sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Oun.

— Alô, amor?

— Oi.

— Tá fazendo o quê?

— Estudando.

— Tá chatinha, heim?

— ...

— ...

— Ei, a gente está namorando?

— Por que a pergunta?

— Porque eu não me vejo namorando ninguém. Porque eu sinto que você me usa como um analgésico, que só quando a dor da solidão bate, você me procura.

— Hã!? Por que isso de novo agora?

— Agora? É bom enquanto é cedo! Não sei se quero isso, sabe? Está uma inconstância que só tende a piorar. Você não me dá a mínima e estou sofrendo com isso. Se lhe alimenta o ego: estou sofrendo por você! E acho que namorar não é sofrimento. Não passa nem perto disso.

— Não entendo o porquê disso. Eu não estou fazendo nada!

— Exatamente, Júnior: você não faz nada!

— Mas o que eu estou fazendo agora? Eu te ligo, não ligo?

— ...

— ...

— Tem uns fantasmas seus que me azucrinam, sabe?

— Tipo o quê?

— Sua ex, seus segredinhos com seus amiguinhos, sua falta de tempo. Tem muitas coisas que não eram pra ser assim. Porra, eu gosto muito de você, mas...

— Eu também!

— ... eu tenho que gostar também de mim, entende?

— Sabe qual é o meu problema!? Eu não faço nada! Se eu fizesse, você nem notaria.

— Não estou dizendo que o problema é seu. O problema é meu por ter feito uma escolha incoerente. Antes de assumirmos esse namoro, deveríamos ter nos conhecido melhor. Eu quero coisas que não é do seu feitio me oferecer, como carinho, palavras, gestos... não só sexo!

— Não quero ficar sem você!

— O que você propõe? Eu quero sua opinião! Não quero namorar um pênis mudo. Não gosto de ficar cobrando atitudes. Acho desnecessário. Acho um erro insistir numa coisa assim... Mas se eu for olhar pelo lado otimista da coisa: você pode estar querendo em mim uma tutora. Alguém que lhe encaminhe pro lado certo. Mas isso, meu caro, quem deveria dizer era você.

— Sei...

— Sabe o quê!?

— Não quero ficar sem você, minha tutora!

— Oun. (L)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Mosca


Faço e desfaço fácil.
Minto e me meto muito.
Leio e leciono louco.
Peço e pareço porco.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Dá um tempo! (parte 6)

Parte 5 | Parte 4 | Parte 3 | Parte 2 | Parte 1

— Moça, o cardápio, por favor.

José e Marcelo entraram em acordo que — agora milionários — só iriam usufruir do bom e do melhor, tanto que dessa vez chegaram até a pedir o menu. Inicialmente, eles pensavam em absinto, contudo, como no PUB a que eles foram não servia ao tom dos seus requintes, resolveram experimentar uísque. O critério de escolha etílica se baseava no preço e assim pediram doses (sem gelo) de um uísque cujo nome e cifra eram os mais destoantes do lugar.

Seus olhos arderam, tais quais suas bocas e esôfagos. Eles não sabiam sequer que uísques não eram adocicados, mas, mesmo assim, sorveram aquele volumoso gole hídrico de quem acordou após uma noite inteira de uísque à bebericadas.

Sob aquela cara de semi-cãibra acompanhado de um sussurro diabólico como voz, Marcelo comentou com o outro:

— Uma delícia!

— É. Uma delícia...

— Mas?

— Estive pensando: há um dia atrás não teríamos modos de pagar a conta.

— Sem contar que teríamos que voltar antes da meia-noite, senão os ônibus acabariam — acrescentou o amigo.

— Mas a gente não ganhou nada ainda! Ai, meu Deus! — pigarreou — Vou pedir a conta.

Quando a garçonete trouxe-lhes a conta, o inimaginável tornou-se exorbitante: R$185,00 de quatro doses de uísque, dois tempurás de salmão defumado e duas Coca-Colas, além dos couverts.

Uma vergonha mútua se instalou entre o par de amigos. De um lado, José se sentia desesperadamente deprimido pela situação humilhante a qual pensava que se submeteria. Do outro, Marcelo, que não trouxe ao PUB nada além do que seu cartão do ônibus.

