quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

É tudo e nada.

Ser radical? Será que isso é tudo (ou nada)? Ou o que voga é o meio-termo de uma vida mais ou menos? O que importa é viver ou ser vívido? Aliás, devemos viver pela razão ou ser fruto da emoção? Quer dizer, devemos? Devemos nos preocupar com a fronteira entre o pensar e o sentir? Eis o embate entre emoção e razão de que sempre me esquivo.

Não quero me fechar, me enclausurar num comedimento traumático, nem me entrevar em cima de uma cadeira de mágoas. Afinal, não é porque vejo uma história se repetindo que ela vá ter o mesmo desfecho. Contudo, o problema é que ela se repete. Mal cogitamos um novo final e o previsível já está lá, prostrado, como um banquete sensacional, ao qual nossa dor da fome não pode recusar.

É, leitor. É fácil falar. Assim como também é fácil ler, estudar, trabalhar... O difícil mesmo é sentir. E, sobretudo, esquecer de sentir. O sentimento independe da sabedoria. É como domesticar um ser selvagem. Onde já se viu: urbanizar o gato-do-mato!? O gato-do-mato urbano é um gato doméstico, sem o brio e a identidade inata daqueles da selva, vivendo num terreno incabível, desfavorável, forçado. E o pior: ele é falso. Falso porque maquia, mente, finge, mas tá lá, comprimido, dentro, sofrido, louco pra existir de verdade, sem cores ditadas ou truques circenses. Fazendo-me concluir que não dá pra domesticar sentimentos.

Ou dá?

Ser paciente, íntegro e compreensivo frente a suas próprias limitações; fazer boas escolhas; planejar uma vida estável; galgar rumo ao ideal.

Olhando por esse lado, me bate certa angústia. Como eu queria uma vida com esses atributos! Como eu queria chegar lá! Viver tal qual no Éden antes da serpente. Sob disciplina e determinação, com a fé de que o presente será sempre bom, porque não há vestígios sequer do conhecimento do mal. Contudo, eu sei que pra isso se faz necessário saber passar pelos percalços do caminho, sem cair em tentação ou ser atraído pelo magnético sentir. E sei que isso nada mais é do que ter o gato-do-mato doméstico a ronronar em cima do tapete da sala. Daí a angústia. Dessa incompatibilidade do desejo íntimo entre ser como eu quero e fazer como eu gostaria.

Então, eu paro. Espreito o que me passa ao redor e finalmente aceito que sou falho. Aceito que eu vou acertar e vou errar. E se aquilo em que eu acertar, der errado, faz parte. E se aquilo em que eu errar, der certo, também faz parte. Whatever works. Embate resolvido: sei que tudo tem um propósito, mas não me cabe saber que propósito é esse.

Ou cabe?

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Prazeres e Dolores.

Acho que escritor deve ser a profissão mais difícil de que tenho conhecimento. E não me venham dizer que almejo com isso, olhos de piedade, afinal, não tenho anseio de ser dessa raça. Além do mais, há o fato de que o escritor tem que escrever e tudo o que mais procuro é justamente a leveza do não ter que, a liberdade. Quer coisa pior do que escrever sob pressão? Pois. E o escritor o faz! Alguns até, vertiginosamente. Vale frisar, entretanto, que escritores não seguem cartilhas. Não conheço manuais de "como escrever um livro" ou "como ser escritor". Tadinhos! Escrever, sob suas próprias leis, mandamentos expelidos de uma estética letrada, de uma coerência lógica ou, o pior de todos, de seu próprio inconsciente nebuloso deve ser massacrante. É como pescar o inédito do passado: incoerente, inútil, mas possível. Escritores: flagelos de si mesmos.

Por falar em flagelo, me passa pela cabeça agora a imagem de uns asiáticos fanáticos que se automutilam em devoção a seus deuses. Não sei sobre o assunto, assim como não sei escrever ortoepicamente, nem sei como se explica o incompreensível; porém, em alto relevo me arrisco a dizer que diviso aquilo que conecta os escritores aos fanáticos. Ora, qual a conexão, por que fazem isso? Porque, leitores, não há nada mais valioso para o prazer do que a dor.


Que o prazer se alimenta da cessação da dor, acho que todos vocês já sabem. O prazer do alívio, do não dói mais, do enfim acabou. O que talvez seja novo por aqui, para alguns mais desatentos, é que a dor também se alimenta do prazer.


Explico. Sabe quando temos um dia regado às gargalhadas e dizemos vou ter uma raiva grande amanhã? Geralmente, o dia transcorre feliz, a noite passa serena e raia um novo sol e lá está ela, a raiva justiceira, esperando você abrir os olhos cheia de pimenta pra borrifar. É fatal: um dia você está feliz, noutro não. Não dá pra fugir, pra ser a exceção da regra. Daí a dor dos escritores, a dor dos asiáticos fanáticos, a dor dos masoquistas sexuais, a dor de uma paixão eterna, a dor de um abraço que não voltou mais, a dor da lembrança gostosa. Tornando-nos escravos e senhores de nós mesmos, num ciclo onde para estarmos felizes precisamos vencer a tristeza, que sempre voltará para atormentar a então felicidade, que em algum momento será afetada pela inescapável tristeza, que veio para desfazer uma outra felicidade, vinda de outra tristeza cessada, que nasceu de uma alguma alegria desfeita... 


Sim, mas e agora?


Agora somos Prazeres e Dolores, a nova novela mexicana da vida real. Escrita por você, com direito a capítulos extraordinários, uns incabíveis e alguns outros ainda intragáveis. Num enredo sem graça, mas que nos faz rir por muitas vezes. Com os exageros dos maus atores e as peçonhentas vilãs. Tudo isso girando acerca das duas irmãs, Prazeres e Dolores, que ao longo dos episódios vão dando os tons mais estapafúrdios à história, tornando essa novela da vida real um misto do que ela realmente é: prazer e dor. Onde, apesar de divergirem em opiniões, ambições e atitudes, ambas desde sempre caminham invariavelmente para alcançar lo mismo fin.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O impasse.


Se Deus existisse,
Se o amor matasse,
Se a flor não murchasse,
Não haveria sequer
Motivo de impasse.

