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Bom partido.

A diferença entre nós, palhaços, é que eu ganho dinheiro.
É engraçado ver como brasileiro é empenhado no esportividade televisiva. Basta passar na TV e lá estão todos exibindo seus brasões amabilíssimos no único intuito do júbilo próprio, como se todos tivessem de engolir o incrível esforço de gritar na frente de um tubo de imagens. Na política não é diferente. A maioria dos tupiniquins faz alarde ao expressar em quem vai votar. Ou em quem não vai votar. E com o mesmo esmero dos torcedores para que todos engulam a opinião absoluta. Eu disse opinião? Quis dizer verdade.

Talvez a única discrepância entre o buzinar pelas ruas da cidade quando seu time ganha o campeonato e o buzinar por essas mesmas ruas numa carreata é o sentido poético, humanitário e libertador. Sim: o futebol é, acima de tudo, arte. É o próprio espírito carnavalesco que baixa nos seus torcedores deixando-os endemoniadamente — e gratuitamente — felizes, completos... bêbados e vândalos.

Brasil, carnaval, futebol. É tudo igual. Sinônimo mesmo. Já a política, não.

A política é feia, é farsante. É a tenda armada onde você está no picadeiro, sem ganhar um tostão, fingindo ter atenção. Antes fosse uma folga da vida, como o carnaval-futebol! A começar pela obrigação. Não há como ser obrigado a ser alegre. Alegria se opta — inteligência, não (mas isso não vem ao caso).

Antes que você se exalte, retifico: certamente houve um tempo em que ir às ruas significava algo além da pompa trioelétrica. O período em que sabíamos que se quiséssemos, poderíamos isso, isso e aquilo. Contudo, as ruas de hoje entupidas de “49 123, vote Teresa, a deputada de vocês” estão vazias de sentido, tal qual esse jingle.

Por falar em vazio, o que se passa na cabeça de alguém que explicita seu voto pelo seu carro? Alguns recebem dinheiro, outros recebem cargos, entretanto a maioria não recebe nada: só paga. Paga por ser um minioutdoor ambulante com uma mensagem oca de um político oco num carro oco cujo dono é... Sorte a minha que você, leitor, não tem um adesivo desses no seu carro... Ok, mas aposto que se tivesse um carro, não colocaria, não é mesmo?

Desculpe minha ironia. Minha intolerância ainda vai me matar. Porém não sou de todo um mal. Sou, na verdade, um intolerado, porque sei lidar com as diferenças, mas não lidam bem com as minhas. Por exemplo, ocorreu-me agora um episódio vivido por uma personagem minha. Ela e seu melhor amigo, gay, conversavam sobre suas iras.

— Você também tem ódio de mim.

— Eu não tenho ódio de você!

— Tem sim, porque eu sou gay.

— Não tenho ódio por causa disso.

— Admitiu: tem ódio.

— Você entendeu...

— Você tem ódio, porque se eu não fosse gay, estaríamos juntos.

— Ah, é mesmo...

— Mas tem aquele bom partido ali, olhe: tem carro, é bonito... escuta forró... vota em Teresa.

Sim. É verdade: ficou mais nítido agora que eu sou mais intolerante do que intolerado. Eu mesmo não me tolero. Pra começar detesto meu nome. Vote Tércio, 42 444. Tércio, 42 444. Onde já se viu!? Tércio!? Que nome ridículo.

Comentários

  1. Haha, belos insights aqui, cara. Algumas opniões que você tem eu também tenho (embora eu não soubesse que as tinha até ler isso aqui).

    Texto maravilhosamente bem construido, com timing, pancada e grand finale.

    É como você disse pra mim:

    "Continue... continue..."

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