Pular para o conteúdo principal

Sobre sentir.

Dizem que a dor da saudade são mimos do ego: queremos sentir novamente aqueles holofotes de pensamentos do outro esquentando nossas peles. Dizem que no fundo só estamos reavivando o que jaz morto e essa ressurreição tem o único propósito de nos massagear o coração... e apunhalá-lo dois segundos depois num ciclo sadomasoquista. Eu não discordo deles, afinal não tenho espaço para mais embates inúteis. Nessa matéria sou realmente um desistente.

O que é de se levantar, contudo, é a serventia dessas pessoas que não amam, mas querem ditar o amor. Aquilo que eles falam é hipotético, falso, desonesto e, muitas vezes, nos é impelido goela abaixo. Como por exemplo, algum filósofo russo poliglota que balbucia num português intrincadíssimo e, ao termos entendido alguma mísera lógica, nos rejubilamos e creditamos toda confiança a uma frase certamente banal: “o amor é importante”. Oh, você conhece Cocorotovski!

É como se sentir fosse uma porta para o sucateamento do sentimento. 'Que a partir de agora, todo sentimento vivo esteja fadado a definhar, pois é popular, explícito e comum!'

Não entendo esse amuamento das pessoas quando o quesito é amor. Não quero explicar ou entender o amor (muito menos as pessoas), isso é realmente desnecessário. A ordem do texto é outra: por que esse secretismo todo acerca do dito cujo? Falar de amor virou o novo arranhar quadro negro: ninguém suporta. Então por isso lanço o desafio de me ler.

Amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor, amor.

Viu como é normal? ‘Viva!’ também é uma frase banal.

Comentários

  1. Esse seu neologismo, "secretismo", me fez pensar em duas hipóteses: 1) seu texto se refere a algo que é mantido em segredo; 2) seu texto se refere a algo que é fruto de secreção.

    ResponderExcluir
  2. gostei mto
    mto mesmo
    mas eu sou super supeito
    afinal sou fã...

    ResponderExcluir
  3. Li até o 28o. amor. Aí meu nível de glicose subiu a níveis diabéticos e parei. :-) Mentira - belo texto!

    ResponderExcluir
  4. To meio sem palavras pra comentar. Acho meio engraçado como tudo se resume ao amor. Importante, imprescindível, e ao mesmo tempo descartável.

    Não sei articular as palavras. Você me calou.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Tá.

Seu corpo tem a chave dos meus desejos. Seu beijo: língua na minha libido. Peito cheio de aspirações: que também me pira e inspira. Seu jeito, sua voz, seus segredos, seus sussurros, suas taras: tudo. Sem medos ou grilos de mim. Silêncio corrompido pelo seu gemido. Tudo agora tem sentidos: vai e vem. Sua carne boa, sem nervos, no ponto, suculenta. Obrigado, mas sem brigar comigo. Leve levo a sua cintura – que me aprisiona como um bambolê. Seu ciúme: minha alforria. Você talvez não saiba, mas eu sei onde você sente. Afinal, como você vai embora, algo fica pra sempre pra trás. Aliás, você não vai mais embora. Você virou minha pintura, quadro vivo na minha memória. Queria saber desenhar... mas pra quê? Se eu posso escrever sem pontuações as mais diversas versões de como você tá suas FR /sɥa/ verb second-person singular past historic of suer suer -uːə(ɹ) UK US noun Someone who sues; a suitor. suer FR /sɥe/ verb to sweat ...

Vai chover?

— O mal da humanidade está em criar expectativas. — Que mesquinho pensar assim! Há tanta coisa pior do que as expectativas! Veja uma guerra, um tsunami, uma bolsa roubada, uma chacina... — Se não tivéssemos esperanças de que tudo perdurasse, não sofreríamos tanto. É como um bônus aos descontentamentos: veio a guerra e estraçalhou sua sensação de paz eterna ou, não veio a guerra e arruinou suas hipóteses de como tudo iria terminar. — Sinto muito, mas não vejo coerência no que você fala: eu nunca iria querer uma guerra! — Isso é o que você me diz e o que me faz acreditar que você pensa assim. Logo, querer que eu confie no que me diz é ter expectativas sobre o meu reflexo diante do que me lança. — Ainda não compreendo o ponto. — É normal. A expectativa é a coisa mais incoerente do mundo. Ela nunca está no centro, sempre nas laterais, isto é, ou você quebra ou você frustra suas expectativas. — E quem atinge suas expectativas? — É como quem alcançou a utopia. É o que me foi ...

Caminhos

Ainda me pergunto onde é a fronteira entre raiva e tristeza. Heranças da relação, promessas inescapavelmente fugitivas, mais um crime sem solução… Vários são os caminhos dessa longa estrada. Como as visões distorcidas da vida após a morte. Afinal, zumbis só se alimentam no imaginário. Mas o que é viver senão um passeio no mundo dos pensamentos? Viajo por entre memórias e projeções. Percebo o óbvio: só tenho esse presente. Uma bússola estática me navega desde o Norte até este Janeiro. Ela me aponta raivas e tristezas. Não somente as que vivi, mas sobretudo as que com prazer compartilhei. Eu me esforço muito para discernir quais sentidos — raiva ou tristeza — eu devo ou posso seguir. Entro na contramão de vez em quando. Atalhos da vida linear. Mudo de marcha e meu câmbio sempre me impulsiona ao exterior. Belos horizontes despontam novas experiências. Não só excrucia ou extermina o melhor de mim, mas também excita e exercita. Percebo o que a estrada sempre quis mostrar: o caminho a frente...