Se o caminho se esguia,
Se a vida excrucia,
Se fosse outro dia,
Não saberia dizer
O que é alegria.

Porque infelizmente é dor
O avesso do riso,
E a estrada do horror
É a que leva ao paraíso.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Entre o erro e o certo.


— A questão é que chega uma hora que você tem de optar entre o fácil e o certo.

— Calma lá! Então, segundo o que você está me dizendo, o certo é o difícil?

— Não necessariamente.

— Explique-se.

— Geralmente o que é mais difícil é também mais recompensador, portanto é o certo a fazer.

— Ora! Você acha certo darmos uma volta ao mundo para chegar ao seu vizinho, por saber simplesmente que retroceder uns passos é o mais fácil a se fazer?

— Não, mas pensando bem, é recompensador: eu conheceria o mundo!

— E se houvesse urgência? Se fosse necessária sua presença imediata no seu vizinho?

— Eu correria pela via mais curta.

— Ou seja, a via mais fácil...

— É...

— Pois é...

— ...

— ...

— Desculpa.

— O perdão é a maneira certa, pois não é fácil.

— Sinto muito, mas não posso compactuar com isso. Sendo assim, fumar é o certo para a vida?

— Parar de fumar é o certo para o fumante.

— Um mau professor é o certo para ensinar?

— Um bom estudante é o certo para aprender. Veja bem, falo de escolhas íntimas, próprias, pontuais, que se referem a mim, à pessoa em mim e à minha consciência. Não digo do geral, porque o geral, no caso, nutre-se da conveniência de vivermos num mundo ideal. O geral precisa do consenso, e querer o difícil para todos é inegavelmente burrice.

— Mas é falho. Tendemos sempre ao erro, mesmo que galguemos pelo difícil ou pelo certo tão aclamado. O que quero dizer é que mesmo que você tome todas as precauções, analise todas as conjecturas, calcule todos os dados, tape todas as brechas, previna todas as doenças, atente para todos os sinais, não há como excluir a inoxidável parcela do erro. É impossível não errar frente o imprevisível. Ou seja, tanto a minha teoria, quanto a sua estão suscetíveis a falha.

— Ah, mas pelo menos tentei.

— Viu? Tentar é fácil, o difícil é estar certo.

— Eita, morgou. Cê tem isqueiro aí?

— Não acha melhor um fósforo?

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Umas meias verdades.

Sinto informar, porém é verdade: no final o que você menos queria transparecer, se apresenta como uma lei que lhe obriga a ser quem você mais odeia, o outro. Pior! Se você parar pra pensar, percebe que isso tudo é estratégia do seu próprio ego. A egolatria é tão intrínseca a você que ela sabe que é melhor ser vista como má e inaceitável. Ora, egos não querem concorrentes!

Contudo, não esqueça: o ego se esquiva! Ele se aproveita da confusão que o melindre causa com aquela cara antagônica do ‘não fui eu’. E é aí que ele peca. Não pela contradição de agir de uma forma e ser de outra, mas porque o ego não agüenta tanto culto a si. O ego tem essa mania feia de ser complementado! Digo, visto que chega uma hora que você percebe que cansa ser só. É inevitável.

O ego não se contenta com o flagelo a si e se alimenta da submissão do próximo, parasitando no ser-ou-não-ser, no estar-ou-não-estar. Por isso, cogito, agora, retirá-lo de mim. Dar adeus aos caprichos e opróbrios da alma! Adeus, contradições! Nunca mais volte, veneno da existência!..

Então reflito: pros diabos meu amor-próprio!? Quem há de me amar eternamente senão eu mesmo!? Danem-se os meus méritos, as minhas singularidades!? E constato que o ego ironicamente também me move, me sustenta, me mantém vivo. O ego também ama.

Logo, por fim, a única coisa que descubro é que entre o útil e o inútil dessas dúvidas emergidas sobre quem eu sou, nada posso afirmar sobre as razões do ego, afinal, o ego é um cego que quer ver e ser visto.

domingo, 20 de novembro de 2011

E a dor.

E a dor passa
passa, passa,
passa, dor, passa
passa dor,
passa!



por favor


é a dor



passa...





passa...





passa, dor, passa!
passa dor.






passado.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A carta contida.


A gente se daria bem melhor agora. Agora que sei dos seus erros, das minhas perguntas nas suas respostas vagas e dos nossos acertos. Agora que você também sabe o mesmo de mim.

Naturalmente a gente se daria bem agora. Acho que seguimos linhas de pensamentos paralelas, que só se cruzam no infinito. E só hoje percebi que não dá para chegar lá, no infinito, antes ou depois. E que só hoje você também percebeu que não dá para controlar o destino. Não dá para viver sem emocionar(-se). A sabedoria não esculpe um rompante.

Pensando bem, a gente se daria mais agora. Porque, no fundo, a história de hoje vai muito além do que a lógica de ontem foi capaz de prever. Portanto, não sei se foi bom pra nós, mas que nos foi útil, tenho certeza. Gosto muito de você. Muito mesmo!

Com impulso,
Sua amiga Lógica.

domingo, 13 de novembro de 2011

Imagine a pergunta.

