Pular para o conteúdo principal

Velha e louca.

Mais cedo ou mais tarde você tardará por escolher um bom caminho, depois de ter escolhido no passado um mau – eu sei disso. Todas as questões, todos os embates, todas as bifurcações que passarão pelo seu caminho levam a outras questões, embates e bifurcações. E você só saberá da estrada quando a tiver concluído. Não há outra, porque afinal, da vida só sabe quem viveu. Só há um meio de você descobrir o que tem além da morte. Só há uma escolha feita nisso tudo: viver... ou morrer. E não há certo ou errado para qualquer uma dessas escolhas. Ou se está vivo ou se está morto.

E eu... como não estou morto, vivo. Opto por não ter medo do ridículo. Porque acho que ridículo mesmo é se aprisionar, é acusar, é reprimir aquilo que se é – e apenas é. O verbo ser nada mais é que um Ser – ele não precisa se explicar. Ele pode simplesmente ser (o que ele quiser). Ridículo é isso: é negar a sua condição humana como Ser Humano.

Afinal, só porque vejo isso é motivo para eu ser o único culpado de um crime que todos cometem, mas fingem que não cometem? Eu, meu filho, demorei a atinar pra isso. Veja, você nasce em pecado e disso não dá pra negar. Ora! Você nasce com uma dívida social já de início com seus pais e familiares. E nem por isso você cogitou que tudo que ocorre ao seu redor é também responsabilidade sua. Ou seja, você não se bancou de vítima da situação, porque a situação também existe por sua causa.

Portanto, reveja. Reveja tudo que você fez e não se importe se está cometendo um erro, porque o erro é o acerto do futuro. E por falar em futuro, faça sua parte e esteja sempre em comum acordo com a sua situação, afinal de contas, as bifurcações existem para você poder escolhê-las, onde mais cedo ou mais tarde algo dentro de você te fará escolher uma má. E é sobre isso, sobre esse “algo dentro de você” a causa desse grande estardalhaço na sua vida! Sobre essa sensação de não estar fazendo aquilo que queria.

Uma frustração a mais ou a menos, filho, virão – são inevitáveis. Quanto mais velho, mais frustrações, mais dores – portanto desfrute a sua graça de viver! O estardalhaço só existe mesmo porque você não se aceita. Pra aqueles que estão do outro lado, deixe-os falar.

Escute os mais velhos, mesmo que eles sejam você mesmo. Dizem que depois de velha comecei a ficar gagá. São eles, meu neto... São eles que querem me levar pro asilo! Diga-lhes pra mim, conte pra eles que não sou louca!


Comentários

  1. Fantástico como sempre: "Uma frustração a mais ou a menos, filho, virão – são inevitáveis. Quanto mais velho, mais frustrações, mais dores – portanto desfrute a sua graça de viver! O estardalhaço só existe mesmo porque você não se aceita. Pra aqueles que estão do outro lado, deixe-os falar."

    Comentar o que?

    ResponderExcluir
  2. Tb não sei o que comentar.
    Tanta sabedoria numa cabecinha sem nenhum cabelo branco ainda.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Tá.

Seu corpo tem a chave dos meus desejos. Seu beijo: língua na minha libido. Peito cheio de aspirações: que também me pira e inspira. Seu jeito, sua voz, seus segredos, seus sussurros, suas taras: tudo. Sem medos ou grilos de mim. Silêncio corrompido pelo seu gemido. Tudo agora tem sentidos: vai e vem. Sua carne boa, sem nervos, no ponto, suculenta. Obrigado, mas sem brigar comigo. Leve levo a sua cintura – que me aprisiona como um bambolê. Seu ciúme: minha alforria. Você talvez não saiba, mas eu sei onde você sente. Afinal, como você vai embora, algo fica pra sempre pra trás. Aliás, você não vai mais embora. Você virou minha pintura, quadro vivo na minha memória. Queria saber desenhar... mas pra quê? Se eu posso escrever sem pontuações as mais diversas versões de como você tá suas FR /sɥa/ verb second-person singular past historic of suer suer -uːə(ɹ) UK US noun Someone who sues; a suitor. suer FR /sɥe/ verb to sweat ...

Vai chover?

— O mal da humanidade está em criar expectativas. — Que mesquinho pensar assim! Há tanta coisa pior do que as expectativas! Veja uma guerra, um tsunami, uma bolsa roubada, uma chacina... — Se não tivéssemos esperanças de que tudo perdurasse, não sofreríamos tanto. É como um bônus aos descontentamentos: veio a guerra e estraçalhou sua sensação de paz eterna ou, não veio a guerra e arruinou suas hipóteses de como tudo iria terminar. — Sinto muito, mas não vejo coerência no que você fala: eu nunca iria querer uma guerra! — Isso é o que você me diz e o que me faz acreditar que você pensa assim. Logo, querer que eu confie no que me diz é ter expectativas sobre o meu reflexo diante do que me lança. — Ainda não compreendo o ponto. — É normal. A expectativa é a coisa mais incoerente do mundo. Ela nunca está no centro, sempre nas laterais, isto é, ou você quebra ou você frustra suas expectativas. — E quem atinge suas expectativas? — É como quem alcançou a utopia. É o que me foi ...

Copo d'água em tempestade.

O clima estava tenso no consultório, mas nem a terapeuta, nem seus fregueses o notariam. Talvez por hábito, talvez por ensejo, afinal, não se vai a psicólogos para compartilhar a primavera. Roberta e Roberto Praça procuravam mais uma vez a brandura na tempestade matrimonial. Pelo menos diziam procurar. E a outra moça da sala lá estava fazendo sua cara de terapeuta. Aquela cara de quem entende tudo e nada ao mesmo tempo. — Acredita, Vanusa, que ele sequer me dá bom dia quando acordo? — Minha mãe dizia que não se precisa dar bom dia àquele com quem se dorme. — Viu? Por que não se casou com sua mãe então? — Tá vendo? — Vendo o quê? Que sua mãe não soube lhe educar? — E vai ser você que vai? — Viu? Você precisa ler mais! — Não comece. Essa água já está na fossa, virou chorume. — Quanta amargura! Aposto que a sua fotografia da água teria chifres. — Virou para a psicóloga e continuou — Vanusa, ele está falando do livro que comecei a ler. De um cientista que afirma que a á...