sábado, 11 de setembro de 2010

Copo d'água em tempestade.

O clima estava tenso no consultório, mas nem a terapeuta, nem seus fregueses o notariam. Talvez por hábito, talvez por ensejo, afinal, não se vai a psicólogos para compartilhar a primavera. Roberta e Roberto Praça procuravam mais uma vez a brandura na tempestade matrimonial. Pelo menos diziam procurar. E a outra moça da sala lá estava fazendo sua cara de terapeuta. Aquela cara de quem entende tudo e nada ao mesmo tempo.

— Acredita, Vanusa, que ele sequer me dá bom dia quando acordo?

— Minha mãe dizia que não se precisa dar bom dia àquele com quem se dorme.

— Viu? Por que não se casou com sua mãe então?

— Tá vendo?

— Vendo o quê? Que sua mãe não soube lhe educar?

— E vai ser você que vai?

— Viu? Você precisa ler mais!

— Não comece. Essa água já está na fossa, virou chorume.

— Quanta amargura! Aposto que a sua fotografia da água teria chifres. — Virou para a psicóloga e continuou — Vanusa, ele está falando do livro que comecei a ler. De um cientista que afirma que a água é sensitiva e por meio dela se pode criar um padrão e captar todas as energias ao seu redor, inclusive do cosmo... — tornou ao marido e proferiu com convicção — É a materialização do cosmo!

— Não acredito nisso.

— Não estou pedindo para você acreditar, só estou tentando estabelecer um diálogo diferente do “você pode pegar as crianças no colégio hoje”.

— Não. Eu não acredito que você esteja falando isso até para nossa terapeuta. Pensei que você fosse sentir vergonha.

— É uma coisa séria, Roberto! Se você não dá vazão, o problema é seu: já somos bem grandinhos para sabermos lidar com nossas diferenças.

— Um a...

— Um a quanto? Não estamos competindo! Jogamos do mesmo lado! Pelo menos acho que deveríamos.

— Um a é a nossa diferença: Roberto, Roberta.

— Por que você faz isso? Por que fica mudando de assunto ou me ironizando o tempo todo? A você apraz me subjugar?

— Você é louca! Vê coisa onde não tem! Por que você não faz como o japa do seu livro e escreve sobre como é fácil delirar?

— Eu não sou louca!

— Então o que é?

— Para o seu governo, ele estudou, fotografou, catalogou, trabalhou por 15 anos para lançar o livro! Você acha que ele não merece crédito?

— E então!? Você passou 46 anos vendo coisa onde não tem! Será bestseller também, tenho certeza.

— Pelo visto não dá para manter uma relação com você...

— Bom dia.

— Bom dia o quê?

— Estou lhe desejando bom dia. Satisfeita?

— Bom dia nada! Agora é tarde.

— Boa tarde.

— Não, Roberto! Você não entende nada.

5 comentários:

  1. A comicidade do cotidiano sempre pode ser acentuada por um(a) psicólogo(a).

    o/

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  2. haha cara, beleza de diálogo, adoro diálogos. diálogo é massa de escrever (massa? que coisa de tiozão da minha parte). anyway. to te seguindo também cara, gostei daqui; a gente se tromba.

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  3. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    ri muito

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  4. Um dos meus cenários de exploração favoritos é o consultório psicológico. Mas o que eu achei mais interessante, e que acredito que foi proposital, foi o fato da psicóloga não se manifestar ao longo da crônica. Tira-se uma boa conclusão disso.

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  5. André sempre incrível na percepção!

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