− Não. Não sei como lhe explicar isso. É como se eu entrasse em colapso com um simples fato de um cisco ter caído no seu olho e, outrora, ignorasse a bomba nuclear que estoura a dois quarteirões. É como se você fosse a lógica disso tudo, que foge, se esguia como serpente em solo pantanoso e nunca dá as caras; só envenena. É como essa perda de razão, de coerência, de sentido, entende? Lógico que não. Nem eu entendo! Mas nem por isso pense que lhe redimo a culpa! Falo da culpa que sinto, da culpa de que sempre fui assim, não mudei, não virei a página. E a mais pungente de todas elas: a culpa de lhe culpar pelo que sou. Eu não sei mais se é tão legal assim não ser normal. Eu queria poder ser normal, iguais a esses que me lêem agora, que sempre pensam. (lembre-se: sempre pensam é sinônimo de nunca param de pensar!) Eles, os normais, conseguem agir, dominar a situação na cuca, rebater, defender, redargüir... enquanto nós, os leitores do lado de cá, só existíssemos para sentir. É como se a Ordem fosse que caiássemos tudo que sentimos e tingíssemos, em lugar disso, o vazio. Incoerente, eu sei. Mas a Ordem é incoerente e conviver com ela está mostrando que não é, como eu disse, tão legal assim. Aliás, é difícil. E, como o leitor bem sabe, dá para se adaptar a tudo... nalgum momento, mas dá! Estou certo? Errado. Não há o certo ou o errado. Talvez por essa analogia fique mais fácil de entender (ou seria desentender?) o real e o fantasioso. Ora, se é tudo real! Ora, se é tudo fantasioso! O amor: real e fantasia. A dor: real e fantasia. A felicidade: real e fantasia. Os dois leitores: real ou fantasia? Os dois vocês: real ou fantasia. Arre! Não dá para fugir dos clichês da alma. Não da alma pura, honesta, inata. Quando sinto, sou flagelo do sentimento, não tenho personalidade. Quer dizer, tenho: eu sou o que sinto. Sinto muito.

sábado, 8 de outubro de 2011

Saudosismo

Não acho necessário incutir você do mesmo pensamento que eu. Ora, discordar de você a mim não causa enjeitamento; aliás, o contrário, até agradeço por você ser diferente de mim. Dois eus seriam catastróficos! Entretanto, vejo tanta gente impondo suas irrepreensíveis usuras que o caso agora começa a me dar veios à apoplexia. Eu estou errado ou será mesmo que é pedir demais para respeitar a opinião alheia? Ora, por que se incomodar com o que fulano está escutando? Qual a agonia que há em beltrano ser promíscuo? Quem disse que existe verdade absoluta e que essa é a proferida pela sua voz inquisidora? Em que lhe incomoda o fato de eu pôr ou não uma foto no meu perfil ou citar uma frase de alguém? Tem um código de conduta obrigatório a se seguir e ele é ditado por você? Faça-me o favor!

Como diria o poeta, Russo: "não sou mais tão criança a ponto de saber tudo." Então, creio que me aposentei. Cansei de gente de conceitos incontestáveis e de egos flutuantes, porém, acima de tudo, estafei-me deveras, consumi até a última gota de comiseração, dessa gente que distribui injúrias como quem respira, a torto e a direito. E não é que eu venha aqui para lhe predizer malogrados — afinal, em nada diferiria de você, Profeta da Razão — o ponto é outro (mais detestável ainda): por que eu não consigo escrever tudo isso sem me parecer tanto com você?

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Broto.

Eis que da terra molhada a semente que há semanas germinava, finalmente brotara. Com todo esmero e ímpeto, ela se rachava e expunha ao céu aberto sua primeira folha. A primeira de muitas. A sede de viver a fez romper seu confortável casulo e dar as caras ao mundo das intempéries.  Não havia outra saída e ela foi começar a  vida, nem cedo, nem tarde.

A semente, portanto, virou broto e esse agora olhava ao seu redor e via com esplendor o mundo novo que o escolheu: era tudo claro, diferente, bom. Pássaros, insetos, cheiros, vento, cores, luzes. Deslumbrante, deslumbrante!

Entretanto, não havia coisa pela qual seus olhos mais eram fisgados do que suas frondosas vizinhas. Todas enormes, de troncos maciços, sombras vultosas, folhas a perder de vista...

Logo, vendo aquele espetáculo ao seu redor, o broto, após o nascimento de sua terceira folha, resolveu perguntar a uma de suas vizinhas sobre como ele chegaria a tal patamar. Contudo, sua eufórica indagação fora frustrada, porque não obteve resposta alguma. Quem sabe a árvore esteja muito mais alta do que eu, milimétrico broto, para me ouvir, pensou, acatando o calar de sua pomposa similar. Então aquele silêncio só fez o fascínio pelas suas enormes semelhantes aumentar. E talvez por isso, o broto quisera ser árvore.

Depois de crescer mais um palmo, o broto tornou a perguntar-lhes sobre como é o mundo de cima. Porém, novamente não recebeu nenhuma palavra. Foi então que num rompante, ele atinou para as sementes que caíam das alturas e para a grama rasteira que sempre estivera lá antes mesmo dele nascer e quase lhes perguntou como era o mundo superior. Bobagem, resmungou consigo mesmo, como eles vão saber da vida nas alturas se as sementes são virgens e a grama nunca ultrapassou meio palmo!? O broto só se movia para cima, só a grandeza das suas ídolas lhe interessava e todos os outros eram baixos demais para serem levados em conta.

Intrigado com a insistente displicência, indagou-se e notou que suas vizinhas ainda estavam muito acima dele para poderem escutá-lo. Sendo assim, tendo a dúvida como adubo, o broto cresceu cada vez mais. Três palmos, quatro... Metro a metro, ele ia subindo, sempre perguntando às suas superiores e nunca recebendo respostas. Até que após anos de ascensão, ele tornou-se árvore e calou-se aos demais.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Miau?

Você é o nome do gato do vizinho. E desse condomínio, o único gato é ele. Talvez no quarteirão, talvez no bairro existam outros, mas só Você mia na minha varanda, logo só há Você.

Você nunca me incomodou. Ele é, apesar de só ouvi-lo, de poucos miados. Conhecedor ou não, Você me dá certa confiança a qual nenhum outro gato me dera. Sabe um fungo que nasce do nada? São assim meus sentimentos por Você — tal como ele apareceu: instantâneo, dengoso, derradeiro.

Minha alergia aos seus muitos pêlos foi contornada pelo seu ronrom suave — não me pergunte como. Dono de vários lares, Você era nômade corporal, mas um exímio sedentário cardíaco. Você tinha tudo para ser apenas mais um gato, entretanto, com Você era tudo incrivelmente diferente. Era...

Pobre Você! Caiu do sétimo andar. Pensei que ele também soubesse voar. Você não teve culpa, muito menos eu! A culpa é dos engenheiros, dos pais de Você, do vizinho ou de todos. O que Você diria? Acho que ele sabia o que fazia... Balela! Mania feia essa de dar palavras aos que só sabem miar!

