentos, com o discurso de que eu devesse dar realmente ouvidos a outras experiências, mesmo que à primeira vista não me pareçam tão absurdas assim etc, etc, etc.

Entretanto, feita essa argüição toda, me deparo frente a frente com a ressalva desse diálogo autoanalítico, quando atirei-lhe “(...)privar... quer dizer, privilegiar(...)”. E insto à minha Consciência amiga:

– Por que “quer dizer”? Para quem foi intencionado esse “quer dizer”? Para o leitor, a fim de que assim acompanhe a linha do meu raciocínio? Ou para o eu-lírico, que precisa seguir minha linha de raciocínio? Para o leitor, com o intuito de situá-lo no conflito iminente? Ou para meu eu-lírico, para admitir a mim mesmo que é necessário parar e corrigir meus pensamentos?

Foi então que caiu como um punhal a ficha no meu peito. A ficha atravessou todos os meus raciocínios (desde o mais profundo e complexo ao mais raso e trivial) e ela dizia:

– Para tudo! Esquece do que você acabou de pensar e me responde: faz quanto tempo que você não diz ‘eu me amo’? Há quanto tempo você não pára pra você? Há quanto tempo que você não decide interromper todos os vínculos com as suas responsabilidades racionais e se apega às suas necessidades emocionais? Você acha realmente que a vida é só para achar razões a tudo? A pergunta que move o mundo é o “por quê?”, concordo, mas está na hora de admitir que às vezes o seu bonde só pode correr enquanto tiver condições de correr. Para isso não precisa de explicação, motivo ou razão aparente: simplesmente eu paro, vejo o bonde andar, recupero o fôlego e sigo o rumo que eu bem desejar. Como toda máquina sobrecarregada, um dia ela pifa. Isto é, entendo que o mundo não para, mas o seu cessou e não deve explicações.

Não deve?

– Devo sim!

E é aí que mora o míster dessa auto-reflexão: existe felicidade sem ser compartilhada? Eu sou o responsável por aquilo que cativo?

– Por que amar virou tão racional!? O que há de errado? Quanta responsabilidade é viver! Tilt, tilt!

Parou!

– Parou nada!

Forçar a barra contra um inimigo palpável (como um deus, ou seu vizinho) a quem se possa direcionar a culpa é mais fácil, mas e quando o inimigo é você mesmo, a quem você vai ter moral de direcionar a culpa? Nossos monstros são aquilo que nós criamos na nossa mente, logo o combate tem que ser lá dentro da mente também, confere? Pééén! Você não sabe! Você não sabe como combater um inimigo quando você é ele mesmo. Você precisa necessariamente de ajuda. Ou então, faça como um eremita e descubra que é sozinho que você se cura, mas também é sozinho que se envenena.

– Deus somos nós, são nossas atitudes, é o nosso caráter. Deus acertou quando fez muita coisa, mas Deus para poder ter criado o acerto, havia de ter criado o erro, logo, Deus também erra. Perceber que todas as nossas convicções podem ser mudadas em virtude das circunstâncias vigentes é lacerante, mas é algo que tem que ser aceitado. Por exemplo, um dia alguém que você ama vai morrer e você vai ver que sua convicção do eternamente amar e ser amado terá de ser rompida sem que você não pudesse fazer nada a respeito. Logo a você!!! A você que tanto se empenha para que tudo ocorra tão “perfeitamente”!

Pois, com toda presunção  que cabe ao escritor, eu digo: a vida é feita disso, de altos e baixos e acho que é por isso que amo o mar. E amo muito os meus amigos e todos aqueles que passaram na minha vida para construir muitos dos conceitos que antes eu não cogitava sequer o direito de os ouvir. Eu sei que tenho que responder por mim, mas tudo que me formou tem também papel importantíssimo e igual para a construção da minha resposta.

Nessa autoanálise busquei pelo todo, sem me dar conta que meus braços não são do tamanho do planeta, me sobrecarreguei e acabei não conseguindo construir a minha resposta. Ficando apenas os porquês da cinemática: por que tanto eu? por que tão pouco eu?

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Ao mar.

Para uma amiga, num dia de reflexão confessei o quanto eu amava o mar. Relatei-lhe como ele, o mar, era significativo para mim. Cada átomo, cada molécula, cada proteína, cada sal, cada pedra, cada animal, cada sincronia, cada sinal, cada movimento que o constitui, tudo em sua imensurável grandeza era amado por mim! “Como eu amo o mar!” Perguntado por que, respondi que ele me envolvia, ele me refletia em dias de muita nuvem, que ele me acalmava em marés baixas, que ele me alegrava em dias de sol, que ele me apaixonava em noites de luar, que ele me limpava em suas ressacas, que ele me elevava em suas cristas, que ele me rebaixava em suas depressões, que ele me engolia em suas ondas impiedosas, que ele me movia noutras enérgicas, que ele me machucava em suas pedras sorrateiras, que ele me curava em suas águas medicinais, que ele me saciava e, acima de tudo, que ele me entendia. “Ah... mar!”