— Você não está com sua carteira, Marcelo!? — irritou-se José.

— Lógico que não, pensei que... — tergiversou.

— Ricos, por acaso, pagam com o quê? Com cuspe?

Aquele estresse e agonia resultante da volta às migalhas monetárias, agora se juntou à pressa para não perderem o horário do ônibus e à embriaguez tardia e intermitente que só o uísque tem e só a cama cura.

José brilhantemente teve a ideia:

— Já sei: vou passar no meu cartão de crédito. Amanhã estarei rico de qualquer forma! — proferiu voltando ao riso.

— E você tem cartão de crédito? — perguntou o incrédulo amigo.

— Tenho. Mas nunca usei, pois meu pai disse que os juros e vícios são imensos.

— Qual é o limite? — arrebatou.

— Não sei! Será que é menor que R$185?

— Provavelmente...

Enquanto isso, como quem já pressentisse a péssima conseqüência do calote, a garçonete se aproximou da mesa dos novos milionários miseráveis e ficou esperando uma resposta da dupla estranhamente pálida.

— Crédito, por favor — remitiu José.

A moça ao receber o cartão logo lhes abriu um sincero sorriso, que foi entendido por eles como bom presságio: o cartão será aceito! Sorriso esse motivado, por sua vez, graças ao não estranhamento de pagar couvert sem, no entanto, houverem pelo menos visto uma banda, cantor ou macaquinho malabarista.

Em instantes, porém, a atendente retornou com uma cara desanimadora a qual imediatamente fora traduzida por opróbrio iminente. Desesperadamente controlados sentiram que passariam por situação de tom semelhante àquele flagra vexatório de quando suas mães descobriram suas habituais conversas ao telefone de madrugada com as amigas delas.

Não tendo escapatória, um tremor frenético partindo das pernas e pés de José começou a vibrar e tilintar os talheres sobre a mesa. Marcelo ora também estava tenso, mas conseguia fingir-se mais sereno durante a longa espera da mulher que os servia.

A moça com rosto nublado finalmente regressara. Vê-la caminhar com a comanda era mais aterrorizante do que apenas falar com ela — a perversa imaginação se nutre quanto maior for o silêncio. Entretanto, ao se confundir e se referir ao dissimulado e taciturno Marcelo, este pelo susto, passou a tremer e gaguejar tanto que José se prontificou:

— Pronto? — disse já prevendo o mau auspício.

— É preciso que você vá até o caixa digitar a senha do cartão.

José nunca fora bom em senhas. Só decorou a senha do banco até o dia em que adotaram o sistema de sílabas (ou seja, no mesmo dia) e, para a sua comodidade (e sorte), as suas eram “Com” “I” “Da”; muitas vezes confundida com “Va” “Ta” “Pa”. Todavia, era necessário que ele pusesse não as sílabas, mas sim os números do seu cartão. Como um mistério sem muitas explicações, José digitou ao acaso naquela maquineta os seis dígitos correspondentes a data do seu aniversário e, aquele caça-níqueis da Visa deu-lhe a sorte grande: “Transação aceita, retire o cartão.” Ricos novamente.

(continua...)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Dá um tempo! (parte 5)

Parte 4 | Parte 3 | Parte 2 | Parte 1

Um castelo em Miami? Uma viagem pelo mundo? Um Dodge? Investir na bolsa? Calvin Klein? Ou Dolce Gabbana? Sempre se passa pela cabeça comprarmos coisas se, de uma hora para outra, ficássemos milionários. Nas espaçosas mentes de José e Marcelo também ecoavam esses pensamentos. O que talvez não passe na mente de muita gente é o que fazer no exato momento em que sua conta sai do cheque especial e ultrapassa em 30.000.000 % o valor que você ganha por mês.

Os nossos sortudos protagonistas já ciscaram, cacarejaram e até puseram ovos ao telefone, mas e agora? O que fazer? Às 21h16 as lotéricas não lhes avultariam os bolsos. Contudo era preciso comemorar! Trancafiar com cofres de diamantes o tremendo fardo que suas vidas pobres eram.