Depois que Você morreu, o vizinho adotou Outro. Outro me faz espirrar e logo o enxotei da minha varanda. Contudo, não tardava e lá estava de novo Outro, carente, simpático, amistoso. Fui-me deixando levar e os espirros também foram-me deixando.

O gozado, porém, foi o surto de gatos que apareceram no meu condomínio e no quarteirão: todos multicolor, de toda dimensão, de toda cara.

Um dia, voltando de qualquer lugar, passei por um gato muito parecido com Você. Parei o carro e chamei-o. Ele é gato e, felinamente, resistiu ao tato, mas não ao prato. Adotei aí Alguém.

Alguém agora está completamente incumbido de me trazer tudo aquilo que Você me deixou de trazer, mesmo que esteja fora de seu entendimento, ou do meu apartamento. E, ao tocar neste assunto, confesso que por medo (ou vingança) pus grades em todas as janelas para compartilhar minha sede suicida de me matar de vontade de saltar e sair vivo.

Mas o hoje não é o amanhã de ontem... e quem sabe, Alguém ache uma nova forma de me contentar.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Silencia-dor.

Quanto mais o relógio tiquetaqueava, mais a anestésica ideia de tempo perdido o consumia. Era como se uma âncora, chamada passado, desconstruísse e afundasse aquele que outrora desbravava a nado os sete mares dos pecados. Mas, apesar disso, seus pulmões, desumanamente resistentes, de nada se queixavam, visto que a apneia o aproximava da paz suprema que a morte trazia: o silêncio.

O silêncio é o som universal dos humanos. Apesar de muitos falarem, apenas a mudez é unânime. Porque gostamos do meio-termo, da sua dúvida, da nossa imaginação. No íntimo, estamos sós, calados com nós mesmos, resignados ao estrondoso eco da alma. Pois as perguntas imperecíveis, as verdades dubitáveis, a concreta e insuportável peremptoriedade das opiniões flácidas: tudo converge às indigestas palavras. A escrita é a arte triste. Há milhares de anos o homem tenta transcorrer pelo papel sua humanidade, contudo se choca graças, justamente, a sua defectiva e incompreensiva humanidade. Daí a amargura dos romancistas, filósofos, poetas...

Terminamos, portanto, por nos conformarmos com a tristeza prazerosa, que nos atrai e rechaça dos nossos dizeres inescapáveis. Num combate conciliador entre o incoerente e o fantasioso, onde nossa luta só serve para nos mostrar que na vida real o mocinho se afoga e não dá sequer um gemido de dor, por saber que falar é inútil e o calar, apaziguador.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Não leve a mal.

Eu tenho que evoluir? Quem disse que eu tenho? Quem disse que eu quero? Por que devo ir em busca desse disfarce tolo do superei — ou como os mais hipócritas gostam de dizer —, do te arquivei num lugar bom? Não! Eu não quero. Simplesmente me recuso a esse recalque travestido, fingido, forçado, social. Prefiro o meu velho, bom e francês recalque. Aqueles das dores infinitas, dos pra-sempres revividos, do diariamente triste. É certo que minha vida é curta demais para ter só tristeza, mas também é efêmera para essas alegrias demagógicas. Deixe-me assim, com meu desamor sincero. Já sei do que vou me lembrar no futuro e agradeço sua boa intenção.

domingo, 10 de julho de 2011

Sobre sentir.

Dizem que a dor da saudade são mimos do ego: queremos sentir novamente aqueles holofotes de pensamentos do outro esquentando nossas peles. Dizem que no fundo só estamos reavivando o que jaz morto e essa ressurreição tem o único propósito de nos massagear o coração... e apunhalá-lo dois segundos depois num ciclo sadomasoquista. Eu não discordo deles, afinal não tenho espaço para mais embates inúteis. Nessa matéria sou realmente um desistente.

O que é de se levantar, contudo, é a serventia dessas pessoas que não amam, mas querem ditar o amor. Aquilo que eles falam é hipotético, falso, desonesto e, muitas vezes, nos é impelido goela abaixo. Como por exemplo, algum filósofo russo poliglota que balbucia num português intrincadíssimo e, ao termos entendido alguma mísera lógica, nos rejubilamos e creditamos toda confiança a uma frase certamente banal: “o amor é importante”. Oh, você conhece Cocorotovski!

É como se sentir fosse uma porta para o sucateamento do sentimento. 'Que a partir de agora, todo sentimento vivo esteja fadado a definhar, pois é popular, explícito e comum!'

Não entendo esse amuamento das pessoas quando o quesito é amor. Não quero explicar ou entender o amor (muito menos as pessoas), isso é realmente desnecessário. A ordem do texto é outra: por que esse secretismo todo acerca do dito cujo? Falar de amor virou o novo arranhar quadro negro: ninguém suporta. Então por isso lanço o desafio de me ler.

Amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor.

Viu como é normal? ‘Viva!’ também é uma frase banal.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Vai chover?

— O mal da humanidade está em criar expectativas.

— Que mesquinho pensar assim! Há tanta coisa pior do que as expectativas! Veja uma guerra, um tsunami, uma bolsa roubada, uma chacina...

— Se não tivéssemos esperanças de que tudo perdurasse, não sofreríamos tanto. É como um bônus aos descontentamentos: veio a guerra e estraçalhou sua sensação de paz eterna ou, não veio a guerra e arruinou suas hipóteses de como tudo iria terminar.

— Sinto muito, mas não vejo coerência no que você fala: eu nunca iria querer uma guerra!

— Isso é o que você me diz e o que me faz acreditar que você pensa assim. Logo, querer que eu confie no que me diz é ter expectativas sobre o meu reflexo diante do que me lança.

— Ainda não compreendo o ponto.

— É normal. A expectativa é a coisa mais incoerente do mundo. Ela nunca está no centro, sempre nas laterais, isto é, ou você quebra ou você frustra suas expectativas.

— E quem atinge suas expectativas?

— É como quem alcançou a utopia. É o que me foi dito para me fazer acreditar que aconteceu desse jeito. Só os videntes atingem suas expectativas.

— Mas por que a expectativa é o mal do mundo?

— Porque é uma falsa ideia.

— Continue...

