quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Aos trinta.

Dizem que a mulher aos trinta começa a cair. Em todos os sentidos: cair no esquecimento, na desmotivação, no lugar-comum. Apesar do que falam, sinto que estou cada vez mais poderosa, embora, às vezes me veja atraída também pela gravidade: peitos caindo, carnes amolecendo, rugas cosendo... Contudo, sinto-me mais viva, cheia de ânimo para carregar o fardo de outras três décadas.

Tenho um bom emprego e uma ótima casa. Comprei meu próprio carro e ganhei da minha mãe um lindo chiwawa cujo nome é Charles. Pus essa alcunha por conta do príncipe mesmo. Já que príncipes encantados não existem, fabriquei o meu próprio. Antes que pensem que estou desesperada, uma ressalva: minha vida sentimental está agitadíssima e, para falar a verdade, adoraria que nessa nova fase viessem tempos mais amenos.

Há meses que vários homens me têm aparecido, porém, os céus não têm colaborado para minha amancebação. É certo que uns deles não são meus sonhos de consumo, afinal, três cancerianos matam qualquer virginiana de tédio. Mas eis que surgiu aquele geminiano! Marco é seu nome. Vem de família de descendência ítalo-germânica. Estamos tendo um rolo e honestamente sou levada a crer que tornei à minha emocionante adolescência de calafrios e projeções.

Conheci o Marco numa festa da minha antiga turma da faculdade. Fomos uma turma sempre muito conectada. Acho até que todos ali são regidos por Marte, uma vez que um sempre completa o outro em harmonia. Tanto foi que daquela classe formaram-se quatro casais. Restando, portanto, só eu, Gabriele, Gustavo e Deco sem namorados — o que inclusive conta-se que os três são homossexuais e talvez até tenham parceiros, mas que não é do conhecimento de ninguém, enfim.

Marco veio como convidado de Paola, minha pseudo-rival nos tempos de faculdade. Ela e Geovanna. Era engraçado ver como maquinavam na hora do intervalo ou até mesmo durante a aula com aqueles bilhetinhos recheados de letrinhas miúdas e muitas vezes escritos em códigos que certamente referiam várias palavras a mim. Como é de se supor, os atuais namorados das duas passaram inicialmente no meu diário e, mesmo tendo-os conhecido primeiro e gasto horas e horas adquirindo intimidade e falando sobre as vertentes que a universidade atraía à medida em que nos aproximávamos do fim do curso, elas foram lá e fisgaram-nos. Todavia, tudo está bem: todos viram como elas agem e quem elas são. Fico feliz que tenha tudo dado certo, mesmo sabendo que poderia ser eu agora no lugar de uma delas. Porém, quem soltou este disparate de que não estarei também com um homem para chamar de meu?

Marco tem dois anos a menos que eu, ainda assim seu rebusque europeu dá-lhe postura tal de um impecável conquistador medieval. Como disse, ele tem todas as características que uma mulher decidida como eu admira: um bom emprego, excelente gosto por filmes e músicas, ótimo perfume. Um geminiano desenhado nos meus conformes.

Há dois dias que marcamos de sair todos novamente para um happy hour num maravilhoso botequim perto de onde ele trabalha. Mas por capricho do destino, o estabelecimento estava em reforma há duas semanas. E como um nobre gentleman, ele então convidou aos amigos do happy hour para nos reunirmos então no local mais próximo dali — que por acaso eu sabia que era sua casa. Aceitamos de súbito a proposta.

Quando chegamos ao seu luxuoso condomínio, logo notei uma característica excepcional de sua personalidade: Residencial Petúnias estampava a fachada do prédio. Petúnias são obviamente flores que remetem à brandura e à firmeza de um lar, de uma família. Mal pude segurar um suspiro, no entanto, quando entramos em seu apartamento. Móveis clássicos mesclados com pitadas de modernidade, como o seu telefone retrô com padronagem de triângulos alaranjados ou uma enorme cristaleira de cedro repleta de estátuas em miniatura de desenhos antigos — a Pantera cor de rosa, Batman e Robin etc —, fizeram-me logo atinar que Deus finalmente acertara o chute pondo aquele divertido, moderno e viril cavalheiro no meu caminho.

Assim que nos acomodamos sotopostos ao redor daquele pomposo lustre de elefante, Marco logo ofereceu uns quitutes para acompanhar um vinho do Porto. Todos supuseram que ele fosse trazer para petiscar no máximo umas azeitonas ou uma tábua de frios, mas passados vinte minutos, Marco volta com uma barca completamente cheia de sushis e sashimis. Ele segredou a todos que enquanto fazia um estágio em Los Angeles, passava a grande parte do tempo livre num curso de comida japonesa muito conhecido por lá. Não preciso nem contar que meus olhos marejaram instantaneamente, tanto que pedi discretamente para ir ao banheiro retocar a maquiagem, para dar um up na minha cara cansada.

