quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Todo garçom é psicólogo.

6 da manhã e o café automaticamente amargo estava na mesa. O cuscuz, os ovos, salsicha, pães e manteiga. 6h30m e ninguém, salvo seus filhos, foi comer. Seu marido correu da cama pro chuveiro, do chuveiro pra roupa e nem sequer abocanhou-lhe um pão ou bochecha. Estava atrasado. Seus filhos e emprego dependiam da sua corrida. Se não tivessem inventado de passar a noite em claro, talvez estivessem todos à mesa, como ela esperava, tendo prazeres estomacais.

Passiva, a esposa assistia ao seu portão parindo toda sua família. Alguém lhe cumprimentara. Lambera-lhe, na verdade. Garçom. Odiou-se por isso. O único contato bucal foi a língua de um cachorro que, por ironia, tinha o nome de um subalterno.

— Garçom! Muxoxava uma vizinha. Oi, Teresinha.

— Oi, como está?

— Tudo bem, graças a Deus! E você?

— Tudo bem, graças a Deus!

— Pois tá. Como estão todos?

— Tudo bem, graças a Deus.

Responder-lhe-ia a mesma frase se a mulher continuasse com o interrogatório mote do falatório matinal. Mesmo que Deus não tivesse nada a ver com isso.

— Mulher, que horas são?

— Tudo bem, graças a Deus.

— O quê?

— O que o quê?

— Que horas?

— Ah, tinha escutado outra coisa. São 7h10m. Mentiu, eram 10 para as 7h. Vixe, tenho até que ir, deixei os panos de molho na água Marilena. Mais um embuste.

— É! Pois então tá. Tchau.

— Tchau.

Tchau, graças a Deus, pronunciou internamente.

— Garçom! chamava a fofoqueira no portão. Como ele tá grande! Já tá com quantos meses?

— 3, 4. Vou indo lá. Tchau, Margareth.

— Tchau. Bom dia!

Não conseguiu lhe proferir um bom dia. Parou atrás da porta esperando a hora em que a vizinha fosse embora. Ela iria dizer o que hoje? Que estou antipática por não lhe retribuir um bom dia? Agora era tarde. Ela ainda está lá fora sendo muito lambida por Garçom. Já sei! pensou. Foi até a despensa e chacoalhou o pote plástico contendo ração. Audição de cachorro é fogo! Em instantes lá estava Garçom na porta da cozinha esperando ser, ironicamente, servido.

— Tá com fome, é? Tá com fome, é? falou com aquela vozinha imbecil.

Colocou mais que o habitual de ração para o cão. Assim como fizera para o marido no café da manhã.

— Ele tem outra!

Um comentário:

  1. Olhando por esse ponto de vista... Todo cachorro deveria se chamar Garçom!

    o/

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