— As falsas ideias são venenosas, porque na verdade são ideias que boicotam o pensamento. A esperança de que vai dar tudo certo é uma artimanha cruel, porque não existe o errado. Por isso o boicote do pensamento.

— Se eu te dissesse que tenho câncer?

— É fatídico, acontece, é isso, está se tratando?

— Como você é frio!

— Esse é o mal da expectativa: somos totais dependentes dela.

— Pois então criemos expectativas ruins!

— Ao criar expectativas ruins, não acha que as vai estar incubindo de germinar outras boas em você?

— E as surpresas? O que me diz em ser surpreendido?

— Isso é um segredo que não pretendo descobrir.

— Haha! Uma nuvem de expectativas sombreou agora sua cabeça!

— Garçom, mais uma!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Confusa.

Pensei em escrever algo enquanto minha amiga não chegava à minha casa. Eu a chamei porque me sinto fraca. Estranha, na verdade. Nunca senti isso antes: uma sensação tão confusa que não consigo chorar ou rir, sentir fome ou vomitar. Odeio esses dias. E eles estão ficando recorrentes. Me sinto uma estranha dentro de mim. Mas até que dizer essas palavras ajudam. Desculpe a desconexão desse texto, só sei pensar assim. Agora crio uma gata. Ainda não sei o nome que vou dar. Ela é linda! Tá brincando nesse momento com um pano de chão. Ela tem me feito bem, apesar das fezes podres. Eu durmo com ela na cama mesmo. Ela é carinhosa e se não for, vou fazê-la ser. Odeio isso em mim: forçar os outros. Por um instante vejo-me como um alguém que conheço: minha gata. O gato ronrona no seu pé pra pedir. E ele enjoa. Gosto dela. Ela se parece comigo. Eu sou tão complicada, né? Tão egoísta. Ajo sem pensar nos outros. Mas é que se eu pensar nos outros antes de agir, não me sinto honesta nem com os outros – por não ser espontânea com eles – nem comigo – por não fazer o que quero. Acho que estou transferindo a minha carência pra ela. Ela usa uma colônia Johnson, a verde. Uma outra amiga disse que não gostava da verde. A primeira vez que comprei, tinha experimentado a verde e foi a que mais tinha gostado. Mas levei a azul, porque me lembrei que essa amiga não gostava da verde. Outra vez, comprei a verde. E ela adorou! Disse que tinha se confundido e que a verde era uma delícia. Eu vivo me queimando com o cigarro. Nunca fumo um cigarro inteiro, sempre apago na metade. Não aguento. Não aguento ter que dar um fim. Prefiro que outro dê ou que eu o mate quando estiver debilitado, pedindo pra morrer, pela metade, só, fora da caixa, no cinzeiro sujo. Piedade é melhor que impiedade? No fim, o cigarro morre de todo jeito. Ando escutando muito uma música: Seozé de Carlinhos Brown. Só conheci graças a uma participação de Marisa Monte. Essa música dá título a um dos melhores discos dela: verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão. Neste CD tem uma música de Arnaldo: Bem Leve. As letras dele são tão característica, né? Já fui a dois shows dele este ano: o primeiro, fui com Gagá e o segundo fui com os mesmos amigos que foram comigo pro primeiro. Nota a importância que dou às pessoas? Na verdade não é importância, é enfoque. Ando muito focada num passado agoniante. Bem resolvido? Sim. Então por que a agonia? Minha amiga ta chegando. Tchau.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A caixa da sabedoria.

Era uma vez numa ilha deserta, um náufrago. Fazia tanto tempo que morava ali sozinho que ele já não sabia de sua origem ou o que havia além das imensidões azuis. A adaptação, por assim ser, sitiou seus pensamentos. Ou, em outras palavras, a acomodação exilou o que era desnecessário. As únicas coisas que ele sabia por ali era o que lhe podiam ensinar. E, tendo o sol como guia, aprendeu a ter disciplina, foco e determinação; tendo a lua como conselheira, passou a compreender suas fases e o que elas significavam; tendo as plantas como exemplo, descobriu que boas safras levam muito tempo para acontecer. Tudo cíclico, natural e desumano.

Por ser rei de um reino inóspito, o náufrago encheu-se de si para tornar-se Deus. O Homem é o deus do Homem. O Homem é o deus do deus. Suas crenças tornaram-se reais; suas idéias, leis; e seus desejos, o bem geral da nação.

Muitos anos se passaram e seu conforto só ia aumentando, até que ele havia se conformado supremo: a chuva caía assim, o gramado crescia assado. Exatamente tudo estava sob seu controle. Logo, na qualidade de supremo, nomeou isso de felicidade. E vivia honestamente sorrido, honestamente completo.

Certo dia, porém, seus mandamentos foram quebrados. Eis que aportara algo novo em sua, tão sua, terra. Era uma caixa pequena, que provavelmente boiara até lá vinda de outro lugar. Ao ver o caixote ali em sua praia deveras destoante ao que lhe apetecia, incomodou-se. Não antes de se enfurecer consigo mesmo por não ter previsto, ou melhor, por não ter reconhecido tal objeto, dentre todos os outros que ele, onipotente, criara. Desconhecia sequer de onde ele viera! Que ira!!!

Passados alguns minutos, conforme a lei, esperou sentado, calado, pensativo. E frustrou-se. Amargurou-se pela sua autoanálise: ele não era deus. Para ele a simples ideia de que o subconsciente de um deus age na surdina era inválida, pois ninguém o ensinara isso. Não há avaliação sem pontos de vista. Sentia-se fraco, limitado, enjaulado graças a uma coisa que os seres do mundo moderno rotacional diziam ser destino.

Agora a confusão se instalara: toda uma história caíra por terra. Nada mais fazia sentido e, depois de uma eternidade de completude, viu-se só. A realidade fuzilara seu cérebro. Todas as suas crenças, ideias e desejos morriam a cada tentativa insuficientemente coerente de tentar explicar tudo ao redor. O reino foi destruído e o monarca, descoroado.

O náufrago virou José. E José, magicamente, tinha outra história. Uma história de lembranças. Uma história que os homens como ele chamavam de realidade.