De volta à sala, ainda se ouve os burburinhos e risadelas. Pergunto o que houve e onde está Marco. Eles apenas me respondem que o mesmo ao voltar para buscar o molho de soja que acompanhava o prato oriental, derramou sobre si uma taça de vinho junto com a garrafa contendo o molho preto, tornando-o então um desconsertado e fétido peixe foda d’água. Ele pediu desculpas e correu ao banheiro para tomar banho e trocar de roupa. Honestamente não sei o que dá na cabeça dessa gente de achar isso um motivo de riso tão farto, contudo me recusei a perguntar se fora somente isso o motivo de tanta gargalhada. Com mais cinco minutos, todos já falavam sobre como foi engraçada a vez em que, na festa de formatura Deco deixou cair a taça de champanhe sobre o insuportável professor Assis.

O tempo passou e Marco grita do banheiro dizendo que esquecera de levar uma toalha e se alguém poderia levá-la ao banheiro para que ele pudesse se enxugar. Já que nem Paola sabia onde ficavam as coisas do príncipe, me propus a pegar-lhe a toalha na primeira gaveta da primeira porta do guarda-roupa. E foi aí que percebi que não era somente Deus que estava intercedendo por mim: eram todos. Todos estavam em complô para que eu e Marco tivéssemos um rolo.

Entrei na brincadeira. Fui até o seu quarto e fiquei maravilhada com sua pequena biblioteca com vários livros renomados e também pela vasta coleção de biografias de grandes personalidades como Chaplin, Gandhi, Madonna etc. Outra coisa que não pude deixar de notar foi uma linda estatueta estilo grega de um homem sobre sua mesinha de trabalho ao lado do computador. Entretanto, o que mais me alegrou foi ver suas fotos num mural na parede: não havia nenhuma ex-namorada! Pelo menos não em evidência. A maioria das fotos era de Marco com os amigos segurando uma cerveja em algum lugar lindo: Caribe, Morro De São Paulo, Buenos Aires, França. As únicas mulheres que apareciam nas fotos eram supostamente sua mãe, sua avó e não raro umas amigas. Amigas tais que não se repetiam nos retratos.

Apesar das minhas digressões, segui o que ele pediu e encontrei uma toalha no local indicado. Todas as suas toalhas eram brancas, como devem ser, para que alvoreçam ainda mais as energias após o banho. Essa curiosidade despertou outras tantas e, da mesma maneira em que perscrutei seu quarto, também iria agora rápida e ingenuamente verificar seu guarda-roupa.

Na primeira porta estavam todos os seus lençóis, colchas, toalhas e fronhas. Na segunda porta listavam seus ternos de grife ao lado de suas respectivas calças, assim como várias camisas sociais ordenadas por tonalidade simbolizando claramente organização e consequentemente determinação. Apesar desses detalhes, um em seu armário me chamava mais atenção: suas cuecas. Como eram muitas! Havia duas gavetas só destinadas a elas. Cuecas vermelhas: paixão, calor. Cuecas pretas: sedução, mistério. Cuecas brancas: carinho, respeito. A única coisa que não entendi foi o amarelo daquele pênis de plástico.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Firework.

— Oh, Senhor, por que queres que eu faça isso?

— Não adianta me questionar. Dos meus desígnios sei eu!

— Matar o próprio filho? Por que não mata O Senhor, já que faz parte dos seus desígnios!?

— Eu não posso. E é aí que você entra.

— Não te compreendo. Tu, Senhor, és onipotente. Por que não matas O Senhor mesmo teu filho, meu irmão?

— Há coisas, meu filho, que não é próprio a tua natureza entender. Portanto, quero te propor um trato. Quero que te juntes a mim para abrirmos outro compartimento no inferno. Trata-se de um pedaço que alugo a Lúcifer. Como não há nada além da minha propriedade, ele tem uma dívida eterna comigo. E é isso que quero te propor se me ajudares no meu propósito.

— Que é matar teu próprio filho, meu irmão!

— Ninguém jamais saberá que és irmão dEle, eu não permitirei.

— ...

— E então o que me dizes? Estou sendo camarada contigo: dando-te a chance de também ser conhecido, lembrado, enfim.

— Não vejo bem assim, Senhor! Na verdade me sinto injustiçado: ou serei eternamente conhecido como traidor ou então serei ninguém.

— A ti te concedo a eternidade. Eu te perdoarei, será esse nosso segredo.

— Honestamente ao que parece queres menosprezar-me, meu Deus! Queres encurralar-me! Que escolha tenho se me impingiste também de ego? Nenhuma! Nenhuma!

— Ainda bem que acataste meu pedido.

— Deus, sinto agora uma coisa muito ruim por ti.

— A isso chamo cólera, ira, raiva. Quando te suicidares, pergunte ao diabo o que é. Ele está mais apto a falar do que eu sobre esse assunto.

— A propósito, por que devo matar meu irmão?

— Preciso testar um jogo de luz novo.