sexta-feira, 22 de março de 2013

Entre a sombra e o reflexo.

Tenho a impressão de que todas as coisas que poderiam ser simples e descomplicadas são justamente as mais intrincadas e complexas. E não é que eu me ache a estrela Dalva dos sentimentos adversos, porque sei muito bem que nesse infinito que não ouso explorar devam existir vários outros corpos celestes capazes também de emitir coisa parecida a isso que sinto. O ponto é que, com certeza, “igual” jamais alguém poderá sentir – assim como, obviamente, eu nunca terei sentimento idêntico ao de outrem. Aliás...

Aconteceu hoje. Acordei e, como de costume, tratei logo de minha higiene matinal. Fiz xixi, lavei minhas mãos e enquanto escovava os dentes já pensando no banho, notei uma coisa que me apavorou. Ela estava ali, com a boca espumando frente a mim numa janela vítrea que se costuma chamar espelho. Não era seu cabelo riçado ou seu rosto inchado que me causara surpresa. Era o conjunto. Ela me olhava despretensiosa com um olhar pétreo, desfocado, perdido, enquanto eu, pelo outro lado – do vidro – me encontrava atônita!
Não reconheci aquela imagem invertida de mim. Contudo não era só o físico que me incomodava: era sobretudo a enxurrada de dúvidas que brotava em proporções geométricas a cada pergunta não solucionada: Que olhar era aquele? Quais eram seus sonhos? Ou seriam meus sonhos? Por que eu insistia em me achar distinta daquilo que via?

Algo me incomodava, isso era fato. Mas o quê? Foi aí que captei uma onda eletromagnética provinda de meus fótons refletidos (ou seriam emitidos) decodificada pelas minhas antenas cerebrais a qual dizia que minha cara refletida trazia consigo quatro décadas. Quatro décadas de escolhas. De escolhas que muitas vezes não foram minhas, não foram inatas de mim. Escolhas que não foram certas. E foi então que nessa específica manhã, que eu percebi – ou quis perceber – quem eu era. Daí meu estranhamento comigo mesma.

Minha sombra, entretanto, continuava a mesma: blasé, direta e difusa. E, por isso, por achar finalmente algo meu com o qual eu ainda era habituada, de certa forma me identifiquei. Eu não era aquela da imagem, eu era aquele borrão escuro sem feições.

Todavia, após ver os dois ali – sombra e reflexo – por tanto tempo, sem querer esbocei um sorriso. Um sorriso impensado, sincero, gentil. Um sorriso do ridículo que de tão digno se fez refletir sobre o espelho (e obviamente não pela sombra). E graças àquilo – aquele simples rascunho de alegria – pude sentir que eu ainda fazia parte de mim. Logo, terminei, por fim, me entregando e rindo, tendo ainda que dar explicações bestas a uma terceira “eu” que me perguntava: o que foi isso, hein?

sábado, 2 de março de 2013

Dá um tempo! (Parte 7 – Final)


É comprovado cientificamente que bêbados pobres têm mais sorte que bêbados ricos. Ora, nunca se ouviu falar na face da Terra a história de um pobre bêbado transeunte envolvido em um acidente de trânsito – não pelo fato de eles não dirigirem alcoolizados, mas sim por eles possuírem um sensor mais aguçado que o de tubarões brancos no quesito se esquivar de carros ao atravessar um avenida. Fato é que nossos recém-mega-afortunados embriagados conseguiram por milésimos de segundo chegar a tempo à parada de ônibus para pegar aquele que eles julgavam ser o último transporte público do dia e de suas vidas.

"Estudante", dizia a voz feminina gravada quando eles validaram suas passagens na roleta do ônibus. Se fosse realmente coerente com a condição daqueles usuários que de tanto correr transpiravam todo o uísque que beberam, tal voz diria "Estudante só no final do semestre", ou então simplesmente "Vagabundo". Porém ao ouvir aquele som referindo-se a eles, José acrescentou ao amigo:

– Você pretende continuar estudando? Meu pai me disse que uma mente sem estudos, mais cedo ou mais tarde faria qualquer rico ser pobre. Ele disse que era preciso eu terminar a faculdade.

– Pois diga ao seu pai – respondeu o alterado Marcelo – que com o dinheiro que iremos ter poderemos começar a construir e terminar a faculdades que quisermos em menos de 3 anos. Mais rápido, garanto, que isso que chamamos de curso de engenharia.

E assim gargalharam! Tão espalhafatosamente que chamaram a atenção das outras pessoas que esperavam outros ônibus ainda na parada. O motivo de tanto riso, obviamente, não era a péssima piada, tampouco a embriaguez. A razão de tanta graça, lógico, era a riqueza que tornava-lhes a vida cada vez mais risível.

Após cada qual descer em suas paradas e tomarem seus destinos, ainda trôpegos (a essa altura, mais de dinheiro do que de álcool) chegaram sãos e salvos a suas respectivas casas. Como era de se esperar, ambos entraram na internet, porém, decidiram que não queriam chamar atenção, afinal, não queriam amigos sangue-sugas nas suas colas, muito menos gente com más intenções em seus encalços. Então por isso, cada qual atualizou seu perfil com frases vagas, meramente aleatórias, sem qualquer referência aos prêmios que eles ganharam, como por exemplo:

"NãO qUeRo DiNhEiRo, Eu Só QuErO AmAr - SQN"
ou
"ViDa BoA! V1d4 L0k4!"
ou ainda
"Que porra é essa de que o sorteio da mega-sena foi fraudado e existam outros 108 mil ganhadores!? Alguém sabe de alguma notícia sobre isso? QUE LOUCO!"
ou melhor
Dá um tempo! 

FIM.