Entretanto, com José não foi tudo tão diferente: ele também ficou incomodado, zangado, descompensado e triste — por motivos que o leitor consegue bem supor. A diferença entre José e o náufrago foi, portanto, que aquele não tinha a quem recorrer, não havia outra entidade na qual ele pudesse se transformar. José era o primeiro estágio, era a base encubada do náufrago, o ovo já chocado da consciência. José era a lógica, a racionalidade, a sanidade. Ele sabia o que era o amor, assim como também o que é uma caixa e que ela veio de outro lugar. José sabia que havia outros tantos lugares e também que ele era limitado para sair da ilha.

José sabia que cedo ou tarde haveria de abrir a caixa e, por esse motivo, resolveu abri-la de pronto, mesmo sem conhecer o seu interior, nem os malefícios ou benefícios que ele poderia trazer. Ao abrir a caixa, José descobriu mais uma coisa, soube de mais uma coisa: nada.

domingo, 1 de maio de 2011

Marte.


— É do ser humano ter dúvidas?
— Será?
— Acho que sim.
— É do ser humano supor?
— Acho que sim.
— O que não é do ser humano?
— Marte!
— Será?
— Acho que sim.

domingo, 17 de abril de 2011

Fale direito!

Não venho aqui pedir que você ame Machado de Assis. Também pouco me interessa lhe dar uma lição sobre literatura, afinal, não tenho gabarito para falar acerca disso. O que quero lhe dizer é que sim, as línguas vivas estão em constante mutação. Entretanto, quando olho ao redor, vejo uma sociedade sendo formada e, o horror!, propagada por erros costumeiros e de fácil resolução. Coisas como vírgulas, pontos, acentos etc. Eu não quero bancar o certinho, ou me autopromover um bom escrevente, contudo é necessário que haja uma comunicação efetiva! E, por que não, bonita! Português não é só uma matéria da escola ou uma alternativa numa prova de múltipla escolha; Português é uma herança linda ainda, é uma lógica, é uma malemolência, é a poesia da sua própria descrição. E muitos de vocês aí deturpando, tendo descaso, estuprando nossa tão bela forma de se transmitir.

Outro ponto que gostaria de citar é que, como disse anteriormente, o Português está em constante mudança. Ou seja, não quero pregar uma postura de ostracismo e afirmar que a única maneira na qual devemos nos basear na hora de escrever seja a erudita. Por vários motivos! O principal deles é que a língua é o reflexo mais atual da sociedade. E, por falar nisso, o que nossa sociedade tem sido?

Alguma vez você já se pegou e viu como você se parece com seus pais? Notou como você tem trejeitos, manias e modos de falar tal qual eles? Pois, assim é pro seu idioma. Português não é só estética ou arte. Português é a sua identidade, é como você leva a vida. O Português é feito por mim e por você. Se você começa a transgredi-lo, ele vai se adaptar e ser transgressivo. E isso, honestamente, não é evolução, daí a revolta.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Recriativo.

Hoje eu acordei. Não que eu estivesse em coma e acordar fosse um evento extraordinário. Hoje eu apenas acordei. Simples assim. Em outras palavras, eu deixei de dormir. E não me venham adivinhar um significado simbólico — ou profundo, ou subjetivo, ou o que queira — para três palavras tão corriqueiras: hoje eu acordei; como ontem e provavelmente como amanhã acordarei. Abri os olhos, saí do sonho, tirei a remela, me espreguicei e praguejei o motivo que me despertara.

Escovei os dentes e me banhei depois de tomar café. Minha empregada sempre me repreende por logo após o café eu ir à ducha. “Vai tomar banho depois desse café quente!?” me fala com toda aquela convicção de que depois do terceiro cantar do galo, toda careta torna-se permanente.

Após ter morrido e ressuscitado naquele banheiro, relatei-lhe o ocorrido e, milagrosamente, ela não acreditou.

Sou contra a máxima que tanto se apregoa do só acredito vendo. Porque até vendo, se quiser, não dou fé. Crer é questão de opinião e apenas isso. Digo isso para me autoafirmar — e que palavras não têm esse intento? Mas, voltando ao impasse, hoje acordei e mais tarde vou dormir. Quem sabe mais poética esse sono traga.

domingo, 27 de março de 2011

Entre nós.

— Amorzinho, minha paixão!

— Oi, minha serotonina.

— Toda vez que te sinto, nuvem glacê de morango, parece que o seu quero-quero balbucia prosopopeias sabor chocolate...

— Onomatopeias, brilhante escarlate, Onomatopeias...

— Centopeias não me varam melhor, andarilho do meu espectro cardíaco.

— Meu linfócito TCD4, meu chá de sete ervas às 17h!

— Te amo.

— Preciso de ti.

— Te quero cabalisticamente, meu faraó!

— Eu sei, minha força galáctica, fabulosa nebulosa!

— Vem cá, meu leite de coco atapiocado.

— Jujuba de doce de leite!

— Minha resma de notas infindas, meu corolário!

— Meu apócrifo!

— Eu amo...

— Nós amamos...

— A nós?

— A nós.

sábado, 12 de março de 2011

Ondas, Cores e notas.

Gotas em pó, notas sem dó.
Cores, suas, todas e só.
Aves não voam em marcha ré.
Um rio não é igarapé.
Un amor solo a mi.
Mon amour, mon ami.

Quando o mar se põe a arfar
não implica que vai secar.
Água, cor e sol
É pênalti e gol!
Mas sem tu lá,
Só luz, gota e ar,
É como estar em si
O vazio do não existir.

Se em ti há menos sentimentos,
sei que é mentira.
O fulgor aqui é só o aumento
da vista que te inspira.
Numa incessante confusão
do não amar amando.
Porque o real é ilusão,
só não se sabe quando.

Sou sua lavoura, lá fora,
a massa física da hora.
Também sou filho de Deus,
mas acredito em ateus.
Comer sem ver,
Beber sem saber,
Respirar sem viver.

Nada é tão fácil e nem tudo é difícil.
Amar não é nenhum sacrifício.
É saltar do precipício,
esperando um bom auspício!
Não pensando em desperdício.

Você já é o meu vício.
Vem pra cá e deixa disso.
Vem me ver nesse comício,
Vem calar este suplício,
Ou me votar pra seu patrício.

