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Bússula.

Meu amor, sempre me culpei porque nunca escrevi nada especificamente para você. Nunca lhe dediquei um texto ou uma crônica. Nem sequer um versinho! Passei esta madrugada pensando o porquê disso. Por que eu nunca expressei este meu imenso amor por você em palavras? Por que nunca descrevi o quanto você me é cabível, compatível, imprescindível, imbatível!? Por que eu nunca falei que quando eu penso em você, me encho de paz, de bons sentimentos, de boas histórias que vieram e virão? Por que eu jamais me dispus a eternizar em letras que você é o elixir da minha vida, que você me faz uma pessoa mais feliz dia após dia?

Pensando sobre isso me deparo logo com uma longa viagem filosófica que me é tão habitual. Eis o itinerário:

A primeira parada é uma constatação que eu já tinha desde muito tempo: a escrita é uma arte triste. Ele, o ato de escrever (portanto, o de ler também), se atém à tristeza assim como uma lágrima se atém à gravidade. Lógico que há outros caminhos: ora, existe a gravidade zero. Contudo, por aqui – entre o Polo Norte e o Sul – num planeta onde a força gravitacional ainda me prende os pés, eu pouco posso fazer para que minhas lágrimas voem ao invés de pingarem. E foi aí que finalmente notei que um dos motivos de não redigir sobre você é este: você não me traz tristeza.

Noutro ponto dessa viagem cheguei a uma singela conjectura de que o que escrevo é um plano de escape, é o vômito que me estava preso, é a aflição que eu não quero para mim... E você, meu amor, nada tem a ver com isso! Você, eu quero para mim! Não quero te expulsar. Não quero que o que você me faz suma, nunca! Você é o que eu quero manter.

A terceira paragem, quando nesse trem já era anunciada a destinação final, um túnel apareceu e a luz que tanto me assegurava à felicidade simplesmente sumiu e, assim, do nada, como um choque elétrico, todo o percurso dessa viagem tão peculiar fez total sentido: eu tenho medo de perder você.

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