Pular para o conteúdo principal

Dá um tempo! (parte 5)

Parte 4 | Parte 3 | Parte 2 | Parte 1

Um castelo em Miami? Uma viagem pelo mundo? Um Dodge? Investir na bolsa? Calvin Klein? Ou Dolce Gabbana? Sempre se passa pela cabeça comprarmos coisas se, de uma hora para outra, ficássemos milionários. Nas espaçosas mentes de José e Marcelo também ecoavam esses pensamentos. O que talvez não passe na mente de muita gente é o que fazer no exato momento em que sua conta sai do cheque especial e ultrapassa em 30.000.000 % o valor que você ganha por mês.

Os nossos sortudos protagonistas já ciscaram, cacarejaram e até puseram ovos ao telefone, mas e agora? O que fazer? Às 21h16 as lotéricas não lhes avultariam os bolsos. Contudo era preciso comemorar! Trancafiar com cofres de diamantes o tremendo fardo que suas vidas pobres eram.

Seu time ganhou? Acabou o namoro? Ou está desejando aquela deusa? Raiva ou desespero? Não importam os motivos da guerra, beber ainda é mais importante, dizia um velho e embriagado cabeludo. Para aquela dupla, no entanto, a coisa funcionava diferente: primeiro bebe-se e só depois que se bebe de novo. Se lhe conforta o ensejo: bebiam para motivar o mijo.

Foi José quem sugeriu a ideia:

— Vamos ao bar da Kátia? — e pensou maior — Ou melhor: vamos ao Geco PUB?

Astrólogos, psicólogos e até donas de casa ainda não sabem de onde surgiu essa trivial ideia inédita, assim como desconhecem o porquê de José ter perguntado e não exclamado aquelas poéticas frases. Fato é que aos olhares desdenhosos de quem daria adeus aos ônibus, ambos foram para o recanto das notas vermelhas em tempo recorde.

Quando se encontraram, estranharam a si mesmos. Não porque suas fisionomias de quatro horas atrás houvessem se transfigurado, mas porque um nunca sentira aquele perfume tão forte do outro. Comentaram sobre o intenso odor recendido e riram por terem gastado mililitros e mais mililitros daquele que se tornaria o mais chinfrim Leite De Rosas que usariam dali em diante.

Gargalharam. Gargalharam de riqueza. A recém riqueza é a mais eficaz das comédias. E, para não perder o hábito, tornaram às suas importantes divagações:

— Zé, vê se corta esse cabelo. Chitãozinho e Xororó é tão last decade! — e anedotizou — Conheço uma cabeleireira que cobra R$5,00 pelo corte masculino. Se você não tiver a grana, lhe empresto.

O outro revidou:

— E você, vê se compra outro tênis! Esse em que você tanto pisa, daqui a pouco debuta!

Gargalharam. Gargalharam dessa vez um sorriso narcisista, afinal last decade e debutar definitivamente não eram termos que pobres empregariam.

(continua...)

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Tá.

Seu corpo tem a chave dos meus desejos. Seu beijo: língua na minha libido. Peito cheio de aspirações: que também me pira e inspira. Seu jeito, sua voz, seus segredos, seus sussurros, suas taras: tudo. Sem medos ou grilos de mim. Silêncio corrompido pelo seu gemido. Tudo agora tem sentidos: vai e vem. Sua carne boa, sem nervos, no ponto, suculenta. Obrigado, mas sem brigar comigo. Leve levo a sua cintura – que me aprisiona como um bambolê. Seu ciúme: minha alforria. Você talvez não saiba, mas eu sei onde você sente. Afinal, como você vai embora, algo fica pra sempre pra trás. Aliás, você não vai mais embora. Você virou minha pintura, quadro vivo na minha memória. Queria saber desenhar... mas pra quê? Se eu posso escrever sem pontuações as mais diversas versões de como você tá suas FR /sɥa/ verb second-person singular past historic of suer suer -uːə(ɹ) UK US noun Someone who sues; a suitor. suer FR /sɥe/ verb to sweat ...

Vai chover?

— O mal da humanidade está em criar expectativas. — Que mesquinho pensar assim! Há tanta coisa pior do que as expectativas! Veja uma guerra, um tsunami, uma bolsa roubada, uma chacina... — Se não tivéssemos esperanças de que tudo perdurasse, não sofreríamos tanto. É como um bônus aos descontentamentos: veio a guerra e estraçalhou sua sensação de paz eterna ou, não veio a guerra e arruinou suas hipóteses de como tudo iria terminar. — Sinto muito, mas não vejo coerência no que você fala: eu nunca iria querer uma guerra! — Isso é o que você me diz e o que me faz acreditar que você pensa assim. Logo, querer que eu confie no que me diz é ter expectativas sobre o meu reflexo diante do que me lança. — Ainda não compreendo o ponto. — É normal. A expectativa é a coisa mais incoerente do mundo. Ela nunca está no centro, sempre nas laterais, isto é, ou você quebra ou você frustra suas expectativas. — E quem atinge suas expectativas? — É como quem alcançou a utopia. É o que me foi ...

Copo d'água em tempestade.

O clima estava tenso no consultório, mas nem a terapeuta, nem seus fregueses o notariam. Talvez por hábito, talvez por ensejo, afinal, não se vai a psicólogos para compartilhar a primavera. Roberta e Roberto Praça procuravam mais uma vez a brandura na tempestade matrimonial. Pelo menos diziam procurar. E a outra moça da sala lá estava fazendo sua cara de terapeuta. Aquela cara de quem entende tudo e nada ao mesmo tempo. — Acredita, Vanusa, que ele sequer me dá bom dia quando acordo? — Minha mãe dizia que não se precisa dar bom dia àquele com quem se dorme. — Viu? Por que não se casou com sua mãe então? — Tá vendo? — Vendo o quê? Que sua mãe não soube lhe educar? — E vai ser você que vai? — Viu? Você precisa ler mais! — Não comece. Essa água já está na fossa, virou chorume. — Quanta amargura! Aposto que a sua fotografia da água teria chifres. — Virou para a psicóloga e continuou — Vanusa, ele está falando do livro que comecei a ler. De um cientista que afirma que a á...