sábado, 23 de fevereiro de 2013

Partida.

No princípio, mesmo antes de tudo tomar corpo, já se dizia que aquilo não iria dar certo, que era impossível, inviável... contudo, como era de se esperar, a obstinação disse que iria fazer mesmo assim e iria provar por a + b que ela estava certa. Os incrédulos por sua vez tiveram de aceitar resignados a tentativa, afinal nada podiam com a sua vontade. E foi assim, enquanto a concordância ainda pensava no que responder, em meio à discordância e obstinação que nasceu o projeto d'A Terra da Concordância. Um projeto ousado que, admitamos, era bonito, tinha bons princípios e tudo mais que era preciso para alcançar o sucesso.

Conforme o esperado, tudo começou muito bem. Ao norte já se ouvia o burburinho de que algo novo estava por vir. "Veja! Veja! Eu moro n'A Terra da Concordância! É ótimo morar aqui! Você deveria experimentar também!" Não demorou muito então até que a fumaça das terras boreais tomasse tamanha proporção a ponto de que o sul todo notasse que algo quente vinha daquelas bandas. Foi nesse cenário que um antigo comerciante, que vivia sempre de lá pra cá fazendo sua vida, aportou o novo conceito consigo. 

E boom!

Rapidamente a novidade se alastrou. A Terra da Concordância granjeava mais e mais territórios pelo norte,  sul, leste e oeste! Não havia um lugar onde não se ouvisse falar dela. Ela abarcava consigo a alegria, os sorrisos e joias  mais brilhantes. A Terra da Concordância começava portanto a enraizar seus conceitos de que compartilhar era bom, era o importante. Todos estavam contentes, dançando, cantando, concretizando assim as bases da nova terra.

Entretanto, eis que sem motivo aparente uma onda de calor vinda de não se sabe onde invade o multicontinente d'A Terra da Concordância. Muitos continuaram a amar o calor, a ir à praia, à piscina, ao rio, à lagoa ou mesmo ao parque para se refrescar e diziam que isso era bom. Porém enquanto alguns se divertiam com o a alta temperatura, outros passaram a destestá-la. De um lado essas ondas de calor geravam vários momentos bons, do outro, problemas e situações desagradáveis começaram a incomodar. Logo, aqueles que não tinham praia, piscina, rio, lagoa ou parque por perto e que, ao invés de tirar algum proveito do calor, não podiam nada além do que lhe suportar, resolveram ir para lugares onde as circunstâncias soavam melhores. E foi aí que tudo começou a ruir.

As pessoas que usufruíam daquele calor não queriam que os outros tomassem seus espaços, enquanto aqueles sedentos por uma gota d'água não tiveram outra opção a não ser reclamar, iniciando portanto oficialmente à ruptura da muralha que maquiava toda aquela falsa comunhão. As pessoas esqueceram que A Terra da Concordância não era algo físico, próprio e restrito. Aliás: isso nem passava mais em suas cabeças!

O que se deu foi que com o tempo, A Terra da Concordância tinha formado indivíduos que esperavam que todos curtissem o que eles dissessem. E assim, ela deu voz à arrogância figurada em opinião própria. Ela fez seus habitantes crerem que se há algo ou alguém com que eles concordassem, esse deveria ser ouvido, ovacionado e divulgado, enquanto que se há algo ou alguém com o qual eles discordassem fosse motivo para se munir empáfia, rudeza e desrepeito. Ela criou milhões de indivíduos que se sentiam plenos quando opinavam, que queriam ensinar tudo a todos, mas se esqueciam de que compartilhar é também escutar, aprender e principalmente absorver sem segundas intenções de refutação para mostrar superioridade.

A obstinação mostrou ao que veio. Provou por a + b que iria tornar A Terra da Concordância um sucesso incomparável. Quanto à pobre da concordância coitada, sem culpa de nada, vendo seu nome se propagar a torto e a direito se entristeceu com o que viu e resolveu partir para algum lugar onde ter opinião contrária não fosse motivo de iniquidade, onde não houvesse todo esse egocentrismo multiplural impelido, travestido e apregoado como obrigatório. Ela, a humilde concordância, sem ter a quem perguntar findou por questionar a si mesma se ela via propósito em se inserir nisso e simplesmente descobriu que essa luta feroz de imposições comportamentais em acordo com as normas de uma terra que nada dizia respeito a si, era algo que ela nunca quis.

E dessa maneira, sem falsa modéstia e sem hipocrisia, a concordância fez o que fazia de melhor e usou as palavras de outrem como suas sem medo do que vão pensar e descobriu que ela poderia até não saber o que lhe fazia bem, mas com certeza sabia o que não lhe fazia. E assim, arrumou suas malas, saiu à francesa e partiu rumo a um outro lugar que não sabia onde era, mas que certamente era bem longe dA Terra da Concordância, que diziam ser sua.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Fotos

Assim que eu cheguei aqui, uma onda terrível de solidão pincelada à sofreguidão se apossou de mim. Eu não tinha na cabeça outra ideia a não ser desistir de tudo que acabava de começar e voltar ao meu amparo, ao meu ninho, à minha terra tão amada e, acima de tudo, àqueles que tanto amo e que tanto me amam. Desde quando pisei nesse solo duro só o que passava pela minha cabeça era uma mistura amarga entre o sentimento de não-pertencimento e o de impotência, tão adstringente, que até hoje essa lembrança do gosto é ainda tão forte, que acho por vezes que ela vive concomitante a isso que chamam de adaptação.

Por isso, num instante crítico, pensando em adocicar um pouco as águas desse mar de amarguras, resolvi evocar minhas origens e, para tanto, mandei revelar fotos de meus bens mais preciosos: meus amores. Lembro de cada lágrima escorrida na seleção das fotos, como se escolher as fotos fizesse parte de um ritual de ressuscitação e reviver aquilo, caramba, era o que mais me daria vontade de fazer na vida!

Elegidas as fotos, impressas e coladas na parede ao lado da minha cama, conforme o esperado, me senti, pela primeira vez, mais confortável aqui. Mesmo que elas não pudessem me abraçar, ou me refrescar, ou me dizer palavras que aprazassem, vê-las ali era como se em parte eles estivessem ali. Não sei o quanto de física quântica garantem a presença deles ali, mas com certeza sentia boas energias dessa nova “decoração”. 

Porém, o tempo – esse monstro – me fez conhecer gente nova, me fez visitar lugares novos, me fez experimentar coisas e sensações que eu nunca havia experimentado antes e isso me foi realmente agradando “petit à petit”. Eu começava finalmente a me integrar a essa nova vida. Saía para os lugares, me divertia e, ocasionalmente, tirava novas fotos...