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No tocafitas

Ele saiu de casa e, no fundo no fundo, essa frase mexia com ele. Era como se algo estivesse dessintonizado. Ao sair de casa era como se lhe tirassem tudo, mas o seu teto era de estrelas e o seu chão de giz. A questão se situava onde a pergunta se escondia: onde era essa casa? O planeta Terra era sua casa? Faltava-lhe um lar? Talvez todas as dúvidas fossem certezas e certamente todas as certezas eram duvidosas. Vira esse disco! Atravessando os agoras, ele se embananava com o tempo, mas acabou por aprender a dar aquele abraçaço em todas as suas frequências. Doía-lhe demais despir-se do ego. Perguntava-se até se precisava vê-lo nu, se precisava penetrá-lo. Não podes pensar! Aje! Ele já agiu sem pensar e pensou demais sem agir. Sinal fechado. Não foi dessa vez. Ele saía de casa a toda hora. "A casa é sua!" Toda casa é casa. Ele procura lares. Quem sabe não é agora!? Quem sabe? Será só imaginação? Tenho medo de pirar... Dizem que sou louco, mas não somos todos? Tenho uma dúvida pu...

Dois amarelos

E eis que de tanto me perder, acabo me encontrando. Na inconstância, na incerteza acho um novo desafio: vencer-me por mim mesmo. Não é tarefa fácil, dá pra imaginar. De um lado há uma derrota inevitável, mas do outro há uma gosto de vitória inexplicável. O que não dava mais era o empate. Venci. Perdi. Vibrei de novo, chorei também. E eis que de tanto me achar, tinha-me perdido de mim. Andava com uma desesperança orgulhosa que só me fazia ponderar. Nada tinha graça. Era um eterno nadar no raso. Era um empate chocho, um zero a zero com muitas faltas cometidas, bolas foras sem chances de gol. E eis que de tanto procurar, acabo encontrando – cartão vermelho – um amor.

Falso controle

Tão importante quanto aprender a amar, é aprender a deixar ir. É como se o apego e o desapego estivessem em dois lados de um cabo de guerra, de onde você sairá vencedor de qualquer forma. A sorte é quem decide qual lado vai puxar mais. Deixar-se para lá é uma opção cruel consigo. Levar-se tão a sério, também. Manter um lado do cabo de guerra imbatível enfraquece o lado oposto e você vai acabar perdendo por não manter o REAL equilíbrio. Entregue-se com prudência. Contenha-se sem moderação. A vida é muito curta para você estar sempre certo e torna-se muito longa se você sempre erra consigo. Acerte. E erre.

Sobre escrever

A primeira coisa que me vem à mente quando penso sobre o porquê de escrever é o sentimento de angústia. É esse sentimento de angúsita o responsável pelo exercício da escrita. Não diria, entretanto, que escrever seja uma arte angustiante. Afinal, coisas de conteúdo muito pródigo podem advir com a escrita também. Falo apenas do fato que aquele que escreve (que nem sempre é escritor) tem em si algo entalado na garganta, apertando o peito e que lhe motiva impreterivelmente a escrever. A arte da escrita, para mim, é consolidada na resolução da angústia. Sim: a angústia é um quebra-cabeça cujas peças você tarda a encaixar. E esse tardar, essa sensação de perda de tempo que a demora causa começa a se dissipar quando a explanação ocorre de modo fluido e, principalmente, honesto. A escrita é a angustiante saga para correr contra o tempo em solucionar questões da alma, questões que você quer e precisa explanar para si mesmo, pra entender de outra visão como também para dimensionar suas causas....

Não chore, homem!

Que mundo é esse, vó, em que a gente tem que fingir que não sente nada pelo que o outro nos causa? Que mundo é esse onde a afeição é apedrejada e a apatia rejubilada? Onde estão os nossos semelhantes, vovó? Pra que se viver num mundo assim, vovó? Por que falar de amor virou algo tão censurável? A partir de quando esse mundo, vovó, se tornou um lugar tão horrível de se viver? Quero voltar, quero fugir, quero sair daqui! Lugar qualquer onde sentir não seja um defeito e sim uma qualidade. Eu não mereço isso daqui, vó! Por que as pessoas se orgulham em ser opacas, se há tanto mais a se ver com a translucidez!? Essas pessoas estão magoadas? Quem foi capaz de fazer tanto mal a elas a ponto de as tornar assim, tão desumanas? Vovó, como a gente faz para desconstruir esse ciclo? Como convencer que atenção, respeito e afeto são mais valiosos do que insensibilidade, secura e empáfia? Vamos reverter essas pessoas, vovó! Ai, vovó, acho que me atingiram também. E é tristeza. É tristeza que esse ...

Vida diet

Com a maturidade batendo à porta, novas questões vão se estruturando. Problemas novos com velhas roupagens dramáticas ainda desfilam na passarela. Os holofotes só mudam de cor, mas a sensação – embora pensemos ser distintas – ainda continua sendo a mesma. A dor continua sendo dor. A lágrima continua aliviando. O que muda com a maturidade, talvez, seja a percepção. E é justamente essas novas percepções, essas novas maneiras de vermos a vida que nos levantam essas novas questões. Eis que me deparo com uma situação completamente nova e, acredito, relevante em tempos de tanta reflexão. Questiono-me sobre até onde é necessário sermos pragmáticos com nossas vidas. Quão previsível nós ficamos? Ou quão instável nos tornaríamos sem o pragmatismo? Habita em mim um questionamento que de tão incômodo não consigo parar de lhe repetir, dedicando-lhe até um extenso período composto. Cheguei a um ponto que me questiono sobre o valor e o preço da disciplina. Quanto vou gastar de vida perdida e sem...

Nós, por exemplo

Ouço o burburinho lá fora. Hoje até os grilos resolveram tagarelar com os motores. Os morcegos acompanham a música estranha de uma festa distante. Escuto-os todos. A agonia de saber que há tanta vida lá fora e nada aqui dentro me azucrina. Falo comigo mesmo. Palavras que nunca deveriam ser ditas. Não ouço o som da minha própria voz. Meu cérebro negligencia minha voz. Aliás, não só a ela. Todo meu corpo, toda meu empenho, tudo que eu sou, e fui, e tenho capacidade de ser meu cérebro também negligencia. Eu me boicoto. A vaidade me enobrece até certo ponto. Sinto que estou nesse ponto. Tenho certeza de que posso voltar a ser o que era antes ou ir ao que quero ser depois. Também sei que nenhum autocontrole é pleno. Começo a ter mais consciência de mim, apenas. É verdade: às vezes a vaidade me é demais, às vezes de menos. Porém hoje, excepcionalmente hoje, ela está na medida certa. Não consigo ainda pensar qual é essa quantidade certa de vaidade. Inclusive, não sei nem se é vaidade o nome...