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A caminho.


A onda tornava a limpar seus pés cheios de areia da praia: a onda batia e toda aquela agonia do tato enlameado se dissolvia. Agora, a onda voltava e os pés já lavados, sufocados suspiravam por mais areia. E assim, o percurso continuava com pegadas recentes bem vívidas e pegadas longínquas meio apagadas entre o meio e o fim...

Talvez ele começasse a entender que o mister da caminhada não seja caminhar e sim, chegar. Ou talvez ele enfim descobrisse que na linha de chegada fosse tudo do mesmo jeito como na linha de partida e o importante, então, fosse o percurso percorrido: “os mais velhos dizem que de nada adiantam consequências sem causas, enquanto os mais novos bradam que de nada adiantam causas sem consequências”, pensava enquanto andava.

A cada nova baía, uma nova paisagem era descoberta, enquanto o mar continuava sempre lá, secando e molhando, soltando e puxando, descendo e enchendo, fazendo seu papel ora cruel, ora benévolo de consciência viva.

Enquanto andava, o andarilho não olhava pra trás e terminava por se arrepender de não ter visto a linda paisagem pela qual passou. Por outro lado, quando parava, ele se desesperava por querer sempre mais de outros lugares, por saber que há muito mais a ser descoberto. Não era um destino específico que ele queria alcançar, nem era a caminhada que lhe interessava. Era o desejo de saciar sua sina de procurar por algo que não existe.

“O novo pode horrorizar ou fascinar. O velho, preocupar e acolher.”

Ficando desse jeito num impasse insolúvel até que a onda tornava a limpar seus pés cheios de areia da praia. 

Comentários

  1. "o desejo de saciar sua sina de procurar por algo que não existe" ... tenho muito disto ...

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  2. não quero comentar o texto. quero só falar que já estou com saudade.

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