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Ingrato.

Não importa o que houver, estarei sempre errado. Se eu sinto, estou errado. Se abafo o sentimento, também estou. Se me calo, errado. Se falo, erro novamente. Como pode alguém sentir, implodir, falar ou calar um absurdo desses?

Entendo que todos erram, mas não é o caso: eu sou COMPOSTO de absurdos – diferente dos outros que no máximo, depois do que Fernando Pessoa disse em seu poema em linha reta, escorregam quando o maldito piso está molhado com a maldita água.

Mas... não importa! Tudo está resolvido: o que acontecer é culpa só minha e de mais ninguém! Um avião que caiu, a culpa é minha! Ora! Quem mais, além de mim, pode adivinhar que aquele voo iria cair? Quem mais, além de mim, poderia prever que aquela viagem não fosse finalizada? É óbvio, é evidente que é tudo culpa minha!

Quem dentre esses que me leem de tamanha coerência poderia ser culpado por se bancar de culpado? Nenhum, claro. Somente eu posso ser culpado por ser culpado. Eu! Quem é que não deve ser achincalhado, apedrejado, humilhado, espetado, pressionado, xingado e sangrado por estar sendo o coitado da situação? Eu, lógico! Situação esta obviamente tão previsível quanto à queda do avião.

Quem poderia ser tão monstruoso a ponto de ser tão sincero quanto eu ao querer ser como eu? Quem mais haveria de ser tão abjeto em querer ser quem se é quanto eu!?

Viram? Sou o culpado merecido, mas por favor, deixem-me continuar tentando ajudar-lhes com algo que talvez vocês não precisem – em troca dessa misericordiosa concessão que vocês me dão para se poder ser.


Comentários

  1. A gente só é responsável por aquilo que faz.

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  2. Não entendi essa crise de onipotência também não.
    Vc não está querendo controlar algo que não pode?

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