Há tanto o que falar. Desse hiato cheio de coisas, só posso dizer que vou subindo e descendo, zarpando e arpando e ele continua lá, sólido, maciço, livre, solto e líquido, sendo maravilhoso!

“Oh, mar da nossa vida!” O mar dá nossa vida. Meu ar, eu mar. Que honra é nos dedicar um texto!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Caminhos tortos.

Venho aqui, leitor, para narrar um acontecimento estranho que me sucedeu. Fato esse que me patrocina as mais diversas tristezas e obsessões. Não quero, entretanto, com isso lhe causar similar efeito que em mim se alastra, mas é que soube por um terceiro que o dilema do outro é sempre inócuo, fácil de lidar – e por que não – de resolver. Além do mais, como escrever é sempre uma saída, me arrisco à pena.

Aconteceu há um mês ou mais, contudo a repetência lancinante na minha mente dá ares de tanto frescor, que com pouco esforço até os maus odores se volatilizam por este vão escuro em que traço esse registro. Eu caminhava com a pressa dos descompensados que fogem do ócio, aquela pressa motivadora que bem o leitor conhece. Estava eu tão compenetrado em meus passos largamente vazios, que não dei conta do caminho e terminei por esbarrar em alguém. E tão automáticas quanto as minhas passadas, foram as desculpas que lhe proferi.

Até aí, normal, todavia eis que aquele alguém se tornou um maltrapilho e fedido senhor o qual desconexamente me pergountou:

– Aonde você vai?

– Para casa – respondi-lhe num ar afetado que só os ocupados têm direito de usar com os desconhecidos.

– E depois? – instou-me novamente.

Por um momento, confesso, tive vontade de lhe dizer poucas e boas só para agradar os olhares de esguelha que nos julgavam e suplicavam por uma extraordinariedade, mas não. E com a força da correnteza humana circundante, ou quem sabe pelo senso de justiça que confere até mesmo a um indigente o direito de desferir outra bordoada em que o atingiu, segurei firme a língua e a pasta e retomei meu caminho, pressurizado, mas não menos íntegro.

Deixei lá a pergunta, porém ela me perseguiu pelos metros crescentes de onde a emancipei: e depois, aonde vou? Ao banheiro, à cozinha, à minha cama, ao trabalho de novo, pelo caminho de novo, à minha casa de novo...

Quando dei por mim, vi que andava em círculos, tão sem graça quanto um disco que se repete por anos a fio. Afinal, podemos até gostar de um disco inteiro, ter todas as faixas de cor, a sequência e melodias afinadamente mnemônicas, mas daí a escutá-lo incessantemente é excruciante.

Então pensei: e quando eu quebro a rotina? quando viajo e saio daqui? quando viajo e saio de mim? E percebi que até aí repito o disco. Faz parte da minha vida metódica dar espaço a essa falsa ideia de quebra de rotina, ou seja, ela faz parte do plano, segue a mesmíssima órbita ao redor do eu-sol. Posso até arriscar dizer que as excepcionalidades são meus solstícios: incomuns, raros, contudo previsíveis, predefinidos com data, hora e duração bem estabelecidas no calendário.

Talvez o andrajoso não tivesse a intenção de levantar minha orelha, talvez ele só esstivesse querendo alguém para puxar assunto. Porém, o andarilho em mim reconheceu o caminho já percorrido tantas e tantas vezes, caminho esse que o destino tende a reformar, revitalizar, dar novas roupagens, mas de nada adianta, é sempre a mesma estrada. E o andarilho, habituado com o trilho e não satisfeito, resolveu descarrilhar, pular do trem, acabar com a mediocridade do estipulado.

Fui por uma rua que nunca tinha visto antes; disse oi a muita gente mal-educada; abandonei essas obrigações sociais estúpidas – faculdade, contas, roupas, emprego –; não fui mais ao dentista, ao ortopedista, ao cardiologista, ao urologista, ao ginecologista, ao avalista, aos relativistas, aos generalistas; não me vieram mais a diarista, a telefonista, o motorista, o socorrista, a entrevista, as revistas, as visitas. O caminho que trilhei ao entrar por essa rua escusa tornara-se finalmente inédito. Não dava mais tempo de me subjugar ao cíclico, não dava mais tempo de concilar a busca com o rebusque socialmente aceito. Aliás, nada dava tempo, por isso dei até meu relógio. Descobri, aprendi, vivi. Não escravo de um sistema de terceiros, mas um serviçal e rei de mim. Virei errante, não, errado. Os velhos Novos Baianos sabiam desse mistério do planeta. Os novos – e eu me incluía nestes – é que não sabem. Todavia, caro leitor, voltei a me perguntar e, pasmem, a dúvida continuou como um eco insolúvel. Portanto, repasso a você, assim como num esbarro: aonde você vai?

E depois?