terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Acho que eu não sei não.

Não vou mais fumar. É difícil. Não vou mais porque eu quero viver mais. Paro de fumar porque quero ter qualidade de vida, uma vida mais saudável. Uma vida sem preocupações com o futuro. Porque nem tão cedo vou morrer, nem vou sofrer, nem vou me arrepender se eu paro de fumar. Vou parar de fumar porque é o melhor pra mim, vou ser mais feliz. Afinal, eu estou sendo feliz agora, depois que eu parei de fumar. Tenho que parar de fumar, para que eu seja alguém melhor. 
Fábio tirou esse pensamento das críticas que ele recebia. Ou foi dele mesmo em suas próprias críticas a si. O fato é que as críticas existiam e elas faziam sentido. Em algum instante Fábio quis então saber o porquê dessa preocupação toda. Ele quis saber qual o motivo das pessoas, inclusive ele mesmo, se unirem numa causa. Fábio queria saber o que une as pessoas. Ele se perguntava se era a necessidade fisiológica ou financeira. Ou se era um desejo ególatra de querer alguém por perto com o descarado pretexto de compartilhar momentos. Fábio se perguntava sobre o porquê de trocar experiências. Para Fábio trocar experiências significava justamente oferecer e receber experiência. Mas Fábio não podia fumar. Nem podia trocar experiências.
Precisamos pagar um preço caro para ter as coisas que possuímos. É. Precisamos.
Fábio teve uma ideia. Era melhor que ele trocasse todos os pontos finais por interrogações e lesse o texto novamente.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Como vai?


– Boa tarde.

– Boa tarde, como vai, Fábio?

– Nem tudo tão bem.

– Conte-me dos seus problemas.

– Então doutor, estou pensando demais.

– Sei...

– ...

– Acabou?

– Sim, acabou.

– Ok. Conte-me como são esses pensamentos? Você pensa em quê? No trabalho? Nos estudos? Na família? Nos relacionamentos? Problemas insolúveis?

– Em todos acima. E some a isso causas políticas e ideológicas também.

– Entendo. E você às vezes sente algum incômodo com isso?

– Sim. Durmo muito pouco, me isolo do mundo, me puno por tudo que acontece ao meu redor...

– E com que frequência isso acontece?

– A todo instante.

– Agora mesmo?

– Sim.

– Você pode descrever?

– Ah, doutor! Pensamentos perniciosos.

– Pensamentos perniciosos agora? De que tipo? Você sente vontade de matar? De transar? Pode falar, eu preciso saber a natureza desses pensamentos pra que a gente trabalhe junto sobre a orig...

– Não. Sinto vontade de citar algumas características desconfortantes das pessoas ao meu redor.

– Características desconfortantes? Mas todos têm defeitos, não acha?

– Acho não! Tenho certeza. E é por isso que eu não queria mais pensar sobre isso... o tempo inteiro.

– O que você vê de características desconfortantes em mim agora?

– Não vem ao caso, doutor.

– Pode dizer, eu sou profissional.

– Ok. Eu pensei no fato de que além da falsa preocupação que a maioria dos doutores têm, você ainda está sendo vaidoso ao querer saber o que eu penso sobre você.

– Não, de jeito nenhum.

– Viu? Você não se esquivou com um “ok, esse pensamento é blábláblá”. Você apenas quis se defender de uma acusação besta minha, um paciente qualquer. Típico vaidoso.

– A vaidade é um sentimento bom, às vezes.

– Hahahahahahaha!

– ...

– ...

– O que você tem é criticismitite maliciosa aguda, beirando à crônica. Muita gente vem aqui, ao meu consultório, com sintomas muito parecidos com o seu. O tratamento existe, mas é muito complicado e por isso vem com um livrete – que no momento acabou. Eu vou pedir para minha secretária postar para você todas as informações, assim que chegar nas minha mãos. Acredito que em um dia ou dois você vai ver esse livrete.

– Ok.

– Acabamos por hoje?

– Sim, sim!

– Tchau, rapaz! Espero ouvir boas notícias suas em breve!

– Ah, eu também! Tchau, doutor Facebook!


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Confundindo as bolas.

— Sabe, Ricardo, estive pensando... está tudo bem em nosso relacionamento? 

— Hã! Claro que sim, amor! Hun... Por que a dúvida?

— Não sei... Esta madrugada acordei, como de costume, com você falando sozinho enquanto dormia. Você falava umas coisas que gostaria que fossem mais esclarecidas, agora que você está acordado.

— Mas, meu bem, você bem sabe que esses meus sonhos não passam de coisas sem sentido, às vezes são coisas que eu vi na rua ou na novela e que simplesmente afloram o meu inconsciente. Nada que esteja sob o meu controle.

— É, eu sei... talvez seja uma mensagem do seu inconsciente para mim. Talvez, seja mesmo um sonho bobo sem sentido... Mas...

— Mas?

— Como era o nome mesmo daquela nova secretária que foi contratada no seu escritório?

— Jeane, Jéssica, Jesebel. Algo com jota, por quê? Falei no nome dela durante o sono?

— Pois é. No seu sonho ontem você não parou de falar no nome dela.

— Ah, amor! Ela foi recém contratada, é um rosto novo que eu tenho que me habituar, só isso. Ela trabalha com o Dr. Pimenta atendendo telefone na sua sala. Quase não tive contato com ela...

— Mas foi você quem mostrou a empresa pra ela, não foi?

— Juntamente com todo o resto do grupo. Eu, Dr. Pimenta, o Eduardo, Dr. Cláudio, o zelador e o Antônio que serve o café. Estávamos todos juntos, como de costume em qualquer contratação no escritório.

— Não sei, Ricardo... parecia que tinha sido uma mostra mais íntima.

— Amor, que tal ir direto ao ponto?

— Pois é! Era isso que eu gostaria que você me dissesse.

— Poxa, Dani! Já falei que não deveria levar a sério essas coisas que eu falo enquanto durmo, são só coisas que não tem nada a ver com os meus pensamentos reais. São como histórias em que eu sou só o narrador, além do mais...

— No seu sonho, você pedia que ela ficasse na sua sala. Que ela esperasse lá sozinha.

— Sério que você está implicando com isso?

— Sim. Mas não acaba aí.

— Pois continue!

— Você a trancava lá.

— E...?

— E aí você virava para o pessoal com quem você trabalha e dizia: “Tudo pronto, rapazes, agora o Ricardinho aqui é todo de vocês. A Jeane está ocupada agora.”