domingo, 10 de outubro de 2010

Dá um tempo! (parte 4)

Parte 3 | Parte 2 | Parte 1

Como um ioiô, seu desânimo se projetou nesse instante nas mansões e alegrias que aquele gelado pedaço de papel lhe proporcionaria. José contou para a mãe de Marcelo ao telefone que havia encontrado o agora então bendito bilhete da mega-sena.

Magicamente tudo tomara novos ares: José, extasiado; Marcelo — que até o momento só repetia xingamentos — entorpecido; e sua família reacendera o frustrado pavio dos foguetões.

Só havia, entretanto, uma pessoa que permanecia inabalável com os possíveis zeros somados aos três da sua caderneta de poupanças. Alto lá, você que pensou que fosse aquele tio canastrão e aproveitador que logo logo levaria um pé na bunda! A pessoa era a mãe de Marcelo que, ao ver aquele velório metamorfosear-se em epifania, não ligou se um talibã morrera e disparou:

— Vocês já conferiram os números?

Outra vez o cenário mudava. A casa de Marcelo parecia o Globo Repórter em dia de retrospectiva. Não só pela miscelânea de notícias marcantes, mas pelo ritmo que tomam aqueles programas: fala-se de uma tragédia e noutro instante, uma conquista; morte de Michael Jackson e vitória do vôlei; gripe suína e cura do câncer; ficar pobre e ficar rico.

O baque de saber que iriam voltar a viver como há dez minutos atrás se tornara pior a cada gota de entusiasmo evaporada. Em tal caso o silêncio se refez. A apreensão tomou conta do lugar. Até uma mosca, que zumbia na janela de vidro tentando inutilmente transpassá-lo e sair, cessou o farfalhar das asas para ouvir o veredito. Todos ficaram tão inertes que nem mover os lábios e contrair o diafragma conseguiram. O máximo esforço que fizeram foi arregalar os olhos e virar o pescoço na direção do possível novo milionário. E ali começou o ditado coincidente dos números. Era enfim a sequência correta! Eram exatamente aqueles seis números!

A profecia da retrospectiva se cumpriu no lar. É chegada a hora da felicidade! Voltaram aos gritos, aos foguetões, aos planos, à riqueza! José, Marcelo e sua família começaram a voar rumo ao sol, tal qual aquela mosca estancada no vidro da janela.

(continua...)

2 comentários:

  1. Reviravolta inesperada, pelo menso por mim.

    Bom, muito bom, envolvente.
    =D

    ResponderExcluir
  2. kkkkkk.... essa da mosca foi de mais, me mijei

    ResponderExcluir