terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Prazeres e Dolores.

Acho que escritor deve ser a profissão mais difícil de que tenho conhecimento. E não me venham dizer que almejo com isso, olhos de piedade, afinal, não tenho anseio de ser dessa raça. Além do mais, há o fato de que o escritor tem que escrever e tudo o que mais procuro é justamente a leveza do não ter que, a liberdade. Quer coisa pior do que escrever sob pressão? Pois. E o escritor o faz! Alguns até, vertiginosamente. Vale frisar, entretanto, que escritores não seguem cartilhas. Não conheço manuais de "como escrever um livro" ou "como ser escritor". Tadinhos! Escrever, sob suas próprias leis, mandamentos expelidos de uma estética letrada, de uma coerência lógica ou, o pior de todos, de seu próprio inconsciente nebuloso deve ser massacrante. É como pescar o inédito do passado: incoerente, inútil, mas possível. Escritores: flagelos de si mesmos.

Por falar em flagelo, me passa pela cabeça agora a imagem de uns asiáticos fanáticos que se automutilam em devoção a seus deuses. Não sei sobre o assunto, assim como não sei escrever ortoepicamente, nem sei como se explica o incompreensível; porém, em alto relevo me arrisco a dizer que diviso aquilo que conecta os escritores aos fanáticos. Ora, qual a conexão, por que fazem isso? Porque, leitores, não há nada mais valioso para o prazer do que a dor.


Que o prazer se alimenta da cessação da dor, acho que todos vocês já sabem. O prazer do alívio, do não dói mais, do enfim acabou. O que talvez seja novo por aqui, para alguns mais desatentos, é que a dor também se alimenta do prazer.


Explico. Sabe quando temos um dia regado às gargalhadas e dizemos vou ter uma raiva grande amanhã? Geralmente, o dia transcorre feliz, a noite passa serena e raia um novo sol e lá está ela, a raiva justiceira, esperando você abrir os olhos cheia de pimenta pra borrifar. É fatal: um dia você está feliz, noutro não. Não dá pra fugir, pra ser a exceção da regra. Daí a dor dos escritores, a dor dos asiáticos fanáticos, a dor dos masoquistas sexuais, a dor de uma paixão eterna, a dor de um abraço que não voltou mais, a dor da lembrança gostosa. Tornando-nos escravos e senhores de nós mesmos, num ciclo onde para estarmos felizes precisamos vencer a tristeza, que sempre voltará para atormentar a então felicidade, que em algum momento será afetada pela inescapável tristeza, que veio para desfazer uma outra felicidade, vinda de outra tristeza cessada, que nasceu de uma alguma alegria desfeita... 


Sim, mas e agora?


Agora somos Prazeres e Dolores, a nova novela mexicana da vida real. Escrita por você, com direito a capítulos extraordinários, uns incabíveis e alguns outros ainda intragáveis. Num enredo sem graça, mas que nos faz rir por muitas vezes. Com os exageros dos maus atores e as peçonhentas vilãs. Tudo isso girando acerca das duas irmãs, Prazeres e Dolores, que ao longo dos episódios vão dando os tons mais estapafúrdios à história, tornando essa novela da vida real um misto do que ela realmente é: prazer e dor. Onde, apesar de divergirem em opiniões, ambições e atitudes, ambas desde sempre caminham invariavelmente para alcançar lo mismo fin.

3 comentários:

  1. ah esta tristeza ... definitivamente ou aprendemos a conviver com ela e sermos felizes mesmo assim ou estaremos condenados à infelicidade eterna ...

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  2. é, sou escritor e é assim mesmo...

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  3. Ainda acredito que um dia poderei escrever sobre a felicidade, que não haja mais dor, que seja no momento que for propício e que seja cheio de exemplos florais, cheirosos e viciantes. Será que conseguiremos um dia?

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