Seu time ganhou? Acabou o namoro? Ou está desejando aquela deusa? Raiva ou desespero? Não importam os motivos da guerra, beber ainda é mais importante, dizia um velho e embriagado cabeludo. Para aquela dupla, no entanto, a coisa funcionava diferente: primeiro bebe-se e só depois que se bebe de novo. Se lhe conforta o ensejo: bebiam para motivar o mijo.

Foi José quem sugeriu a ideia:

— Vamos ao bar da Kátia? — e pensou maior — Ou melhor: vamos ao Geco PUB?

Astrólogos, psicólogos e até donas de casa ainda não sabem de onde surgiu essa trivial ideia inédita, assim como desconhecem o porquê de José ter perguntado e não exclamado aquelas poéticas frases. Fato é que aos olhares desdenhosos de quem daria adeus aos ônibus, ambos foram para o recanto das notas vermelhas em tempo recorde.

Quando se encontraram, estranharam a si mesmos. Não porque suas fisionomias de quatro horas atrás houvessem se transfigurado, mas porque um nunca sentira aquele perfume tão forte do outro. Comentaram sobre o intenso odor recendido e riram por terem gastado mililitros e mais mililitros daquele que se tornaria o mais chinfrim Leite De Rosas que usariam dali em diante.

Gargalharam. Gargalharam de riqueza. A recém riqueza é a mais eficaz das comédias. E, para não perder o hábito, tornaram às suas importantes divagações:

— Zé, vê se corta esse cabelo. Chitãozinho e Xororó é tão last decade! — e anedotizou — Conheço uma cabeleireira que cobra R$5,00 pelo corte masculino. Se você não tiver a grana, lhe empresto.

O outro revidou:

— E você, vê se compra outro tênis! Esse em que você tanto pisa, daqui a pouco debuta!

Gargalharam. Gargalharam dessa vez um sorriso narcisista, afinal last decade e debutar definitivamente não eram termos que pobres empregariam.

(continua...)

domingo, 10 de outubro de 2010

Dá um tempo! (parte 4)

Parte 3 | Parte 2 | Parte 1

Como um ioiô, seu desânimo se projetou nesse instante nas mansões e alegrias que aquele gelado pedaço de papel lhe proporcionaria. José contou para a mãe de Marcelo ao telefone que havia encontrado o agora então bendito bilhete da mega-sena.

Magicamente tudo tomara novos ares: José, extasiado; Marcelo — que até o momento só repetia xingamentos — entorpecido; e sua família reacendera o frustrado pavio dos foguetões.

Só havia, entretanto, uma pessoa que permanecia inabalável com os possíveis zeros somados aos três da sua caderneta de poupanças. Alto lá, você que pensou que fosse aquele tio canastrão e aproveitador que logo logo levaria um pé na bunda! A pessoa era a mãe de Marcelo que, ao ver aquele velório metamorfosear-se em epifania, não ligou se um talibã morrera e disparou:

— Vocês já conferiram os números?

Outra vez o cenário mudava. A casa de Marcelo parecia o Globo Repórter em dia de retrospectiva. Não só pela miscelânea de notícias marcantes, mas pelo ritmo que tomam aqueles programas: fala-se de uma tragédia e noutro instante, uma conquista; morte de Michael Jackson e vitória do vôlei; gripe suína e cura do câncer; ficar pobre e ficar rico.

O baque de saber que iriam voltar a viver como há dez minutos atrás se tornara pior a cada gota de entusiasmo evaporada. Em tal caso o silêncio se refez. A apreensão tomou conta do lugar. Até uma mosca, que zumbia na janela de vidro tentando inutilmente transpassá-lo e sair, cessou o farfalhar das asas para ouvir o veredito. Todos ficaram tão inertes que nem mover os lábios e contrair o diafragma conseguiram. O máximo esforço que fizeram foi arregalar os olhos e virar o pescoço na direção do possível novo milionário. E ali começou o ditado coincidente dos números. Era enfim a sequência correta! Eram exatamente aqueles seis números!

A profecia da retrospectiva se cumpriu no lar. É chegada a hora da felicidade! Voltaram aos gritos, aos foguetões, aos planos, à riqueza! José, Marcelo e sua família começaram a voar rumo ao sol, tal qual aquela mosca estancada no vidro da janela.

(continua...)