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Miau?

Você é o nome do gato do vizinho. E desse condomínio, o único gato é ele. Talvez no quarteirão, talvez no bairro existam outros, mas só Você mia na minha varanda, logo só há Você. Você nunca me incomodou. Ele é, apesar de só ouvi-lo, de poucos miados. Conhecedor ou não, Você me dá certa confiança a qual nenhum outro gato me dera. Sabe um fungo que nasce do nada? São assim meus sentimentos por Você — tal como ele apareceu: instantâneo, dengoso, derradeiro. Minha alergia aos seus muitos pêlos foi contornada pelo seu ronrom suave — não me pergunte como. Dono de vários lares, Você era nômade corporal, mas um exímio sedentário cardíaco. Você tinha tudo para ser apenas mais um gato, entretanto, com Você era tudo incrivelmente diferente. Era... Pobre Você! Caiu do sétimo andar. Pensei que ele também soubesse voar. Você não teve culpa, muito menos eu! A culpa é dos engenheiros, dos pais de Você, do vizinho ou de todos. O que Você diria? Acho que ele sabia o que fazia... Balela! Mania fei...

Silencia-dor.

Quanto mais o relógio tiquetaqueava, mais a anestésica ideia de tempo perdido o consumia. Era como se uma âncora, chamada passado, desconstruísse e afundasse aquele que outrora desbravava a nado os sete mares dos pecados. Mas, apesar disso, seus pulmões, desumanamente resistentes, de nada se queixavam, visto que a apneia o aproximava da paz suprema que a morte trazia: o silêncio. O silêncio é o som universal dos humanos. Apesar de muitos falarem, apenas a mudez é unânime. Porque gostamos do meio-termo, da sua dúvida, da nossa imaginação. No íntimo, estamos sós, calados com nós mesmos, resignados ao estrondoso eco da alma. Pois as perguntas imperecíveis, as verdades dubitáveis, a concreta e insuportável peremptoriedade das opiniões flácidas: tudo converge às indigestas palavras. A escrita é a arte triste. Há milhares de anos o homem tenta transcorrer pelo papel sua humanidade, contudo se choca graças, justamente, a sua defectiva e incompreensiva humanidade. Daí a amargura dos romancis...

Não leve a mal.

Eu tenho que evoluir? Quem disse que eu tenho? Quem disse que eu quero? Por que devo ir em busca desse disfarce tolo do superei — ou como os mais hipócritas gostam de dizer —, do te arquivei num lugar bom? Não! Eu não quero. Simplesmente me recuso a esse recalque travestido, fingido, forçado, social. Prefiro o meu velho, bom e francês recalque. Aqueles das dores infinitas, dos pra-sempres revividos, do diariamente triste. É certo que minha vida é curta demais para ter só tristeza, mas também é efêmera para essas alegrias demagógicas. Deixe-me assim, com meu desamor sincero. Já sei do que vou me lembrar no futuro e agradeço sua boa intenção.

Sobre sentir.

Dizem que a dor da saudade são mimos do ego: queremos sentir novamente aqueles holofotes de pensamentos do outro esquentando nossas peles. Dizem que no fundo só estamos reavivando o que jaz morto e essa ressurreição tem o único propósito de nos massagear o coração... e apunhalá-lo dois segundos depois num ciclo sadomasoquista. Eu não discordo deles, afinal não tenho espaço para mais embates inúteis. Nessa matéria sou realmente um desistente. O que é de se levantar, contudo, é a serventia dessas pessoas que não amam, mas querem ditar o amor. Aquilo que eles falam é hipotético, falso, desonesto e, muitas vezes, nos é impelido goela abaixo. Como por exemplo, algum filósofo russo poliglota que balbucia num português intrincadíssimo e, ao termos entendido alguma mísera lógica, nos rejubilamos e creditamos toda confiança a uma frase certamente banal: “o amor é importante”. Oh, você conhece Cocorotovski! É como se sentir fosse uma porta para o sucateamento do sentimento. 'Que a partir de ...

Vai chover?

— O mal da humanidade está em criar expectativas. — Que mesquinho pensar assim! Há tanta coisa pior do que as expectativas! Veja uma guerra, um tsunami, uma bolsa roubada, uma chacina... — Se não tivéssemos esperanças de que tudo perdurasse, não sofreríamos tanto. É como um bônus aos descontentamentos: veio a guerra e estraçalhou sua sensação de paz eterna ou, não veio a guerra e arruinou suas hipóteses de como tudo iria terminar. — Sinto muito, mas não vejo coerência no que você fala: eu nunca iria querer uma guerra! — Isso é o que você me diz e o que me faz acreditar que você pensa assim. Logo, querer que eu confie no que me diz é ter expectativas sobre o meu reflexo diante do que me lança. — Ainda não compreendo o ponto. — É normal. A expectativa é a coisa mais incoerente do mundo. Ela nunca está no centro, sempre nas laterais, isto é, ou você quebra ou você frustra suas expectativas. — E quem atinge suas expectativas? — É como quem alcançou a utopia. É o que me foi ...

Confusa.

Pensei em escrever algo enquanto minha amiga não chegava à minha casa. Eu a chamei porque me sinto fraca. Estranha, na verdade. Nunca senti isso antes: uma sensação tão confusa que não consigo chorar ou rir, sentir fome ou vomitar. Odeio esses dias. E eles estão ficando recorrentes. Me sinto uma estranha dentro de mim. Mas até que dizer essas palavras ajudam. Desculpe a desconexão desse texto, só sei pensar assim. Agora crio uma gata. Ainda não sei o nome que vou dar. Ela é linda! Tá brincando nesse momento com um pano de chão. Ela tem me feito bem, apesar das fezes podres. Eu durmo com ela na cama mesmo. Ela é carinhosa e se não for, vou fazê-la ser. Odeio isso em mim: forçar os outros. Por um instante vejo-me como um alguém que conheço: minha gata. O gato ronrona no seu pé pra pedir. E ele enjoa. Gosto dela. Ela se parece comigo. Eu sou tão complicada, né? Tão egoísta. Ajo sem pensar nos outros. Mas é que se eu pensar nos outros antes de agir, não me sinto honesta nem com os outros –...

A caixa da sabedoria.

Era uma vez numa ilha deserta, um náufrago. Fazia tanto tempo que morava ali sozinho que ele já não sabia de sua origem ou o que havia além das imensidões azuis. A adaptação, por assim ser, sitiou seus pensamentos. Ou, em outras palavras, a acomodação exilou o que era desnecessário. As únicas coisas que ele sabia por ali era o que lhe podiam ensinar. E, tendo o sol como guia, aprendeu a ter disciplina, foco e determinação; tendo a lua como conselheira, passou a compreender suas fases e o que elas significavam; tendo as plantas como exemplo, descobriu que boas safras levam muito tempo para acontecer. Tudo cíclico, natural e desumano. Por ser rei de um reino inóspito, o náufrago encheu-se de si para tornar-se Deus. O Homem é o deus do Homem. O Homem é o deus do deus. Suas crenças tornaram-se reais; suas idéias, leis; e seus desejos, o bem geral da nação. Muitos anos se passaram e seu conforto só ia aumentando, até que ele havia se conformado supremo: a chuva caía assim, o gramado cre...