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Mais amor por amor.

Para mim, inteligência se mede com o quanto se consegue ver os dois lados de qualquer problema-solução. Ou seja, quanto mais empatia você tiver, mais inteligente a meu ver. Meu mundo ideal, aquele que eu procuro onde todos tentem viver em paz, se basearia nessa inteligência para existir. Esse mundo foi o máximo que minha inteligência permitiu imaginar, mas eu acredito obviamente que possa existir outra solução-problema para isso. :)

Oração ao ego.

Minha angústia fazia sentido. Eu estava certo no que previa e você me fazia crer que não. Você me enclausurava as prospecções, você me punia pelas dúvidas, me imbuía de uma culpa intangível por eu pensar assim. E no fim eu estava certo! Nada nem ninguém vai desmentir isso! Não importa quantos argumentos você use, frente aos fatos não há controvérsia! Não pense que eu vou bancar de vítima ou de algoz. Não tenho paciência para esse joguinho que você dizia ser eu que inventava. Não tenho estômago para tanta hipocrisia. Dói, de verdade, a barriga quando penso nesse erro que foi acreditar em você quando você dizia que eu estava errado. Eu fui estúpido pela minha empatia, pela minha crença pueril de que tudo que eu pensava estava mesmo errado, era invenção. Agora vejo que eu não era um lunático por ver seu desejo cruel em me ver mal! Só agora percebo o quanto tudo aquilo que eu falava era verdade e que você no fundo sabia que era verdade, mas me negava pelo simples prazer de me ver d...

Asssíduo.

Eu queria ter menos segredos pra contar, menos receios guardados, menos interesses contidos. Eu queria não ter medo de voar, disse a cobra. Eu lembro que quando era pequeno tinha um sonho rotineiro de voar. E cair. Sempre o mesmo sonho: voar e no meio do voo, perder minhas forças, meus super-poderes e despencar em queda livre. Isso me apavorava! Fazia-me perder a paz, tremelicando sobre o meu travesseiro suado a chorar até que o cansaço opioide das lágrimas me vencesse. Ficava a pensar na decepção, na vergonha e na impotência que é ser incapaz de voar no meu próprio sonho. Doce é a infância onde nossos principais medos são os sonhos. Às vezes quando eu me admiro por algo, sinto empatia por essa admiração. E eu não me orgulho disso, nem tenho ojeriza. Confesso que a única coisa que sinto é medo. Um medo social, um medo velado, que é o medo de explodir, de evitar o inevitável e meus segredos, meus dramas, minhas palavras, meus nãos, meus sins viessem todos à tona de uma vez. Meu eu...

Eidético.

Há coisas que não adianta contar, sentir é fundamental. É como uma agonia que uns sentem ao pegar em Bombril, ou que outros têm ao arranhar de um quadro, ou lixas de unha... Não descreve-se uma agonia, senti-la é fundamental. Paixões também são assim. Não dá para simplesmente descrever o porquê de se estar apaixonado. Ora! Você acha que seria fácil não se apaixonar por alguém pra quem seu coração faz tuntum ? Podem dizer, “Ah! Mas é lógico que dá para descrever: você acabou de descrever, afinal”. E daí eu pergunto: com que onipotência você pode garantir que estou descrevendo aquilo que senti? Com que prerrogativas, você pode me dizer que sou movido pelas circunstâncias? Quem, dentre tantos semi-deuses, pode medir aquilo que tanto fere ou apazígua no meu peito? Quem define se apazígua ou fere, se nem eu sei discernir!? Sinto muito, mas não importa como a gente tente explicar o inexplicável, é humanamente impossível compreender algo sobre-humano. Por outro lado, parece de uma obvie...

Chá verde.

– Eu queria me matar. – Ora, diga-me uma novidade. – Não paro de pensar nisso. – E qual o problema em pensar nisso? – O problema é que eu amo muitas coisas que deixaria aqui. Muitos sofreriam desolados, muitos desejariam as suas próprias mortes também... – Não se incomode com isso. A gente só sofre pelo que existe e o tempo que lhe fez ser algo, também há de lhe fazer ser nada – uma boa memória... no máximo. Tudo há de passar, inclusive a dor deles... – ... – Inclusive a sua dor passará! Portanto, se o motivo é essa possível dor que você deixaria, sinto informar, mas isso que cê sente é besteira: um dia você está triste, noutro você está feliz, no outro você estará triste, no seguinte, feliz... é assim para todo mundo. – Sim, eu sei. É exatamente isso que não me dá vontade de continuar vivo. É como se eu precisasse me sentir mal pelo mesmo motivo de precisar me sentir bem, ou seja, viver. – Viver é uma contagem regressiva para a morte. Talvez essa competitivida...

Rolezinho.

Um medo bateu. A natureza me alerta do que vem por aí. Um vento ateu s ecou meu suor frio e afins, arruinando assim o que havia das promessas em mim.  Não sinto o chão, porque não caminho nele – apenas piso . O chão e eu estamos em sintonia – queremos marcar. Pisando, impulsionando, transitando, trafegando, granjeando, fluindo e gozando. Era só um vento que me azucrinava. Me recupero. Observo a consciência. Verifico se está tudo bem. Não há muito o que olhar, a rua está deserta, o caminho é conhecido e o medo também. Às vezes eu penso se é só ele, o medo, que me faz sentir assim. Morrer, fugir, largar, deixar, correr e gozar. Caminho em duas vias. Faço promessas para jamais vê-las cumpridas. Crio tarefas para nunca serem atingidas. Mas aí, coloco tudo no asfalto outra vez. E me sinto fajuto, forçado, falso, ferido, feroz. Felino. Passo por dois que me olham, me analisam, me alisam com o olhar. Invadido. Um foge. Medo ou sabedoria? Como ele saberia o que eu iria fazer? ...

Meretíssima,

Vim hoje aqui tentar interceder pelo meu cliente em prova de sua inocência. Eu sei que este já é o último apelo que eu posso fazer e quase tudo alega para que meu cliente seja realmente condenado. Sei que todas as evidências apontam para a sua culpabilidade. Sei que ele cometeu o delito e que provavelmente, ele poderá apodrecer na cadeia. Eu vim de casa determinado a desistir de tudo – de repetir o discurso de ontem, com outras palavras só para passar o tempo da defesa. Contudo, nesses últimos instantes, um argumento desesperado, mas nem por isso insignificante me veio à mente. E ele se refere à muito distante, porém concreta, relação que a Senhora tem com meu cliente e comigo. Peço, de antemão, que escute a toda a minha sequência de pensamentos sem interrupções, para que então depois eu possa responder a quaisquer eventuais questionamentos da acusação. Ei-la: Conforme foi provado, pela gravação, meu cliente cometeu sim esse crime: está tudo lá. Entretanto, dentre todas as pro...