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Sobre escrever

A primeira coisa que me vem à mente quando penso sobre o porquê de escrever é o sentimento de angústia. É esse sentimento de angúsita o responsável pelo exercício da escrita. Não diria, entretanto, que escrever seja uma arte angustiante. Afinal, coisas de conteúdo muito pródigo podem advir com a escrita também. Falo apenas do fato que aquele que escreve (que nem sempre é escritor) tem em si algo entalado na garganta, apertando o peito e que lhe motiva impreterivelmente a escrever. A arte da escrita, para mim, é consolidada na resolução da angústia. Sim: a angústia é um quebra-cabeça cujas peças você tarda a encaixar. E esse tardar, essa sensação de perda de tempo que a demora causa começa a se dissipar quando a explanação ocorre de modo fluido e, principalmente, honesto. A escrita é a angustiante saga para correr contra o tempo em solucionar questões da alma, questões que você quer e precisa explanar para si mesmo, pra entender de outra visão como também para dimensionar suas causas....

Não chore, homem!

Que mundo é esse, vó, em que a gente tem que fingir que não sente nada pelo que o outro nos causa? Que mundo é esse onde a afeição é apedrejada e a apatia rejubilada? Onde estão os nossos semelhantes, vovó? Pra que se viver num mundo assim, vovó? Por que falar de amor virou algo tão censurável? A partir de quando esse mundo, vovó, se tornou um lugar tão horrível de se viver? Quero voltar, quero fugir, quero sair daqui! Lugar qualquer onde sentir não seja um defeito e sim uma qualidade. Eu não mereço isso daqui, vó! Por que as pessoas se orgulham em ser opacas, se há tanto mais a se ver com a translucidez!? Essas pessoas estão magoadas? Quem foi capaz de fazer tanto mal a elas a ponto de as tornar assim, tão desumanas? Vovó, como a gente faz para desconstruir esse ciclo? Como convencer que atenção, respeito e afeto são mais valiosos do que insensibilidade, secura e empáfia? Vamos reverter essas pessoas, vovó! Ai, vovó, acho que me atingiram também. E é tristeza. É tristeza que esse ...

Vida diet

Com a maturidade batendo à porta, novas questões vão se estruturando. Problemas novos com velhas roupagens dramáticas ainda desfilam na passarela. Os holofotes só mudam de cor, mas a sensação – embora pensemos ser distintas – ainda continua sendo a mesma. A dor continua sendo dor. A lágrima continua aliviando. O que muda com a maturidade, talvez, seja a percepção. E é justamente essas novas percepções, essas novas maneiras de vermos a vida que nos levantam essas novas questões. Eis que me deparo com uma situação completamente nova e, acredito, relevante em tempos de tanta reflexão. Questiono-me sobre até onde é necessário sermos pragmáticos com nossas vidas. Quão previsível nós ficamos? Ou quão instável nos tornaríamos sem o pragmatismo? Habita em mim um questionamento que de tão incômodo não consigo parar de lhe repetir, dedicando-lhe até um extenso período composto. Cheguei a um ponto que me questiono sobre o valor e o preço da disciplina. Quanto vou gastar de vida perdida e sem...

Nós, por exemplo

Ouço o burburinho lá fora. Hoje até os grilos resolveram tagarelar com os motores. Os morcegos acompanham a música estranha de uma festa distante. Escuto-os todos. A agonia de saber que há tanta vida lá fora e nada aqui dentro me azucrina. Falo comigo mesmo. Palavras que nunca deveriam ser ditas. Não ouço o som da minha própria voz. Meu cérebro negligencia minha voz. Aliás, não só a ela. Todo meu corpo, toda meu empenho, tudo que eu sou, e fui, e tenho capacidade de ser meu cérebro também negligencia. Eu me boicoto. A vaidade me enobrece até certo ponto. Sinto que estou nesse ponto. Tenho certeza de que posso voltar a ser o que era antes ou ir ao que quero ser depois. Também sei que nenhum autocontrole é pleno. Começo a ter mais consciência de mim, apenas. É verdade: às vezes a vaidade me é demais, às vezes de menos. Porém hoje, excepcionalmente hoje, ela está na medida certa. Não consigo ainda pensar qual é essa quantidade certa de vaidade. Inclusive, não sei nem se é vaidade o nome...

Textão.

Vivo na brevidade do fim dos tempos. Na iminência de que o mundo desapareça numa notícia-bomba. Explodo na efervescência dos zapes e implodo no avesso das pazes. Vivo no meio do meu último nome! Busco calma no alvoroço desconexo do meu pensar. Pelo menos tento. Porque meu pensar, coitado!, vive não se sabe onde. Tão volúvel, tão instável, tão ingênuo e, por isso, tão doente... Queria ter algo legal para pensar: algo extasiante. Mas a brevidade do fim dos tempos assola qualquer ideia. Só sinto pânico e ansiedade pela necessidade de querer fazer tudo que me falta fazer já que os tempos estão acabando. Nada de bombas-relógio, todos os relógios é que viraram bombas! Dividir bons momentos agora é compartilhar, é número, é estatística. Tudo se tornou Instantaneamente-gram! É uma obrigação. O social se separou da sociedade e vivemos como se fosse The Sims (ou seria The Nãos?), sem remelas ao acordar, com respostas padronizadas (mas com estilísticas distintas), com éticas padronizadas...

Arritmia.

Não sei como é, nem sei como seria, tampouco como será. Só sei como foi. E que foi bom. E que foi ruim. E foi tudo. Como eu e você: vítima e algoz, algoz e vítima, respectiva, inversa, reciprocamente. Eu faço mal a você, te incinero, te sugo, te exploro, te uso, te mato na unha e no fim te jogo fora. Você também faz o mesmo por mim, me envolve, me mal acostuma, me mima, me usa, me tira o fôlego, me apraz e no final me abandona. Completamos um ao outro com a ausência. Às vezes acho que procuramos meios para não encararmos tantos finais. Fingimos que esquecemos de lidar com a ideia que o meio passou e que já estamos pra lá da metade do caminho (seja lá quão longa essa estrada for). Eu numa ponta, você na outra. Em direções opostas do mesmo verbo: ora eu aspiro, ora você expira, ora eu expiro, ora você aspira. Mas algo nos une. Há algo, mais forte, muito mais forte que eu e você, que nos liga, nos obriga, cria entre nós uma relação mutualista, dualista, masoquista. Não sei até onde vai ...

Transição.

Vencer um grande medo é a sensação mais difícil e talvez mais prazerosa que se pode ter na vida. Vide, por exemplo, o medo da morte. Se pensássemos no que ganharíamos caso perdêssemos a vida, talvez não pensássemos tanto no que perderíamos caso ganhássemos o direito de chegar do outro lado. Encarar essa balança de riscos é sim o desafio mais estarrecedor que precisamos enfrentar. Atirar-se ao inesperado traz consigo maus presságios, inevitavelmente. Igualzinho à morte. Arriscar-se é tão doloroso assim, porque nos tira do conforto do previsível. Você não quer isso pra sua vida, no fundo, mas isso está sempre lá, constituindo cada átomo de sanidade e insanidade da sua existência. O onipresente prazer angustiante que o medo traz é excitante e, ao mesmo tempo, excruciante. É o medo que tentamos evitar, mas que sempre está lá. Em tudo. No que desejamos, no que sentimos, no que invejamos, no que queríamos, no que imaginamos, no que seria se... A projeção do futuro tem uma obrigação mor...