Não consegue ver?

Um arco-íris cintila ou reflete?
Seus tons de cinza são mesmo sete?
Meu arco cupido, minha íris culpada!
Veloso também não entende nada!

quarta-feira, 9 de março de 2011

Boa viagem!

E lá se iam todos novamente de volta à habitual hostilidade. Esperando ansiosamente o momento emblemático em que aquela peculiar corrida se iniciaria. O tiro de partida, assim como o trajeto da competição só eram decididos no último segundo. Era dada a largada da corrida ao ônibus.

É estranho pensar por que se corria tão selvagem e desesperadamente de encontro àquela porta pela qual todos haveriam de transpassar: do primeiro ao último da fila. Coletivamente tinham que esperar uns aos outros. Mas corriam, ou melhor, atropelavam-se com o único e vanglorioso intuito de estar na frente e mostrar o traseiro para o passageiro que viria logo em seguida.

Tais usuários, entretanto, numa ação uniam-se. Era o coro quase uníssono da profusão de com licenças deturpados de razão (ora, para que tanta gentileza?). Talvez eles não soubessem o que os apressavam tanto para se espremerem mutualmente. Quem sabe até esse seja mais um dos mistérios de Fátima.

O curioso nesta estória foi o fato de todos terem espantando-se com enorme afetação, diga-se de passagem, ao ouvir as destoantes palavras do alegre cobrador do ônibus:

— Boa noite e boa viagem!

Mal sabia aquele simples homem que sua sincera e benéfica atitude iria ser de tão grande repercussão na mente dos zangados suados que pela roleta passavam. Aliás, mal sabia ele que, em verdade, sua atitude era algo extraordinário! E, como é de se esperar, tudo que não seguia os ditames, era digno a danação.

Poucos eram os que o bom auspício lhe retribuíam automática ou rispidamente e, não raro, timidamente. A estranheza foi tanta que pensamentos dos mais variados surgiam como bolhas de metano em rios de esgotos.

"Ele flertou comigo?"

"Ele ficou com meu troco?"

"O que ele quer dizer com ‘boa viagem’? Ele só pode estar de gozação!"

"Pelo visto transou hoje, hein, rapaz?"

No final os tão proativos passageiros sequer cogitaram que aquele humilde funcionário da rede de transporte fazia parte da cota dos 5% dos portadores de deficiência que toda empresa deve contratar para se isentar impostos.

Mais um ponto de ônibus e mais outras dúzias se acotovelavam para então vencer a diária corrida dos deficientes.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Aos trinta.

Dizem que a mulher aos trinta começa a cair. Em todos os sentidos: cair no esquecimento, na desmotivação, no lugar-comum. Apesar do que falam, sinto que estou cada vez mais poderosa, embora, às vezes me veja atraída também pela gravidade: peitos caindo, carnes amolecendo, rugas cosendo... Contudo, sinto-me mais viva, cheia de ânimo para carregar o fardo de outras três décadas.

Tenho um bom emprego e uma ótima casa. Comprei meu próprio carro e ganhei da minha mãe um lindo chiwawa cujo nome é Charles. Pus essa alcunha por conta do príncipe mesmo. Já que príncipes encantados não existem, fabriquei o meu próprio. Antes que pensem que estou desesperada, uma ressalva: minha vida sentimental está agitadíssima e, para falar a verdade, adoraria que nessa nova fase viessem tempos mais amenos.

Há meses que vários homens me têm aparecido, porém, os céus não têm colaborado para minha amancebação. É certo que uns deles não são meus sonhos de consumo, afinal, três cancerianos matam qualquer virginiana de tédio. Mas eis que surgiu aquele geminiano! Marco é seu nome. Vem de família de descendência ítalo-germânica. Estamos tendo um rolo e honestamente sou levada a crer que tornei à minha emocionante adolescência de calafrios e projeções.

Conheci o Marco numa festa da minha antiga turma da faculdade. Fomos uma turma sempre muito conectada. Acho até que todos ali são regidos por Marte, uma vez que um sempre completa o outro em harmonia. Tanto foi que daquela classe formaram-se quatro casais. Restando, portanto, só eu, Gabriele, Gustavo e Deco sem namorados — o que inclusive conta-se que os três são homossexuais e talvez até tenham parceiros, mas que não é do conhecimento de ninguém, enfim.

Marco veio como convidado de Paola, minha pseudo-rival nos tempos de faculdade. Ela e Geovanna. Era engraçado ver como maquinavam na hora do intervalo ou até mesmo durante a aula com aqueles bilhetinhos recheados de letrinhas miúdas e muitas vezes escritos em códigos que certamente referiam várias palavras a mim. Como é de se supor, os atuais namorados das duas passaram inicialmente no meu diário e, mesmo tendo-os conhecido primeiro e gasto horas e horas adquirindo intimidade e falando sobre as vertentes que a universidade atraía à medida em que nos aproximávamos do fim do curso, elas foram lá e fisgaram-nos. Todavia, tudo está bem: todos viram como elas agem e quem elas são. Fico feliz que tenha tudo dado certo, mesmo sabendo que poderia ser eu agora no lugar de uma delas. Porém, quem soltou este disparate de que não estarei também com um homem para chamar de meu?

Marco tem dois anos a menos que eu, ainda assim seu rebusque europeu dá-lhe postura tal de um impecável conquistador medieval. Como disse, ele tem todas as características que uma mulher decidida como eu admira: um bom emprego, excelente gosto por filmes e músicas, ótimo perfume. Um geminiano desenhado nos meus conformes.

Há dois dias que marcamos de sair todos novamente para um happy hour num maravilhoso botequim perto de onde ele trabalha. Mas por capricho do destino, o estabelecimento estava em reforma há duas semanas. E como um nobre gentleman, ele então convidou aos amigos do happy hour para nos reunirmos então no local mais próximo dali — que por acaso eu sabia que era sua casa. Aceitamos de súbito a proposta.

