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Eu, hein!?

Dia desses travei uma luta feroz com uma amiga de longa data, a senhorita Consciência. Como em toda boa briga, não só apanhei, é claro. Bati muito também! Soquei-lhe nas suas maiores controvérsias, chutei-lhe bem em cima de suas falhas, acertei-lhe em cheio os seus arredios desacertos! Contudo, como bem já adiantei, perdi. Ora! Ela é uma monstra! E dos piores tipos! Que lhe esmaga a cada investida bem-sucedida. Sei que saí dorido, arrasado, cadente, porém, tenho certeza que ela também. Nas palavras que se seguem tentei transcrever minha cansativa desventura. E ela começava com um questionamento absorto vindo de não sei de onde, não sei que horas que dizia... – Você já se perguntou do porquê de quando você é mais novo, facilmente fala ‘eu te amo’ e agora, enquanto ‘adulto’ dificilmente o diz? Pensando sobre isso, foi que atinei sobre essa autoanálise tantas vezes negligenciada por você. Pausa: o leitor pode até achar disso tudo um esboço bobo (para não chamar ingênuo) de quere...

Ao mar.

Para uma amiga, num dia de reflexão confessei o quanto eu amava o mar. Relatei-lhe como ele, o mar, era significativo para mim. Cada átomo, cada molécula, cada proteína, cada sal, cada pedra, cada animal, cada sincronia, cada sinal, cada movimento que o constitui, tudo em sua imensurável grandeza era amado por mim! “Como eu amo o mar!” Perguntado por que, respondi que ele me envolvia, ele me refletia em dias de muita nuvem, que ele me acalmava em marés baixas, que ele me alegrava em dias de sol, que ele me apaixonava em noites de luar, que ele me limpava em suas ressacas, que ele me elevava em suas cristas, que ele me rebaixava em suas depressões, que ele me engolia em suas ondas impiedosas, que ele me movia noutras enérgicas, que ele me machucava em suas pedras sorrateiras, que ele me curava em suas águas medicinais, que ele me saciava e, acima de tudo, que ele me entendia. “Ah... mar!” Há tanto o que falar. Desse hiato cheio de coisas, só posso dizer que vou subindo e descend...

Caminhos tortos.

Venho aqui, leitor, para narrar um acontecimento estranho que me sucedeu. Fato esse que me patrocina as mais diversas tristezas e obsessões. Não quero, entretanto, com isso lhe causar similar efeito que em mim se alastra, mas é que soube por um terceiro que o dilema do outro é sempre inócuo, fácil de lidar – e por que não – de resolver. Além do mais, como escrever é sempre uma saída, me arrisco à pena. Aconteceu há um mês ou mais, contudo a repetência lancinante na minha mente dá ares de tanto frescor, que com pouco esforço até os maus odores se volatilizam por este vão escuro em que traço esse registro. Eu caminhava com a pressa dos descompensados que fogem do ócio, aquela pressa motivadora que bem o leitor conhece. Estava eu tão compenetrado em meus passos largamente vazios, que não dei conta do caminho e terminei por esbarrar em alguém. E tão automáticas quanto as minhas passadas, foram as desculpas que lhe proferi. Até aí, normal, todavia eis que aquele alguém se tornou um ma...

É tudo e nada.

Ser radical? Será que isso é tudo (ou nada)? Ou o que voga é o meio-termo de uma vida mais ou menos? O que importa é viver ou ser vívido? Aliás, devemos viver pela razão ou ser fruto da emoção? Quer dizer, devemos? Devemos nos preocupar com a fronteira entre o pensar e o sentir? Eis o embate entre emoção e razão de que sempre me esquivo. Não quero me fechar, me enclausurar num comedimento traumático, nem me entrevar em cima de uma cadeira de mágoas. Afinal, não é porque vejo uma história se repetindo que ela vá ter o mesmo desfecho. Contudo, o problema é que ela se repete. Mal cogitamos um novo final e o previsível já está lá, prostrado, como um banquete sensacional, ao qual nossa dor da fome não pode recusar. É, leitor. É fácil falar. Assim como também é fácil ler, estudar, trabalhar... O difícil mesmo é sentir. E, sobretudo, esquecer de sentir. O sentimento independe da sabedoria. É como domesticar um ser selvagem. Onde já se viu: urbanizar o gato-do-mato!? O gato-do-mato ...

Prazeres e Dolores.

Acho que escritor deve ser a profissão mais difícil de que tenho conhecimento. E não me venham dizer que almejo com isso, olhos de piedade, afinal, não tenho anseio de ser dessa raça. Além do mais, há o fato de que o escritor tem que escrever e tudo o que mais procuro é justamente a leveza do não ter que , a liberdade. Quer coisa pior do que escrever sob pressão? Pois. E o escritor o faz! Alguns até, vertiginosamente. Vale frisar, entretanto, que escritores não seguem cartilhas. Não conheço manuais de "como escrever um livro" ou "como ser escritor". Tadinhos! Escrever, sob suas próprias leis, mandamentos expelidos de uma estética letrada, de uma coerência lógica ou, o pior de todos, de seu próprio inconsciente nebuloso deve ser massacrante. É como pescar o inédito do passado: incoerente, inútil, mas possível. Escritores: flagelos de si mesmos. Por falar em flagelo, me passa pela cabeça agora a imagem de uns asiáticos fanáticos que se automutilam em devoção a se...

O impasse.

Se Deus existisse, Se o amor matasse, Se a flor não murchasse, Não haveria sequer Motivo de impasse. Se o caminho se esguia, Se a vida excrucia, Se fosse outro dia, Não saberia dizer O que é alegria. Porque infelizmente é dor O avesso do riso, E a estrada do horror É a que leva ao paraíso.

Entre o erro e o certo.

— A questão é que chega uma hora que você tem de optar entre o fácil e o certo. — Calma lá! Então, segundo o que você está me dizendo, o certo é o difícil? — Não necessariamente. — Explique-se. — Geralmente o que é mais difícil é também mais recompensador, portanto é o certo a fazer. — Ora! Você acha certo darmos uma volta ao mundo para chegar ao seu vizinho, por saber simplesmente que retroceder uns passos é o mais fácil a se fazer? — Não, mas pensando bem, é recompensador: eu conheceria o mundo! — E se houvesse urgência? Se fosse necessária sua presença imediata no seu vizinho? — Eu correria pela via mais curta. — Ou seja, a via mais fácil... — É... — Pois é... — ... — ... — Desculpa. — O perdão é a maneira certa, pois não é fácil. — Sinto muito, mas não posso compactuar com isso. Sendo assim, fumar é o certo para a vida? — Parar de fumar é o certo para o fumante. — Um mau professor é o certo para ensinar? ...