terça-feira, 19 de outubro de 2010

Dá um tempo! (parte 6)

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— Moça, o cardápio, por favor.

José e Marcelo entraram em acordo que — agora milionários — só iriam usufruir do bom e do melhor, tanto que dessa vez chegaram até a pedir o menu. Inicialmente, eles pensavam em absinto, contudo, como no PUB a que eles foram não servia ao tom dos seus requintes, resolveram experimentar uísque. O critério de escolha etílica se baseava no preço e assim pediram doses (sem gelo) de um uísque cujo nome e cifra eram os mais destoantes do lugar.

Seus olhos arderam, tais quais suas bocas e esôfagos. Eles não sabiam sequer que uísques não eram adocicados, mas, mesmo assim, sorveram aquele volumoso gole hídrico de quem acordou após uma noite inteira de uísque à bebericadas.

Sob aquela cara de semi-cãibra acompanhado de um sussurro diabólico como voz, Marcelo comentou com o outro:

— Uma delícia!

— É. Uma delícia...

— Mas?

— Estive pensando: há um dia atrás não teríamos modos de pagar a conta.

— Sem contar que teríamos que voltar antes da meia-noite, senão os ônibus acabariam — acrescentou o amigo.

— Mas a gente não ganhou nada ainda! Ai, meu Deus! — pigarreou — Vou pedir a conta.

Quando a garçonete trouxe-lhes a conta, o inimaginável tornou-se exorbitante: R$185,00 de quatro doses de uísque, dois tempurás de salmão defumado e duas Coca-Colas, além dos couverts.

Uma vergonha mútua se instalou entre o par de amigos. De um lado, José se sentia desesperadamente deprimido pela situação humilhante a qual pensava que se submeteria. Do outro, Marcelo, que não trouxe ao PUB nada além do que seu cartão do ônibus.

— Você não está com sua carteira, Marcelo!? — irritou-se José.

— Lógico que não, pensei que... — tergiversou.

— Ricos, por acaso, pagam com o quê? Com cuspe?

Aquele estresse e agonia resultante da volta às migalhas monetárias, agora se juntou à pressa para não perderem o horário do ônibus e à embriaguez tardia e intermitente que só o uísque tem e só a cama cura.

José brilhantemente teve a ideia:

— Já sei: vou passar no meu cartão de crédito. Amanhã estarei rico de qualquer forma! — proferiu voltando ao riso.

— E você tem cartão de crédito? — perguntou o incrédulo amigo.

— Tenho. Mas nunca usei, pois meu pai disse que os juros e vícios são imensos.

— Qual é o limite? — arrebatou.

— Não sei! Será que é menor que R$185?

— Provavelmente...

Enquanto isso, como quem já pressentisse a péssima conseqüência do calote, a garçonete se aproximou da mesa dos novos milionários miseráveis e ficou esperando uma resposta da dupla estranhamente pálida.

— Crédito, por favor — remitiu José.

A moça ao receber o cartão logo lhes abriu um sincero sorriso, que foi entendido por eles como bom presságio: o cartão será aceito! Sorriso esse motivado, por sua vez, graças ao não estranhamento de pagar couvert sem, no entanto, houverem pelo menos visto uma banda, cantor ou macaquinho malabarista.

Em instantes, porém, a atendente retornou com uma cara desanimadora a qual imediatamente fora traduzida por opróbrio iminente. Desesperadamente controlados sentiram que passariam por situação de tom semelhante àquele flagra vexatório de quando suas mães descobriram suas habituais conversas ao telefone de madrugada com as amigas delas.

Não tendo escapatória, um tremor frenético partindo das pernas e pés de José começou a vibrar e tilintar os talheres sobre a mesa. Marcelo ora também estava tenso, mas conseguia fingir-se mais sereno durante a longa espera da mulher que os servia.

A moça com rosto nublado finalmente regressara. Vê-la caminhar com a comanda era mais aterrorizante do que apenas falar com ela — a perversa imaginação se nutre quanto maior for o silêncio. Entretanto, ao se confundir e se referir ao dissimulado e taciturno Marcelo, este pelo susto, passou a tremer e gaguejar tanto que José se prontificou:

— Pronto? — disse já prevendo o mau auspício.

— É preciso que você vá até o caixa digitar a senha do cartão.

José nunca fora bom em senhas. Só decorou a senha do banco até o dia em que adotaram o sistema de sílabas (ou seja, no mesmo dia) e, para a sua comodidade (e sorte), as suas eram “Com” “I” “Da”; muitas vezes confundida com “Va” “Ta” “Pa”. Todavia, era necessário que ele pusesse não as sílabas, mas sim os números do seu cartão. Como um mistério sem muitas explicações, José digitou ao acaso naquela maquineta os seis dígitos correspondentes a data do seu aniversário e, aquele caça-níqueis da Visa deu-lhe a sorte grande: “Transação aceita, retire o cartão.” Ricos novamente.

(continua...)

Um comentário:

  1. kkkkkkkk, eu já fiquei feliz assim quando a maquininha do cartao aceitou a transção;

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