Quando chegamos ao seu luxuoso condomínio, logo notei uma característica excepcional de sua personalidade: Residencial Petúnias estampava a fachada do prédio. Petúnias são obviamente flores que remetem à brandura e à firmeza de um lar, de uma família. Mal pude segurar um suspiro, no entanto, quando entramos em seu apartamento. Móveis clássicos mesclados com pitadas de modernidade, como o seu telefone retrô com padronagem de triângulos alaranjados ou uma enorme cristaleira de cedro repleta de estátuas em miniatura de desenhos antigos — a Pantera cor de rosa, Batman e Robin etc —, fizeram-me logo atinar que Deus finalmente acertara o chute pondo aquele divertido, moderno e viril cavalheiro no meu caminho.

Assim que nos acomodamos sotopostos ao redor daquele pomposo lustre de elefante, Marco logo ofereceu uns quitutes para acompanhar um vinho do Porto. Todos supuseram que ele fosse trazer para petiscar no máximo umas azeitonas ou uma tábua de frios, mas passados vinte minutos, Marco volta com uma barca completamente cheia de sushis e sashimis. Ele segredou a todos que enquanto fazia um estágio em Los Angeles, passava a grande parte do tempo livre num curso de comida japonesa muito conhecido por lá. Não preciso nem contar que meus olhos marejaram instantaneamente, tanto que pedi discretamente para ir ao banheiro retocar a maquiagem, para dar um up na minha cara cansada.

De volta à sala, ainda se ouve os burburinhos e risadelas. Pergunto o que houve e onde está Marco. Eles apenas me respondem que o mesmo ao voltar para buscar o molho de soja que acompanhava o prato oriental, derramou sobre si uma taça de vinho junto com a garrafa contendo o molho preto, tornando-o então um desconsertado e fétido peixe foda d’água. Ele pediu desculpas e correu ao banheiro para tomar banho e trocar de roupa. Honestamente não sei o que dá na cabeça dessa gente de achar isso um motivo de riso tão farto, contudo me recusei a perguntar se fora somente isso o motivo de tanta gargalhada. Com mais cinco minutos, todos já falavam sobre como foi engraçada a vez em que, na festa de formatura Deco deixou cair a taça de champanhe sobre o insuportável professor Assis.

O tempo passou e Marco grita do banheiro dizendo que esquecera de levar uma toalha e se alguém poderia levá-la ao banheiro para que ele pudesse se enxugar. Já que nem Paola sabia onde ficavam as coisas do príncipe, me propus a pegar-lhe a toalha na primeira gaveta da primeira porta do guarda-roupa. E foi aí que percebi que não era somente Deus que estava intercedendo por mim: eram todos. Todos estavam em complô para que eu e Marco tivéssemos um rolo.

Entrei na brincadeira. Fui até o seu quarto e fiquei maravilhada com sua pequena biblioteca com vários livros renomados e também pela vasta coleção de biografias de grandes personalidades como Chaplin, Gandhi, Madonna etc. Outra coisa que não pude deixar de notar foi uma linda estatueta estilo grega de um homem sobre sua mesinha de trabalho ao lado do computador. Entretanto, o que mais me alegrou foi ver suas fotos num mural na parede: não havia nenhuma ex-namorada! Pelo menos não em evidência. A maioria das fotos era de Marco com os amigos segurando uma cerveja em algum lugar lindo: Caribe, Morro De São Paulo, Buenos Aires, França. As únicas mulheres que apareciam nas fotos eram supostamente sua mãe, sua avó e não raro umas amigas. Amigas tais que não se repetiam nos retratos.

Apesar das minhas digressões, segui o que ele pediu e encontrei uma toalha no local indicado. Todas as suas toalhas eram brancas, como devem ser, para que alvoreçam ainda mais as energias após o banho. Essa curiosidade despertou outras tantas e, da mesma maneira em que perscrutei seu quarto, também iria agora rápida e ingenuamente verificar seu guarda-roupa.

Na primeira porta estavam todos os seus lençóis, colchas, toalhas e fronhas. Na segunda porta listavam seus ternos de grife ao lado de suas respectivas calças, assim como várias camisas sociais ordenadas por tonalidade simbolizando claramente organização e consequentemente determinação. Apesar desses detalhes, um em seu armário me chamava mais atenção: suas cuecas. Como eram muitas! Havia duas gavetas só destinadas a elas. Cuecas vermelhas: paixão, calor. Cuecas pretas: sedução, mistério. Cuecas brancas: carinho, respeito. A única coisa que não entendi foi o amarelo daquele pênis de plástico.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Firework.

— Oh, Senhor, por que queres que eu faça isso?

— Não adianta me questionar. Dos meus desígnios sei eu!

— Matar o próprio filho? Por que não mata O Senhor, já que faz parte dos seus desígnios!?

— Eu não posso. E é aí que você entra.

— Não te compreendo. Tu, Senhor, és onipotente. Por que não matas O Senhor mesmo teu filho, meu irmão?

— Há coisas, meu filho, que não é próprio a tua natureza entender. Portanto, quero te propor um trato. Quero que te juntes a mim para abrirmos outro compartimento no inferno. Trata-se de um pedaço que alugo a Lúcifer. Como não há nada além da minha propriedade, ele tem uma dívida eterna comigo. E é isso que quero te propor se me ajudares no meu propósito.

— Que é matar teu próprio filho, meu irmão!

— Ninguém jamais saberá que és irmão dEle, eu não permitirei.

— ...

— E então o que me dizes? Estou sendo camarada contigo: dando-te a chance de também ser conhecido, lembrado, enfim.

— Não vejo bem assim, Senhor! Na verdade me sinto injustiçado: ou serei eternamente conhecido como traidor ou então serei ninguém.

— A ti te concedo a eternidade. Eu te perdoarei, será esse nosso segredo.

— Honestamente ao que parece queres menosprezar-me, meu Deus! Queres encurralar-me! Que escolha tenho se me impingiste também de ego? Nenhuma! Nenhuma!

— Ainda bem que acataste meu pedido.

— Deus, sinto agora uma coisa muito ruim por ti.

— A isso chamo cólera, ira, raiva. Quando te suicidares, pergunte ao diabo o que é. Ele está mais apto a falar do que eu sobre esse assunto.

— A propósito, por que devo matar meu irmão?

— Preciso testar um jogo de luz novo.